O cristianismo fracassou quando a Alemanha cristã decidiu que parte da humanidade não deveria mais existir

Se algumas frases são fortes, ou “incomodam”, seus autores são mais poderosos ainda, em termos de construção lógica e intelectual. Michel Deguy, morto em 2022, presidiu o Conselho de Administração do Collège International de Philofophie, e publicou mais de 40 livros. Seus argumentos históricos (Heresias – pensamentos ateológicos[1]) de que com Auschwitz não houve “cristãos” quando era preciso havê-lo, somado a que todo o esforço posterior para fazer o mundo se aproximar um pouco do “Reino”, era, então, “tarde demais!”, expuseram verdades insuportáveis.

Por outro lado, preciosistas e outros preconceituosos, quererão saber o que poderia ser “fracassou”, na frase-título, se nada menos que 2,1 bilhões de seguidores espalhados pelo mundo, em 33 mil seitas (O Atlas das Religiões) perfazem o cristianismo como maior religião do mundo. Assim, o que poderia ser a estupidez nazista, com sua sanha para exterminar ciganos, deficientes, judeus, poloneses, eslavos, prisioneiros soviéticos, homossexuais, minorias religiosas e outros “inferiores”, para chancelar o fracasso de uma religião deste porte?

Muitas vezes fatos históricos não se medem apenas pelo tamanho ou quantidade, mas por sua qualidade, impacto social ou consequência.

Se o argumento de Deguy precisa ser minimamente contextualizado para se compreender o núcleo do predicado da frase-título, o fracasso do cristianismo, também é certo que sua carga não apenas lógica e historiográfica, mas poética – fazendo jus a Deguy como um dos maiores poetas da França contemporânea-, é igualmente indiscutível. As crenças e sobrenaturalismos, todos, sempre se julgaram perfeitíssimos, sagradíssimos e intocáveis, chegando a rechaçar a razão e a lógica objetiva, precisamente por se atrelarem a dogmas obviamente dotados de indiscutibilidade.

Ocorre que a perfeição não admite defeitos, jamais, conforme Isaac Asimov (Antologia, 2), quando demonstra, com profundidade e gráficos, o erro no pressuposto bíblico de que a Terra era plana. Do mesmo jeito, a chaga auschwitziana será, sempre e por toda vida que for lembrada, no mínimo, uma fenda inconsertável na pureza e validade de um cristianismo que continua a ser vendido, e comprado, como perdoativo, pacificador, juntivo, mas sobretudo gratuito – este último fator, num cristianismo-pix-TV, brasileiro, passa a ser, talvez, outro cinismo, totalmente hábil à ilusão de crédulos num céu que fala, compreende e acolherá para uma vida melhor que esta daqui .

Fracassos são uma semântica forte, definitiva, mas sobretudo acultural. Mas ora, se o cristianismo se sustenta e persiste como a maior religião do planeta, ainda que corporativamente mercadologizada em 33 mil seitas – no Brasil CNPJs-, qualquer culturólogo rirá, com alguma razão, com o uso do sentido “fracasso”.

Deguy pode ter poemizado, nalguma qualquer medida, ou pouco se importado com a grandiosa população do cristianismo. Mas seu argumento será por toda a eternidade um grano salis seriamente penitencial a qualquer cristão que queira dogmatizar a perfeição de sua crença.

Se perfeições não lidam, mesmo, com defeitos, como a vontade bíblica se jactancia de não conter um único erro que seja, segundo Asimov e a descoberta do Erro biblial, o cristianismo tem seu Fracasso para ajeitar no colo. E a perfeição continua a ser aquilo que Salvador Dali dizia: não se acanhe de persegui-la, você não vai conseguir mesmo.

Jean Menezes de Aguiar


[1] A Invenção das Crenças, org. Adauto Novaes.



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