Governo, terraplanice, idiotices e ciência

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Certa vez perguntei numa sala de aula de graduação o que era ‘ciência’. Uma aluna bem-humorada respondeu de imediato: ‘ciência é aquela coisa chata que só aqueles caras chatos querem estudar’. Veja que resposta espetacular. Imediatamente argumentei que ela merecia um ‘dez’. Não pelo conteúdo da resposta, mas pela sinceridade.

 

1. Acreditar. Este [longo e cansativo] artigo é em homenagem a pessoas crédulas; as que ‘acreditam’. Em qualquer coisa. Num cientista, num filminho de Youtube, no filho de qualquer um, num artiguinho como este, num guru, numa notícia etc. Na ciência, as pessoas estudam, pesquisam, criticam e se aprofundam seriamente e muitas vezes só conseguem construir apenas mais um questionamento. Já as pessoas que acreditam têm ‘certezas’ inabaláveis. Fincam-se em processos ‘lógicos’ particulares inquebrantáveis, e, claro, fazem defesas figadais de suas ‘teses’, por mais estranhas – ou erradas- que possam ser.

 

Acreditar é algo poeticamente ‘bonito’. Nada contra. Só não vale – zero!-, para quando o assunto é ciência e requer métodos, demonstrações e conhecimento aprofundado. Aí começa o problema do nosso crente. Como na vida de quem acredita, sua visão de mundo é apoiada num acreditar genérico, o crente acaba ‘projetando’ sua crença para temas científicos. Aí está o erro de cruzamento gerador do desastre de compreensão. Em assuntos científicos pode-se tudo, duvidar ao infinito, mas ‘crer’, jamais.

 

Por outro lado, o nosso agente que acredita, invariavelmente, é chegado a um bom ‘argumento de autoridade’, coisa totalmente imprestável para a maioria das ciências. São argumentos de autoridade a busca de se convencer o outro pela ‘titulação’ de quem fala; pela ‘importância’ de quem apresenta uma teoria etc. Mas este texto trará várias citações de pessoas historicamente importantes e tituladas numa mera tentativa de ‘sugerir’ – nada mais que isso- pistas, questionamentos e métodos de pensamento para se manusear qualquer tema científico. Ou seja, ‘seria’ importante que o crente apenas pensasse, com e por sua cabeça. Mesmo sabendo-se que pensar corretamente, superproduto da Lógica, por exemplo, possa ser algo tão angustiantemente difícil.

 

Como o tema inicial é a crença, começa-se – sempre ele- pelo filósofo Gaston Bachelard que ensina, espetacularmente, que ‘Não se acredita porque é simples, é simples porque se acredita. O grande pensador, em sua tese de doutorado, Ensaio Sobre o Conhecimento Aproximado, 1928, mostra nessa frase magistral a inversão de valores e o equívoco primário que a inversão gera, comprometendo toda a demonstração de quem ‘acredita’, sem um senso crítico e aprofundado. O crente, em muitos casos, não tem diante de si uma estrutura intelectiva simples, mas como ele acredita no que lhe ‘contam’, ou no que lhe dá ‘prazer’, ele não verifica nada, não se aprofunda em nada, não pesquisa, não estuda, não se informa e não critica, apenas crê. E daí cria certezas monstruosas. Como monstruoso será o nível do seu equívoco.

 

O mesmo Bachelard, agora abordando o difícil tema da ‘verdade’, ensinará que ‘Só encontramos uma solução possível para o problema da verdade quando afastamos erros cada vez mais refinados. Para se ‘chegar’ a um erro qualquer, num tema científico, já é algo difícil, quanto mais a um erro refinado. Pressupõem-se anos ou até décadas de estudo e dedicação.

 

Aí, então, começam-se a desenhar dois cenários possíveis para uma conversa, sobre qualquer assunto científico. O cenário de botequim e o cenário de reflexão. Na descontração do botequim ‘não há’ erros ou acertos, a conversa gira em torno de opiniões – meras opiniões. O mesmo Bachelard, noutra obra, A Formação do Espírito Científico, 1938, ensina: ‘A ciência, por princípio, opõe-se absolutamente à opinião… Não se pode basear nada na opinião: antes de tudo, é preciso destruí-la. Ela é o primeiro obstáculo a ser superado… O espírito científico proíbe que tenhamos uma opinião sobre questões que não sabemos formular com clareza’. Alguém dirá que ciência, então, é uma coisa chata. Talvez não seja chata, para quem goste, mas é muito lenta e necessariamente refletida, em 100% dos casos. E nunca há obviedades. O mesmo Bachelard finaliza: ‘Nada é evidente. Nada é gratuito. Tudo é construído.’ Mas no papo de botequim, tudo é claro, óbvio, evidente e certo.

