Marcia Salles Arida duas vezes viúva: dicas sobre a vida em entrevista exclusiva

Amor, vida, felicidade, filhos, viuvez e vida de novo. Nesta deliciosa entrevista do OBSERVATÓRIO GERAL com Marcia uma coisa sobressai: o aprendizado inteligente. Confira o carinho no modo de olhar para a vida, lição que todos precisam aprender. O OG dedica esta espetacular entrevista a todas as mulheres.

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OG Não é comum uma mulher ficar viúva duas vezes. Falar disto deve ser falar muito de você própria, ou partes centrais da sua vida. Como foi a sua vida até aqui?

Marcia Salles Arida – Quando fiquei viúva do pai de meus filhos, em 2007, estava separada dele, e tenho que confessar que essa viuvez foi extremamente dolorosa, devastadora, traumatizante. A morte foi repentina, de maneira que pegou a todos de surpresa. É estranho enfrentar a morte de alguém que tem ainda 30, 35 anos pela frente, e muitos projetos em andamento. O deixar de existir rompe um processo. Acaba com um ciclo. Leva embora uma pessoa que nos conhece profundamente, e que não foi só marido, mas se tornou também um amigo, algumas vezes inimigo, outras vezes irmão, outras tantas um cúmplice daqueles, e por aí. É aquele cara que conhece você desde os 20 anos, que lembra de quando você era jovem, de tudo aquilo que passaram juntos e que os uniu para formarem um casal. Você perde este elo. O pai dos filhos deixa de existir precocemente, e o velho sonho de um dia estar ao lado dele vendo a filha e o filho formarem um casal também. Ao lado dele minha vida foi uma montanha russa, e ele sempre me chamou de side car, porque eu experimentava todas as sensações completamente em função do movimento que o carro dele fizesse. Paradoxalmente, consegui um pouco de equilíbrio depois da separação.

OGVocê tem dois filhos lindos, uma inclusive está no OG, Alice, e está tomando conhecimento da entrevista por esta publicação, combinamos surpresa para ela. A falta da presença masculina é de fato uma lacuna imensa ou você conseguiu sem grandes dificuldades driblar a questão?

Marcia – A falta de uma presença masculina importante e colaboradora teria feito muito mais falta, não fosse eu ter um pai que é um verdadeiro 007, em termos de solução de inúmeros problemas que apareceram na minha vida. Nesse aspecto essa presença muito forte, supriu de forma surpreendente a figura paterna tão necessária, em relação aos meus filhos. Mas isso já acontecia há algum tempo, porque o Rubem era um homem sonhador, e podia não ter os pés no chão quando se tratava da vida prática. Então entrava o Nacim em campo, e providenciava que a realidade fosse cumprida e executada.

No dia a dia eu me valia de alguns amigos, a quem perguntava: “Como é que eu faço em relação a tal coisa?” “E com isso?” São muitas coisas que exigem aconselhamento com o sexo oposto. O homem é mais prático, mais racional, mais objetivo. Faz falta sim. Sorte a minha que pude perguntar para os amigos da vida toda, e quando não podia, não perguntava, e fazia por minha conta, e esperava para ver no que dava.

970392_10201114853566888_1338199372_nA parte prática, que era levar e buscar em baladas, eu resolvia com Milou, meu cão superdoce, mas com aparência de fera. Lá íamos nós de madrugada, buscar a garotada. E ninguém se atrevia a chegar perto.

OGConsiderando que você sempre foi bonita, não deve ter tido nenhuma dificuldade com namorados ou paqueras após a viuvez. Como é apresentar um namorado aos filhos, qual é mais ciumento o menino ou a menina, e conta se existe alguma característica especial para ser escolhido por uma viúva jovem mãe de filhos.

Marcia – Agradeço muito o elogio, mas não tenho nada de especial. Acho que existe sim, uma combinação legal de bom humor, simpatia e boa energia que tornam uma mulher bonita. Isso sim. Os namorados que tive conheci em função do cachorro que tinha na época, (por incrível que pareça) caminhando em plena luz do dia, no meu bairro.

De longe o menino é muito mais ciumento e muito mais crítico que a menina.

A característica principal para ser escolhido é gostar de cachorro, mas em particular, da raça bullterrier. Além disso? Tem q gostar de viajar, de ler, de arte, de cinema, de viver. Não pode ser uma pessoa travada, amarrada, muito presa a convenções, ou muito disciplinada.

OGQue conselhos, se é que existem, você daria a uma mulher recém viúva?

Marcia – O homem tem que ser gentil. O homem tem que entender o seu momento de delicadeza. O homem tem que ser encantador, sedutor.

OGO que você avalia que possa ser um ou alguns grandes equívocos, no enfrentamento da situação de viuvez?

