
Segurança é um tema sempre muito próprio do livre arbítrio de cada um. Há quem se preocupe, e há quem não queira nem ouvir falar do assunto. Ocorre que com a banalização e explosão de criminalidade, e a praticamente inexistência de polícia de investigação no país, o resultado não poderia ser outro.
Morar em casa, de rua, na cidade ou numa semirroça, um lugar um pouco afastado, traz coisas boas, e outras complicadas. Não se sofrerá as imposições autoritárias de um condomínio, mas também não se contará com a sua segurança.
Há medidas coletivas fáceis, baratas e inteligentes, para casas vizinhas, como campainhas de pânico intercasas, códigos de buzina etc., mas muita gente acaba não se interessando por proteção preventiva. Um argumento-crença que muitos acham válido é: aqui nunca houve nada, minha casa nunca foi assaltada. Como se o passado impusesse o futuro. Triste engano. Assim, criar grupos para brincar de segurança no WsApp continua sendo muito mais ‘divertido’.
O problema crítico e trágico da segurança é o que se pode chamar de Evento 1 (E1). Ou seja, basta um único e primeiro evento ruim, seja um assalto, uma invasão, uma briga para se estar sujeito a uma verdadeira tragédia. Sem rodeios, leiam-se, dentre outras coisas, homicídio e estupro, inclusive de menores. Assim, há que se cuidar para se evitar, a todo custo, o E1.
O filme O Guarda Costas, mostra bem a realidade da segurança. Frank Farmer, vivido por Kevin Costner, um ex-agente do Serviço Secreto, quando é contratado para cuidar da segurança da cantora famosa Rachel Marron, vivida por Withney Houston, é ridicularizado por todos os empregados da cantora que acham que ele é um lunático com segurança. Mas ao final o E1 ocorre como ele previa e a cantora só é salva da morte porque o mocinho se atira feito goleiro na frente do projétil. O que fica do filme é a lição de pessoas amadoras e inexperientes em segurança ‘achando’ não precisam se cuidar.
Segurança é algo ilimitado, vai desde a segurança pessoal do presidente dos Estados Unidos até a de um simples morador de uma casa. O caso é que se ocorrer o E1 alguém pode morrer. Numa invasão residencial, com o que se conhece como ‘abafamento’, todos da família são obrigados ao silêncio, e aí os bandidos fazem o que quiserem, com quem quiserem. Assim, as sequelas com outros tipos de crimes como abusos e torturas são graves.
Manuais ensinam que segurança se dá em camadas, como uma cebola. Inicia-se distante da pessoa a ser protegida, com câmeras nas ruas, depois mecanismos dificultadores de invasão, sensores nos muros e portões, depois câmeras internas, aí surge o alarme vivo, cães de guarda, até se chegar à própria pessoa.
Relativamente à pessoa, há dois fatores costumeiramente considerados horríveis por muita gente. O primeiro é a mudança para um comportamento preventivo. O segundo, a arma de fogo. A desculpa para não se querer adotar ambos é que, relativamente ao primeiro, o comportamento, alega-se que não se pode ficar ‘neurótico’ por causa de segurança. O caso é que uma prevenção inteligente e constante não tem nada que ver com neurose, mas um cuidado inclusive com outras pessoas da família. Já quanto à arma de fogo, é outra complicação. Famílias e um número incontável de mulheres (americanas!) têm arma de fogo em casa e, após algum treinamento, sentem-se absolutamente protegidas. Como primeiro sinal de invasão, a arma é um fator absolutamente funcional para fazer invasores desistirem imediatamente, saírem correndo. Há uma infinidade de vídeos na internet, todos neste sentido. Assim, arma não quer dizer necessariamente matar alguém. Mas, compreende-se o pânico irrefletido que o tema suscita. De toda forma, todos os sistemas jurídicos do mundo acatam a legítima defesa. Ou seja, consideram, sem qualquer discussão, que a vida do bandido vale muito, muito menos que a sua.
Pacifistas e outros descolados da moda contemporânea costumam se orgulhar de ser ‘absolutamente contra’ a arma de fogo, mesmo para defesa da sua vida e familiares. Só esquecem que bandidos, invasores, assaltantes e estupradores não tem esta mesma ideologia ‘bacana’. Também, o Enzo ou a Princesa, o cachorrinho pompom, ou a Vagarosa, a tartaruga de estimação, não resolvem numa invasão. O grande valor funcional do cão de guarda é basicamente a intimidação.
Para a sorte do brasileiro, o ladrão nacional é, isto é fato, uma criatura severamente deficitária no quesito inteligência, só que o delinquente, até pela estupidez endógena, costuma causar graves danos às vítimas. Assim, são duas opções, ou se protege, verdadeiramente, ou se fica exposto. E a não proteção não expõe apenas quem ideologicamente não quer saber de segurança, mas pessoas do convívio totalmente inocentes.
Segurança pessoal e residencial é consciência, análise e operacionalidade com risco. Desde que o risco exista, há que se cuidar de sua redução drástica. Quem tem mulheres e meninas em casa tem que saber que o risco se multiplica por mil, diante de uma invasão, por questões óbvias. Depois de uma invasão não adianta mais querer se vingar.
Ter que se preocupar com segurança é uma coisa bastante ruim da vida atual, mas não tem jeito. Não à toa, São Paulo é a cidade que mais blinda automóveis no planeta.
Apenas ‘falar’ insistentemente do assunto e se horrorizar em grupos de WsApp, e soltando um sobrenatural ‘misericórdia!’ a cada notícia com a violência, não é mudar hábitos, nem reduzir riscos. Em termos práticos e efetivos, isso não adianta nada.
Nos lugares mais pacatos e amistosos a insegurança chegou. Há 15 dias, a residência dos proprietários de um grande comércio, a 1 quilômetro da minha casa, na roça, sofreu um E1, absolutamente trágico, com espancamento, tortura, roubo e morte. Os traumas, imaginam-se, não passarão facilmente.
Cuidar da segurança não é questão de medo ou de pensar negativamente, mas sim de inteligência e sabedoria.
Jean Menezes de Aguiar.
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