 

O segundo cenário é o da reflexão. Ela é lenta, morosa, encharcada de voltas e dúvidas, mas ela também se critica o tempo todo e custa, muito, a permitir que se chegue a uma conclusão. Qualquer pressa, evidência ou argumento do tipo ‘isto está na cara’ são coisas primárias, erradas e simplesmente imprestáveis. O reino da reflexão não é para pessoas comuns, definitivamente não é. A ‘formação’ do espírito científico, ensinada por Gaston Bachelard – e por qualquer metodólogo- parte da lentidão da reflexão. Pessoas ‘comuns’ têm pressas, concluem rapidamente, vivem de ‘entendimentos’ já no segundo seguinte ao que tomou conhecimento de alguma coisa. Não precisam pensar, refletir para se ‘acostumar’ a uma ideia. Gabam-se no sentido de terem um tal do ‘raciocínio rápido’ para responder imediatamente a tudo sem reflexão, sem análise, sem maturação intelectiva. O cenário avesso à reflexão tem por objetivo nocautear o adversário da conversa, ‘lacrar’, como fúteis do intelecto da atualidade costumam se referir; enquanto que o pensamento científico tem por meta somar com o parceiro de reflexão. Vê-se que ambos os cenários são irremediavelmente opostos. Agora é só escolher o que lhe dá prazer.

 

Com os 2 ‘cenários’ acima, há 4 possibilidades. 1) o crente querer convencer um crente; 2) o crente querer convencer um reflexivo; 3) um reflexivo querer convencer um reflexivo; e 4) um reflexivo querer convencer um crente. A conversa será mais ou menos lenta, berrada, aguerrida ou demonstrada de acordo com os atores envolvidos. Nos casos 1) e 2) haverá muito baixa reflexão e grande tentativa por ‘convencimento’. Na hipótese 3) haverá somente reflexões e grande dificuldade com ‘convencimento’, até porque o intuito não é o de converter ninguém, mas compreender. Na hipótese 4) talvez a conversa cesse no nascedouro, ao primeiro sinal, para o reflexivo, de que seu interlocutor crente não consegue pensar crítica ou pausadamente.

 

‘Convencer’ alguém minimamente escolarizado e crítico requer coerência e demonstração, pautas sabidamente racionais que, quem não pensa objetivamente, ou seja, sem os encharcamentos de subjetivismos e opiniões- terá imensa dificuldade.

 

2. Ignorância. No lado oposto do estudo da inteligência e do saber está a ignorância, tema memorável para inúmeros filósofos, principalmente quando a ignorância usa roupas e automóveis caros . Sobre ela há infinitas passagens na ciência e na filosofia. Charles Darwin, citado pelo biólogo Sandro de Souza no livro A Goleada de Darwin, 2009, já disparava: ‘A ignorância alimenta a confiança mais frequentemente do que o conhecimento: são aqueles que sabem pouco, e não aqueles que sabem muito, os que tão confiantemente assumem que esse ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência.’ Aí já se veem alguns traços da ignorância. Em primeiro lugar, o pouco saber; em segundo, uma hiperconfiança pessoal automática; em terceiro, a certeza, própria do ser ignorante. Percebe-se que o mero ato de conversa corriqueira com uma pessoa dessas pode ser um esforço hercúleo; ela ‘sabe’ tudo, opina sobre tudo, tem certeza sobre tudo.

 

Sociologicamente, quando as certezas ‘ignorantes’ são difundidas e se chega a um momento político como este presente de 2019 no Brasil, em que bolsões gigantescos de pessoas absolutamente nada estudiosas nutrem certezas fixíssimas, sobre praticamente tudo, vem a época da polarização e com ela, a reboque, o ódio e o preconceito. Nunca se odiou tanto, nunca se ofendeu tanto quanto atualmente nas redes sociais. O filósofo Paul Feyerabend, no livro Adeus à Razão, 1987, reclamando da civilização ocidental que valoriza muito mais a ‘eficiência’ a ponto de reduzir objeções éticas à ingenuidade, menciona que ‘há muita semelhança entre a civilização e o espírito de Auschwitz’. Queira isso dizer o que quiser, o certo é que nenhuma crítica como essa poderia sequer ser feita. E ela cabe. Nada, a não ser a ignorância – e o então boçalismo da raça superior- poderiam ligar qualquer sociedade a um espírito de campo de concentração. E a crítica se mantém.

 

Sobre esse objeto de investigação que é o próprio ser humano, Alexandre Koyré, na obra Estudos de História do Pensamento Científico, 1973, ensina o paradoxo que há: ‘O homem não é naturalmente animado do desejo de compreender. Logo o homem, o único animal dotado de compreensão, não se dedica fundamentalmente ao ato de compreender. E no sentido oposto, mas agudizando a análise está Horkheimer, no livro Dialética do Esclarecimento, 1944, em crítica aberta aos judeus quando na era hitlerista menosprezaram a chance de Hitler chegar ao poder com ‘juízos bem informados e perspicazes’ que começavam com as palavras Afinal de contas, disso eu entendo’.

