O ‘macho alfa’ e a formidável boçalidade ideológica

Courbet tinha um amigo que acordava à noite gritando ‘Julgar, eu quero julgar!”[1] Muitos julgam. Mas alguns mamíferos[2], ricos ou com fardas oficialíssimas, ou famosos ou ilustres desconhecidos, parecem ‘implorar’ por um julgamento, e o pior que se conseguir. Seus atos, falas e cabeças são o fosso do ser velhaco.

Algumas visões de mundo são filosoficamente [perdoe-me Filosofia] suicidas, se não fossem bárbaras e feminicidas. Mas se alguém pode ter suas ideias necropsiadas numa mesa de aço com o furo no meio para decantamento do pus pensante que certamente escorrerá, este seria o julgamento ‘suficiente’ para quem se interessa por inteligência e burrice, genialidade e idiotice, sabedoria e boçalidade.

Aí, pouco importará se o sujeito é violento, covarde, criminoso, cruel, imoral ou mesmo se será vítima de um dos rótulos da atualidade: misógino, machista, homofóbico etc. Quem quiser que julgue por essas vias.

No reino do Pensar, apenas uma coisa interessará: a falência mental, intelectiva, decisional da criatura, episódica ou sistêmica, atávica ou espasmódica. Será o que suprime sua possibilidade condicional natural, e máxima, como ser humano, que não se mede pelo pênis – ainda que ele possa pensar assim-, mas pelo discurso, o resultado audível e aferível de sua mente.

Neste reino, apenas neste, pouco importa se a criatura é culpada ou inocente, porque seu discurso já ficou público. Conquanto sirva a se identificar outros rinocerontes[3] idênticos que o abraçam e a ele se unem, o discurso, aí, sua visão de mundo, são o objeto de interesse para o Pensar.

Um dos grandes filósofos da atualidade, Marco Casanova, explica, em seu tratado[4], que a burrice é sempre conservadora; não se deixa instruir; e como Descartes já zombava do bom senso como coisa mais bem distribuída pelo mundo, porque ninguém acha que tem em quantidade insuficiente, com a burrice dá-se o mesmo, uma distribuição democraticamente ampla, ainda que ninguém se veja burro. [E ai de quem escrever um artigo sobre a burrice.]

Haverá sempre quem defenda energúmenos. A récua dos imbecis é barulhenta, faz churrascos e conta piadas – essa coisa do século XX-, invariavelmente preconceituosas. Hitler, com aquela mente atormentada por larvas da estupidez, teve defensores. Por que um qualquer num país provinciano que se pense, por primeiro, macho, e por segundo, alfa, não terá?

Pensar por macho é assunção de uma animalidade paradoxalmente insustentável. O parente mais próximo do humano, o chimpanzé (pan troglodytes), com 99% de DNA igual ao nosso, não pensa como macho, ele é macho. Situações totalmente diversas. Mas o modelo pan é completamente inviável ao humano, primeiro porque ali não tem o Pensar humano, segundo porque há a beleza do instinto, o que, no pan, não é idiotizado, mas natural, por sua animalidade óbvia. Do animal tira-se a bela inteligência, pois ele sobe com seus atos; do humano desce-se à burrice, pois que ele poderia ser genial, e emaranha-se na estupidez. Assim, o pensar por macho é uma desantropologização, uma desumanização no que de melhor o ser humano teria, o Pensar.

E depois vem o tal do ‘alfa’, em relação à companheira, que, de novo, no caso do reino do Pensar, não é pressupostal, como ele pensa ser, deseja. Vê-se aí a sucessão de erros conceptivos oriunda de uma cabeça em total dificuldade – por primeiro deseja ser um pan, por segundo ser um mais.  No Pensar, não há pressuposições que superqualifiquem um sexo, e desqualifiquem outro. Há que se provar que ele pode ser, seria efetivamente, ou teria condições de ser melhor pensante que a companheira. E já o pensar como macho e como alfa, por pressuposição, denota errância comprometedora.

Robert Musil[5] explica que entre a estupidez e a vaidade há uma relação íntima, para concluir que o vaidoso é uma máquina a vapor com vazamento.  Essas pessoas quando são presas, por exemplo, enfeiam-se, e isso se lhes é a morte, dada a vaidade altruísta que têm. Uns têm a peruca removida, outros os cabelos – no plural- cortados, para ficarem com apenas ‘um’ cabelo, na singularidade da pobreza prisional. Já outros acostumados a merecerem reverências excelenciais ou militaristas passam a ser zombados pelas costas, como um ex-qualquer coisa, tudo exclusivamente por seu pensar e agir baseado naquele pensar. As consequências não perdoam.

Pululam machos alfas neste trágico reino pan-humano. Alguns são cornos – e isto se lhes é a morte-, outros são inseguros, outros são brochas, e outros são assassinos. Mas para o Pensar, nada mais é degradante do que a burrice trágica que os guarnece e os guia. Sabendo-se que ela é distribuída, é questão de tempo para um colega desses aí se revelar, pensando como macho, e sonhando como alfa.  Está cheio disso por aí.

Jean Menezes de Aguiar.


[1] Narrou Christian Delacampagne, Entrevistas do Le Monde – Filosofias, p. 22.

[2] Expressão de Sarah Blaffer Hrdy, Mãe Natureza – uma visão feminina da evolução, p. 25.

[3] Do dramaturgo Eugène Ionesco.

[4] A Persistência da Burrice, ps. 51, 116, 149.

[5] Sobre a Estupidez – 3 ensaios, p. 27.



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