Traços do pensamento livre

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Darcy, o inventor do Brasil

 

Paulo Francis ou Ana Maria Braga? Marilena Chaui ou José Sarney? Maria da Conceição Tavares ou Marco Feliciano? Escolha o seu pensamento. Cada um deles é uma “escola”. Uma coisa é certa, o pensamento livre liberta, melhora e faz a pessoa evoluir. Confira. OBSERVATÓRIO GERAL.

 

Traços do pensamento livre

Paulo Francis, Darcy Ribeiro, Maria da Conceição Tavares, Florestan Fernandes, Marilena Chaui, Ruben Alves são alguns exemplos de pensadores e intelectuais brasileiros. Podem perfeitamente ilustrar o que aqui se quer dizer com pensamento livre.

No pensamento livre não valem dogmas, mitos, crenças e “verdades absolutas”, que engessam a liberdade. Não valem os argumentos de autoridade impostos, que impedem a racionalidade demonstrada. Não valem as tradições, que impedem a mudança e a evolução. Não vale o formalismo, polido ou autoritário, que impede o livre manuseio dos fatos e ideias. Não vale a vontade de ser carrancudo que impede a poesia e o gozo. Também não vale a violência opressora que busca apenas vitórias, que impede a derrota, a dor e a saudade, coisas tão naturais e próprias da vida humana.

Nas sociedades com pensamento livre as crianças aprendem a questionar e a desconfiar como minicientistas. Buscam respostas objetivas e racionais. Já nas sociedades com pensamento amordaçado, são impostos na educação o respeito austero, o temor reverencial, a hierarquia formalista.

O mundialmente famoso, Carl Sagan, já morto, na obra “O mundo assombrado pelos demônios”, explica exatamente isto. Diz, sobre a ciência: “Encorajamos a heresia. Concedemos nossos prêmios mais valorizados àqueles que convincentemente refutam crenças estabelecidas.” Aí está a essência do pensamento livre, transgressor e produtivo.

Se há figuras que se prestam a exemplificar o pensamento livre, há as que servem para perceber o seu oposto. Ainda que com falta de exatidão e apenas figuradamente.

Assim, há o pensamento pomposo ou espumoso, com Fernando Collor de Mello. O pensamento fake ou levinho, com Ana Maria Braga. O pensamento formalista, com Marina da Silva. O pensamento autoritário, com Joaquim Barbosa. O pensamento conservador, com José Sarney. O pensamento agressivo, com Lobão (cantor). O pensamento vaidoso, com Marco Feliciano (deputado pastor). O pensamento escorregadio com os políticos profissionais. O pensamento jactancioso, com não poucos profissionais liberais.

Todos estes pensamentos têm como ponto comum: uma “preocupação”. Querem ser ou passar a ideia de alguma coisa que buscam, tentam ser. Importantes, convincentes, austeros, mandões, antiquados, violentos, descolados e escapistas. Cada um deles serve para um efeito mais ou menos diferente. Muitos aí se misturam perfeitamente.

Por outro lado, alguns pensamentos ou modos de pensar, sempre agradaram a filosofia. A grande tônica aí parece ser os pensamentos que não tentam disfarçar, mentir, iludir, enfeitar, suavizar. Assim, por exemplo, pensamentos que enfrentam a tragédia, sempre foram valiosos para a filosofia. Kierkegaard, Cioran, Szondi, Nietzsche, Lukács e tantos outros. A tragédia faz parte da vida. Pensamentos assim  buscam uma verdade nua de enfeites.

A história da ciência é pródiga em exemplos. Charles Darwin, em 1858 causou a maior revolução de todos os tempos. A morte de Deus não vai se dar com Nietzsche, mas com Darwin. O biólogo Ernst Mayr, no livro “Uma ampla discussão”, p. 13, mostra que até Darwin “em todos os escritos dos naturalistas, dos geólogos e dos filósofos daquele período, Deus tinha papel dominante”. Por 80 longos anos a Evolução, de Darwin, ainda ficou como “teoria”. Só depois, quando não se tinha mais o que opor a ela, foi que virou uma confirmação universal na ciência. A partir daí, de teoria virou fato, segundo Mayr.

Vê-se que o pensamento livre não esteve em se “aceitar” a evolução como teoria ou fato. Ao contrário. Esteve em se tentar combater a novidade de Darwin o quanto se pôde, até onde se pôde. Por todos os meios francos, possíveis e imaginários. Até com meios desonestos e viscerais. A não quietação, a não aceitação é própria do pensamento livre.

Livre também podem ser os pensamentos transgressivos, dilacerados. Charles Baudelaire escreveu “O poema do haxixe” em 1860. Uma verdadeira apologia ao vinho – “a segunda juventude”-, e ao haxixe – “a felicidade está aí, na forma de um pedacinho de geleia”-. Para muitos isso seria horroroso. Para a filosofia, é uma mera manifestação de uma cabeça pensante. Boa.

A Constituição da República de 1988 garantiu o pensamento livre, que, a rigor, é um pleonasmo. Mas a parte “livre” do pensamento é sua manifestação, sua exteriorização. Seja incômodo ou surpreendente, o pensamento livre não se intimida. Um de seus melhores exemplos está na arte que, se não for livre, simplesmente não é arte.

Há ainda a anarquia, como exemplo de pensamento livre. No Brasil existiu a Colônia Cecília, no século 19, no interior do Paraná, por poucos anos. O filme La Cecilia (d. Jean-Louis Comolli, 1975) romantiza o episódio. Se a anarquia pode ser uma visão utópica na chamada vida real, continua sendo um pensamento nobre na filosofia, pelo menos em termos de sua teorética.

O pensar livre é um prêmio de uma educação infantil saudável, planejada para a construção de grandes pessoas, fortes, libertas e seguras. Mas também é uma aquisição que se faz já na vida adulta por meio de livros grandiosos e fáceis, filmes apaixonantes e eternos, e pessoas e sábios inesquecíveis.

O mundo moderno cada vez mais exigirá o pensamento livre para o sucesso pessoal de qualquer pessoa, em qualquer lugar, em qualquer atividade. Considerando-se qualquer conceito de “sucesso” que se quiser. Mas talvez o maior ganho do pensamento livre seja olhar para um fato social qualquer, corriqueiro ou não, e perceber histórias, paisagens e rumores nele. Aí pode estar a imensa diferença entre a pobreza de um olhar simples, e a maravilhosa e infinita percepção do pensamento livre. Jean Menezes de Aguiar/ OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo para os jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS, GO]

 

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