 

Vê-se aí ao mesmo tempo um fastio futilizado à compreensão, como se ela não fosse necessária, e, paradoxalmente, uma arrogância, então aporética, em deter conhecimento. A falta de consciência crítica por um lado, e a falta de uma ética da parcimônia por outro, fabricam a mais pura arrogância, impedindo a compreensão e projetando seu utente em certezas ferozes, e desastrosas. Não sem razão, Nicolau de Cusa, citado por Koyré, na obra Do Mundo Fechado ao Universo Infinito, 1957, já afirmava que ‘o intelecto é o único agente capaz de praticar a douta ignorância’.

 

3. Ciência. Há um afã por se apropriar do termo ‘científico’ para defesa de ideias. O leigo já ouviu falar que ‘se é científico, é certo’. Este enviesamento idiota orna a cabeça de pessoas errantes que apõem o ‘científico’ em tudo, produtos, atividades, referências, ideias e conhecimentos em geral. Certamente enganam outros tolos. Vive-se a guerra de não se saber o que é ciência e ao mesmo tempo almejar a sua grife. Continuo, pacientemente, a pedir, há décadas, em salas de aula de pós-graduação, um único conceito de ‘ciência’. As respostas são autoritárias e desalentadoras. Uma aluna de graduação de décimo período veio a mim, certa vez, e me advertiu, carinhosamente: ‘professor, o único que fala em ciência aqui na faculdade é você!’. Ela queria dizer, pare com isso! Rapidamente percebi a tragédia na formação de toda essa pobre gente da atualidade. Como dizia Carl Sagan, analfabeta cientificamente.

 

Mas vamos à ciência. O nosso crédulo, aquele que ‘sabe’ que as coisas são sempre simples, claras, transparentes e óbvias, porque acredita, é claro, pega uma ‘teoria’ estapafúrdia qualquer para chamar de sua. Simples assim. Não interessa se ela é contrária a todo um lento e seguro desenvolvimento científico de décadas ou séculos, em todo o mundo científico. Para ele, basta conseguir meia dúzia de cientistas-gurus. É o que lhe basta. Thomas S. Kuhn, no mais famoso livro contemporâneo sobre como a ciência se transforma ou evolui, cunhando o conceito de ‘paradigma’, A Estrutura das Revoluções Científicas, 1962, ensina que ‘Para ser aceita como paradigma, uma teoria deve parecer melhor que suas competidoras, mas não precisa (e de fato isso nunca acontece) explicar todos os fatos com os quais pode ser confrontada.

 

Nas questões atuais – pelo menos as científicas-, defendidas expressa ou nem mais tanto disfarçadamente pelo governo brasileiro deste 2019, do terraplanismo (Física), da inexistência de aquecimento global (Física), e da ameaça comunista (Ciência Política), em que fundamentalistas eleitorais automáticos – ou seja, crédulos ideológicos do governo- conseguiram encontrar a tal meia dúzia de cientistas-gurus para fabricar suas ‘certezas’, há, nas primeiras duas questões, contra os tais gurus ideológicos desta ‘ciência’, milhares de cientistas seniores. Sim, milhares. Por exemplo, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática reúne espetaculares 3.000 cientistas apontados pelas Nações Unidas por meio de agências de ciências do mundo todo para o estudo da Mudança Climática. Além disso são centenas de universidades e agências de ciência e pesquisa pelo mundo todo dizendo metodologicamente o contrário dessas sandices. Se este elemento ‘quantitativo’ maciço, e naturalmente metaideológico, não é ‘suficiente’ para, pelo menos, gerar alguma ‘desconfiança’ de que a meia dúzia de cientistas-gurus pode ser uma fraude ou uma estapafurdice, então que se perquira a qualidade da formação do paradigma, com Thomas Kuhn: seriam estas ‘teorias’ melhores que suas ‘competidoras’? Chegam elas a sugerir, sequer, possam ser consideradas paradigmáticas?

 

A resposta, segundo historiadores da ciência e metodólogos não poderá deixar de ser um retumbante ‘não’. Não há qualquer indicativo de que essas ‘teorias’ de terraplanismo ou inexistência de aquecimento global resistam, por exemplo, ao princípio epistemológico da Navalha de Occam (https://pt.wikipedia.org/wiki/Navalha_de_Occam) ou ao conceito de ‘paradigma’ de Kuhn. Por terceiro, não há método científico minimamente referendado para essas questões que sustente precisamente o ‘ineditismo’ – considerada a massiva evolução científica a que já se chegou na atualidade- a que pretendem.

