O Brasil obscurantista de 2020

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O obscurantismo sempre interessou a pensadores e estudiosos. Jürgen Habermas escreveu o livro ‘A Nova Obscuridade’ em que analisa algumas fronteiras culturais e suas viradas de ‘épocas’ ao longo da história recente.

 

Outros, como Adorno e Horkheimer, dedicando-se ao ‘esclarecimento’ não deixam de combater formas de obscurantismo.

 

Também, não seria de todo errado dizer que a filosofia e a ciência, como um todo, buscaram melhorar o impacto devastador que sempre causaram na sociedade os mitos, as crendices, os medos e toda uma insuficiência de conhecimento que efetivamente vitimou e continua a vitimar um grande número de pessoas.

 

Entenda-se o ‘vitimar’ como se quiser, desde mentes presas a tormentos infantilizados como diabos, infernos e demônios, até modelos ligados à pseudociência, como, por exemplo, a patética crença na cloroquina, que marcará o mortal ano brasileiro de 2020.

 

Historiadores e filósofos da ciência, por todo o mundo, conhecem e relatam, em seus livros, inúmeras passagens do obscurantismo mais ou menos próprio de cada século ou fase evolutiva da sociedade.

 

O fato é que o ano de 2020 para o Brasil está se mostrando um desesperador exemplo de atraso e crendice autoritária.

 

Alguma análise pode começar pela suposição de o que o astrônomo Carl Sagan chama de ‘analfabetismo científico’. No caso, ligado a imenso bolsão da sociedade brasileira. Parece haver aí, infelizmente, um fato incontestável. Não apenas pessoas radicalmente religiosas, um novo fenômeno social brasileiro, mas grande parte da sociedade em geral não compreendem a ciência. E mais, não a aceitam.

 

Considerando-se, genericamente, a sociedade com este perfil, há se imaginar consequências graves para todos.

 

O teimoso episódio ‘cloroquina’ oferece uma ruptura de grande parte da sociedade com a ciência de forma visível e barulhenta. Mas repare, a ciência, que nunca fez mal a ninguém, diferentemente do Judiciário, da política, da criminalidade, dos governos e alguns outros atores e fatores sociais que se mostram, historicamente, danosos, pelo menos potencialmente, em alguma medida à sociedade.

 

A ciência quando aparece ou é notícia, costuma ser para encantar, trazer boas informações ou incentivar no campo da educação. A figura do cientista, mesmo ainda sendo confundida, de modo primário que seja, com um professor Pardal respingado por alguma espuma misteriosa dalgum laboratório, atrai doçuras e esperanças. Pais têm orgulho que o filho ou a filha queiram ser cientista.

 

Certamente nunca houve, no Brasil, um movimento contrário à ciência como este atual da cloroquina, o que é, sem sombra de dúvida, denotador de um tipo de obscurantismo ativo e danoso. Estudiosos e pesquisadores se mostram atônicos em seus institutos, entidades e corporações. Editoriais têm sido feito, delicados e respeitosos, contra as crendices obscurantistas carreadas pela cisma, nada inteligente, na cloroquina.

 

O episódio do virulento ataque virtual à SBI, Sociedade Brasileira de Imunologia, porque teceu considerações científicas sobre a cloroquina, pode ser, e pode não é isolado. Pode ser, porque ignorantes de internet, que sequer conseguem saber o que possa ser ‘imunologia’, declaram guerra política do tipo manada a tudo que contradiga a cloroquina, ante uma mistificação personalista bolsonariana. E pode não ser, se se considerar que haveria um interesse em enfraquecer a ciência como um todo, visando à manutenção de um povo inesclarecido e dócil, que tanto remunera ‘igrejas’ como reelege um presidente sem pensar criticamente.

 

De toda sorte, e sem se precisar considerar outros fatores, como o recentíssimo e exaustivo estudo com nada menos que 55 hospitais brasileiros que concluíram ser a cloroquina ineficiente para a Covid19, o fato é que tudo isso retrata um Brasil tacanho e atrasado.

 

A raiz é uma ruptura com a ciência sem que exista, entretanto, por muitos aí, um mínimo conhecimento sobre ela. Rompeu-se com a ciência, altivamente, mesmo sem se conseguir, minimamente, conceituá-la, saber o que é, sua estrutura, funcionalidade e métodos. Veem-se completos ignorantes xingando a OMS.

 

Vive-se um tempo de certo neo-pré-iluminismo, em que parece que algum gênio de escol virá para mostrar que todos estes radicais e odiadores mitológicos, nitidamente fascistas, se é que  compreendem o termo, estão errados. O problema é que na formidável história da ignorância o néscio continua a ser seu sábio.

 

 

Jean Menezes de Aguiar



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