Artigo: “Qual democracia?”

Urna

Fabio Galazzo. “É curioso como nos dias de hoje habituou-se a inserir a palavra “democracia” em tudo o que é possível, deixando a impressão que ela serve para qualquer tipo de coisa, assunto ou situação (e talvez seja quase isso). Observada sob um prisma maniqueísta que define de forma absoluta que o democrático é bonito e o anti-democrático feio, o termo vem sendo vulgarizado para justificar as mais diversas teses em que possa ser inserida a manifestação de opinião.

Torna-se então, não raras as vezes, um belíssimo lugar comum onde dormem discussões perdidas e argumentos inconsistentes. De qualquer forma, é inegável reconhecer a expansão de significado e utilidade do termo. Porém,quando se abre demais o sentido de uma palavra,corre-se o risco de se perder o seu significado original e a reflexão sobre ele.

Nos tempos em que “tudo é democracia”, e que ela aparenta avançar nos mínimos meandros do cotidiano social, muitas vezes confundida com a mera liberdade de expressão, a sua manifestação “stricto sensu” vai muito mal das pernas.

Pois bem. E o que é democracia? Surgida na Grécia antiga, chama-se democracia, em sentido “original”, o regime de governo no qual os cidadãos tem o direito/dever de contribuírem com sua opinião em forma de voto e assim ditar os rumos políticos e administrativos de determinada organização social. É um regime que representa a todos, porém o voto da maioria é o que prevalece (Demos = Povo, Cratos = Poder). Ou ainda nas palavras do saudoso cientista político italiano Norberto Bobbio, a democracia é a “regra do jogo”, o instrumento pelo qual se legitima a tomada das decisões mais importantes para determinada organização social, seja diretamente ou por representação.

Ocorre que nos dias de hoje, devido à complexidade do sistema político e jurídico e do volume de decisões a serem tomadas diariamente, há quase que obrigatoriedade da representação política no Estado Democrático de Direito. Escolhemos através do voto aqueles que representarão nossos interesses nas várias esferas de governo. Porém entre a democrática escolha desse candidato e o exercício de representação do mesmo em relação à vontade popular, criou-se uma disparidade avassaladora.

A democracia assim como a política, são exemplos perfeitamente cabíveis na teoria do caos, devido à infinidade de fatores que influenciam o seu resultado, que nunca é preciso e raramente previsível. Os partidos políticos que deveriam ser o elo de ligação entre o povo e o governo, portanto peça de fundamental importância no sistema democrático, nada mais são que empresas que trabalham com  aluguel de vagas políticas e consequentemente tráfico de influência para corruptos, aspirantes e afins, nada mais. Sujeitos a todo tipo de pressão e financiamento, não possuem ideologia ou filosofia que não seja apegada ao lucro. Os políticos integrantes já se corrompem para poder adentrar nesses bordéis políticos e lá orgulham-se em prostituir-se com maior ou menor competência e nenhuma vergonha.

Por trás desse antro, comandando os cordões das marionetes, estão os verdadeiros donos da democracia, os detentores do poderio econômico, as grandes empresas que manipulam a máquina estatal por meio do dinheiro que financia os partidos e candidatos. O inimigo evidente de outros tempos, quando tínhamos o opressor e o oprimido claramente delineados, hoje sabiamente se esconde.

O povo, mantido à margem do conhecimento, chutado e esculhambado pela proposital falta de políticas sociais ainda é obrigado a votar, e invariavelmente vota mal, óbvio, de barriga vazia se discute a comida e não a política. Vende seu voto de forma direta ou indireta, conscientemente ou não, e ainda é iludido por marqueteiros que manipulam candidatos-palhaços com discursos televisivos e falsas promessas que perpetuam a miséria. O povo acreditando em um futuro melhor, elege os agentes de sua desgraça e ainda é culpado pela escolha, ou melhor, pela falta dela, uma “armadilha democrática” por assim dizer, no país da hipocrisia.

Mas em um sistema no qual a vontade popular é viciada pode-se falar em escolha? No qual o voto é obrigatório, há de se falar em liberdade? E mesmo que assim se pudesse, em um regime onde o voto depositado na urna não resulta na realização da vontade popular pode ser chamado de democracia por representação ou sequer de democracia? Qual democracia?

Pois a farsa está aí, pairando intocável, inquestionável, exaustivamente e orgulhosamente repetida… Levando o país à tragédia, assassinando milhões de pessoas enquanto condena outras milhões a uma vida miserável.”

fabio adv bauruFabio Galazzo.

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Categorias:Cidadania online

1 resposta

  1. Muito bom o texto! Para conseguirmos um voto devidamente consciente, precisamos educar o povo. Para reformar a educação, precisamos dos políticos e esses, eleitos “democraticamente” pelo povo, não tem muito interesse na mudança do cenário. A principal questão seria, como interrompemos esse círculo vicioso?

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