 

Um dos grandes entraves nessas ‘discussões’, percebe-se, é o que Kuhn anota em seu livro, quando se refere a um grupo de estudiosos (Alexandre Koyré, Émile Meyerson, Hélène Metzger e Anneliese Maier) que mostrou àquele físico teórico ‘o que era pensar cientificamente. Como as pessoas não são educadas em ciência, não pensam cientificamente, têm predileções por atalhos, facilidades, gostos e crenças.

 

Ainda no item ‘ciência’, é importante o que outro físico teórico, Mario Bunge, na obra Teoria e Realidade, 1974, sintetiza sobre as teorias fatuais. Ele arrola 5 grupos de sintomas de verdade – sintático, semântico, epistemológico, metodológico e filosófico, cada um dando origem a critérios que ele chamará critérios de contraste, num total de 20, que são: correção sintática, sistematicidade ou unidade conceitual, exatidão linguística, interpretabilidade empírica, representatividade, simplicidade semântica, coerência externa, poder explanatório, poder de previsão, profundidade, extensibilidade ou possibilidade de expansão para novos domínios, fertilidade, originalidade, escrutabilidade, refutabilidade, confirmabilidade, simplicidade metodológica, nível de parcimônia, justeza metacientífica e compatibilidade de cosmovisão.

 

Na deliciosa conversa de botequim, nada disso ‘entra’. Mas quando se quer falar ‘mais’ a sério, algum rigor, ainda que toda essa tralha teórica não se faça presente, costuma orientar o debate. Por aí se percebe que uma ‘teoria’ para se firmar como tal, não basta alguém ‘querê-la’ como sua; não basta ter conseguido meia dúzia de cientistas-gurus para contrariar todo o universo da ciência, ancorado em alguma ideologia partidária ou religiosa de plantão, para que visões científicas, evoluções e teorias cosmogônicas, por exemplo, caiam por terra.

 

O biólogo Ernst Mayr, na longa série de livros sobre a Evolução (O que É a Evolução, 2001; Biologia Ciência Única, 2004; Isto é Biologia, 1997; Uma Ampla discussão, 2006 etc.) mostra que ‘130 anos de refutações infelizes resultaram num imenso aumento de poder do Darwinismo e que a teoria fundamental da evolução, por todas as confirmações dos biólogos ao longo das décadas, deixa de ser uma teoria e passa a ser considerada um ‘fato’ por qualquer biólogo sério da atualidade.

 

4. Conclusões. Com este texto naturalmente não científico, quero apenas instigar questionamentos, sugerir pistas para, quem sabe, ‘algum’ senso crítico e ‘respeito’ (…), que seja, pela ciência possa vir a ocupar as mentes das pessoas sem formação na área. Não bastam, numa conversa coloquial, alguém sacar, do nada, que isso ou aquilo ‘é científico’; que o professor fulano de tal, cientista ‘renomado’, ‘garante’ que isso seja assim ou assado; que um filminho de Youtube demonstre ‘cabalmente’ que uma [isolada] teoria contesta [toda] a ciência de uma determinada área. Essas afirmações ou situações são metodologicamente famélicas e têm nome próprio na ciência e na filosofia: ‘argumento de autoridade’. Carl Sagan, até sua morte, dizia que apenas um presidente norteamericano não era analfabeto cientificamente, Thomas Jefferson. Não chegou a conhecer Barack Obama, certamente chancelaria esse segundo. Ser cientificamente alfabetizado poderia ser compreendido como tendo sido educado com a pesquisa, o questionamento, a crítica, a investigação sistemática e o método. Nada disso foi e continua não sendo a prática ou o cotidiano de uma sociedade como a brasileira que alimenta tristes bolsões gigantescos de neofundamentalistas religiosos, em anacronismo e desconfiança tacanha para com a ciência, marcas de atraso de um povo. Atualmente já se vê um exército ideológico de crentes eleitorais em modelos tenebrosos de pseudociência difundida na internet. Mario Bunge ensina que a pseudociência ‘serve a um propósito proveitoso para seus empresários e até ocasionalmente para as suas vítimas, pessoas sem a menor possibilidade de ‘distinguir sistemas não-científicos de científicos’ e manejar critérios de avaliação que podem ‘eliminar teorias pseudocientíficas’.

 

A conversa de botequim é um espetáculo. O problema é que todo mundo quer ‘lacrar’ suas ideias, ideologias, ídolos, ‘teses’ e falas com o ‘carimbo’ da ciência. Até engana. Há um mar de tolos no país, como aqueles que acreditam que vão ‘ganhar’ uma mala de viagem no quiosque-falcatrua do aeroporto. Pobre Brasil.

Jean Menezes de Aguiar

 

 

 

 

 

 



Categorias:Cultura, Filosofia, Política

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