A assimetria Dilma-Cunha – sacos e farinhas

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Gosto não se discute, lamenta-se. Ideologias também. Haverá quem ponha Dilma Rousseff e Eduardo Cunha no mesmo saco, agora, após Cunha ter iniciado o impeachment. Leituras e manifestações díspares na política são válidas em qualquer democracia.

Quando se analisam detidamente esses personagens da vida brasileira atual aparecem assimetrias graves. Não a obviedade dos 60 milhões de reais continuadamente inexplicados de Cunha na Suíça. Isso já é problema policial e de Receita.

Como um passe de mágica, quando Cunha aceitou o impeachment ele perdeu poder. E Dilma talvez tenha se encorpado no quesito.

Cunha perdeu por fazer o único ato que ainda poderia fazer, a lhe sobrar, como exteriorização de poder. Enquanto não iniciava o impeachment podia continuar a chantagear como todos dizem que fez. Aí, ainda que de forma antiética, residia o seu poder. Paradoxalmente quando agiu em último ato antes da própria cassação se tornou ‘um’ dos 513 deputados. O poder continua com a máquina do governo, continua com Dilma.

Após este ato não é mais Dilma x Cunha, passou a ser ex-Cunha x Governo, este com suas articulações poderosas ou não, mas ainda visivelmente existente; este com a chave do cofre de dinheiro; este com uma militância ou o que sobra dela ainda muito ativa; este com juristas de nomeada contrários ao impeachment, e mesmo o Conselho Federal da OAB, pelo menos até aqui, tudo isso representando uma diferença visível, por exemplo do desastroso governo Collor. E finalmente este, o Governo, com o visão que todo mundo tem de que deputados são antropologicamente traíras por excelência, o que poderá representar, a esta hora da noite de 2.11 uma penca deles já ter largado o barco de Cunha com o medo interesseiro de apoiar o lado fraco da relação e não se reeleger, um dia. A única coisa no planeta que interessa a um político.

Dilma sofrer um processo de impeachment é uma coisa. Ser efetivamente impichada é outra, bem diferente. Políticos querem ter a certeza de que não darão um tiro na água, ou no próprio pé eleitoral. E com esse povo brasileiro que só sai às ruas 2 vezes por ano, e agora quando consegue sair com 20 pessoas já é capa da Veja, qual será o político que se ‘arriscará’? Ninguém está imaginando: e se Dilma, no processo, não for impichada? Se for absolvida? Qual será o saldo disso para 2018?

O processo de impeachment é essencialmente político e nisso reside a vontade constitucional. No fundo é um grande querer ou um não querer dos políticos. Só que para eles chegarem a isso milhares de contas são feitas por eles, entre votos e dinheiro.

Questionamentos há que talvez não tenham uma resposta pronta.

O maior risco é impichar Dilma ou o maior risco é não impichá-la?

Dilma sairia na ‘esperança’ de quem, Michel Temer, seu vice, o que isso consertaria?

Dilma sairia na esperança de quê, conserto, solução, melhoria, mudança, milagre?

Dilma ser impichada atende a um ódio figadal de odiadores que ‘nem podem ouvir sua voz’, ou atende a uma pauta efetivamente constitucional?

Quereria dizer o fim de Lula?

Quereria dizer o fortalecimento do eterno netinho-do-vovô Aécio Neves?

E se Dilma for absolvida?

Percebe-se que a conversa pode tomar o rumo que se quiser. Papo de boteco, que é uma delícia, ou análise política mais serena e mais profunda que também é uma delícia. Ainda que botequins sejam mil vezes melhores.

As diferenças entre Collor e Dilma, por exemplo, para quem se lembra com um mínimo de isenção, são absurdas. Já entre Dilma e Cunha há ‘60 milhões’ de diferenças, por baixo.

Se Dilma vier a ser impichada, o que pode ser uma escolha política dos políticos brasileiros, se o processo for regular, será algo legítimo. Crédulos, sonhadores e primários de plantão – totalmente diferente de cínicos, espertalhões políticos e interesseiros na troca de banda partidária de poder – só devem saber que nada vai mudar em termos gerais. Não há o ‘conserto’, o ‘jeito a se dar’, a economia não ‘entrará no rumo’. Infelizmente não há e mais uma vez a sociedade vai pagar a conta. No mínimo o impedimento de Dilma custará um preço imenso ao país. Incomensuravelmente maior que os erros de sua gestão.

Não se trata de um ruim com Dilma, pior sem ela. O caso não é ‘ela’, mas a institucionalidade, o cabimento ou não de um gravíssimo processo de impeachment.

De toda sorte as cartas estão dadas, o jogo está posto. Infelizmente observadores atentos assistirão, mais uma vez, de camarote, este triste desenrolar de um processo socialmente vergonhoso para o país que, se ultimar o impeachment exporá ao mundo o que o baronato da ditadura sempre disse: ‘o povo não sabe votar’. Claro que exporá também a malandragem antiética de políticos. Mas isso é um fato que qualquer um sabe. OBSERVATÓRIO GERAL.

Artigo republicado no BRASIL 247

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