Dá pra ‘comparar’ Bolsonaro com Haddad?

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Há quem não aceite comparações. Mas elas existem e são válidas. Uma das coisas razoáveis das comparações é escolher objetos semelhantes, possíveis. Se não, não é uma comparação, mas uma tolice. Em uma palavra, só se comparam coisas ‘comparáveis’.

 

O que se pode falar de mais negativo de um e outro candidato que possa resumir um ‘tudo’ de cada um deles? Tome-se o método de utilizar o que odiadores de plantão, essa gente tosca tão em moda ultimamente, poderiam falar do candidato adversário, com algum fundamento.

 

De Haddad, os que não podem ouvir falar em ‘PT’, dirão primeiramente que ele é do PT; que o líder máximo do PT é um presidiário; que o governo Dilma foi péssimo a ponto de ela ter sofrido impeachment; que Haddad como prefeito foi o pior dos prefeitos de toda a história do país etc.

 

De Bolsonaro, os que não o ‘aprovam’, dizem que ele é preconceituoso, racista, homofóbico, radical e que representa uma ameaça à democracia porque flerta o tempo todo com intervenções militares ou saídas por meios militares para possíveis crises do país.

 

No total de 9 ‘argumentos’ acima, a ambos os candidatos, há duas categorias envolvidas, isto é importante. Uma é ligada a juízos de valor, assim, pertencem a esta categoria todos os fatores atribuídos indistintamente a Haddad e todos os atribuídos a Bolsonaro, menos, aqui, o último – ameaça à democracia.

 

O último fator atribuído a Bolsonaro desequilibra toda e qualquer análise e se diferencia de todos os outros 8 fatores, ainda que possa ser um corolário para a compreensão de o que Bolsonaro seja ou possa ser.

 

O fato de se suspeitar que Bolsonaro seja um risco à democracia não pertence à mesma categoria de fatores críticos de qualidade ou prestabilidade próprios de um juízo de valor, possível a qualquer pessoa. Por exemplo, fazendo-se um paralelo com dois times de futebol, no sentido de saber qual é o melhor, não seria um fator ‘possível’ para a análise, haver um jogador que ameace furar a bola. Neste caso não se está diante de jogo, mas de outra coisa, faniquito, birra, ignorância, truculência ou o nome que se queira dar. O certo é que, furar a bola, jogo não é.

 

Ser Bolsonaro, como parece, um risco à existência ou continuidade da democracia no Brasil, só isso, é um fator de análise que não guarda relação com nenhum outro fator possível, bom ou mal, num país democrático.

 

Goste-se ou não de Haddad ou de Bolsonaro, critique-se um ou outro, ache-se o que se quiser achar de um ou outro. Tudo é legítimo. Mas se houver, em qualquer eleição de qualquer país democrático, um candidato que possa representar ameaça à democracia pela ruptura constitucional e fechamento das instituições com instalação de força armada militar para soluções de problemas, estar-se-á diante não de um jogo legítimo, jogável, mas de um evento que nunca se legitima.

 

Tem mais. E aqui piora. A mera suposição, suspeita ou risco de que qualquer candidato, em uma eleição – evento social democrático e hábil à escolha normal de governantes-, ‘pregue’ intervenção militar, já o deslegitima ao próprio evento.

 

Esta eleição não está marcada por análises cultas, feitas naturalmente por intelectuais, observadores ou estudiosos que possam ‘contribuir’ para com a sociedade. Nada disso. Em épocas de Google e Zap, esta sociedade sabe tudo, opina com a certeza própria dos imbecis sobre tudo e dispensa qualquer cientista social. Queimem-se as análises, os debates e os estudiosos. Venham a fofoca, os energúmenos filminhos de Zap que alegram idiotas, e as mentiras as mais toscas. Até parece que se fala de uma sociedade ultraevoluída e anárquica que teria um prazer – delicioso… – em ver o circo pegar fogo. Nada disso. Fala-se de uma sociedade tacanha, moralista, careta, ultraconservadora e violenta que mata 60 mil pessoas por ano, ou aceita que matem, sem uma convulsão social.

 

Não, realmente não dá para comparar Haddad com Bolsonaro. Talvez Haddad mereça ‘perder’ de verdade. Pensando-se pessoalmente nele, um mestre em Direito e doutor em filosofia, perder para Bolsonaro não se lhe retirará nada. Talvez acrescente em sua biografia.

 

Para os que odeiam o PT – e todos esses têm suas razões e fundamentos válidos-, a vitória de Bolsonaro ‘esmagará’ o PT. Colocará o PT no ‘seu devido lugar’. Representará a devida ‘humilhação’ do inimigo, ops, do adversário de Bolsonaro. E dirão em espuma de preconceito, o Brasil será lindo como uma suntuosa nádega de uma ipanemense ‘trabalhada’ à beira mar.

 

Em vez desse ódio vingativo todo, que também agride jornalistas diariamente (!), conforme grupo de e-mails da ABRAJI – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo-, a sociedade brasileira esta, de classe média urbana, deveria estar preocupada consigo.

 

Querem eleger Bolsonaro? Sem problema. O voto é soberano. A elegibilidade dele é totalmente legítima. Só deixa de sê-lo quando se aventa a hipótese da furibunda intervenção militar. Aí cessam as críticas, as análises e as esperanças. Aí as pombas da paz e da alegria se vão. Chegam os corvos da morte. E a culpa jamais seria do pobre Bolsonaro, um refém atônito e continuadamente sem argumento de uma impetuosa e sonhática sociedade que o elegeu.

 

Jean Menezes de Aguiar

 

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Categorias:Política

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