Marcia – Imaginar que sua vida acaba ali. Imaginar que você não conseguirá se refazer. Que você não encontrará outro amor. Não só encontrei outro homem, anos depois, como um homem superapaixonado, encantado por mim, que deixou seu país de origem, seu emprego, seus familiares, para vir ao Brasil por minha causa. Esse homem foi meu resgate. Esse homem foi um marco na minha vida. Ele conquistou minha família. Meus filhos. Meus pais. Meus amigos. Meu cachorro. Um homem completamente dedicado a me fazer feliz. Preocupado em fazer meus filhos felizes. Um homem que estabeleceu metas, planos, e foi conquistando tudo que traçou para si. Mas que aos 51 anos foi vítima de um aneurisma cerebral, quando estava ao meu lado, na cama. Ao lado dele passei 30 dias no hospital, vendo o homem que eu conheci transformar-se em outra pessoa, em função dos danos ocasionados pelo rompimento desse aneurisma. E mesmo tendo feito a delicadíssima operação endovascular, e tendo sido bem sucedida, jamais acordou do coma, e acabou morrendo após ter 5 paradas cardíacas. Estive ao lado dele em todos os momentos dessa angustiante trajetória. (Nenhum dos familiares dele veio vê-lo. Ele tem duas filhas, mãe, irmã, primos.) Não fui a única: Alice esteve presente nos momentos mais difíceis

A família quis que o corpo fosse mandado para Portugal. Ele foi embalsamado para que isso fosse possível. Essa foi talvez a segunda experiência mais traumática depois da morte do pai dos meus filhos (que também tinha 51 anos quando morreu). Dia 29 de setembro agora fará exatamente 1 ano que assinei o atestado de óbito de Filipe. Esse amor maduro, esse amor que acontece quando estamos seguros e sabemos o que queremos é uma das experiências mais gratificantes que pode existir. Filipe foi um homem extraordinário, e dificilmente haverá outro com quem conseguirei ter a liberdade, a camaradagem, o “à vontade” que conquistamos juntos.

Amar, a esta altura da vida, é vitória sobre todas as impossibilidades. Vou me contradizer em relação ao que disse de início: enfrentar a viuvez é dificílimo. Arde, dói, machuca. Falando isso agora, sinto as lágrimas descerem, os olhos embaçarem e a sensação de que a vida de fato, deixa de ser um pouco vida, e torna-se um pouco morte.

OGalgum filme lhe marcou no tema da viuvez, ou pelo amor ou pela perda?

Marcia – “Os Miseráveis”, de Victor Hugo. “Jean de Florette”, de Claude Berri. “Manon des Sources”, de Claude Berri. Notre-Dame de Paris / Les Sans Papier, Belle, / Bruno Pelletier, Garou, Helene Segara.

OG Como você tem visto a sociedade em relação à viúva, seus direitos, desejos e novos amores. Ainda há preconceitos?

Marcia – A sociedade é mais condescendente com a viúva. Não é “culpa” dela estar sozinha. Um acidente se abateu sobre ela.  A morte sorrateira veio lhe roubar o marido. Ela é uma espécie de vítima q precisa de amparo. A viúva fica à mercê de toda sorte de vicissitudes quando se vê diante da ausência do marido. Em relação aos direitos, acho que cada caso tem suas particularidades e devem ser estudados individualmente, assim como em relação aos desejos e novos amores. Não posso opinar. Quanto a preconceitos… O preconceito existe em relação a tudo. Que dirá diante de uma mulher cujo marido morreu…

OGque mensagem você gostaria de deixar para os casais e viúvos em geral?

Marcia – A nossa vida tem que ser boa. A vida de cada um tem que ser proveitosa. Estamos em contagem regressiva, não nos esqueçamos disso. A régua agora está curta do lado que nos cabe. Viver bem. Parece chavão não é? Clichê. Não é não. Faço terapia há 6 anos religiosamente. Para me fortalecer cada vez mais, e viver bem comigo. Sou boa companhia para mim mesma. Gosto muito de estar comigo. De verdade. Não fujo de mim. Não saio com ninguém há um ano. E aprendi que estar bem comigo é a melhor coisa. A mensagem é singela, até bobinha, mas muito verdadeira: tudo que todo mundo quer é ser feliz. Se alguma coisa interrompeu seu caminho, continue de onde parou. Faça esse esforço. Retome. Você vai se dar conta de que há um traçado de felicidade destinado a você. Feito por você.

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9 respostas

  1. “Sou boa companhia pra mim mesma.” Que boa escolha, a sua.

    Achei tão honesta sua resposta sobre o preconceito que quis comentar como é pra mim. Eu sou a viúva que é solteira, ou seja, sem infortúnios que abonem a famigerada da solteirice. As pessoas costumam me mostrar, sem nenhum zelo, que pena sentem por eu ser alguém que “ninguém quis”.
    Mulher sem marido, coitada.
    Além de serem impiedosos, são mal educados. É chato!

  2. Na verdade Giselle, o ” ser boa companhia pra mim mesma” desvincula-se completamente de escolha. E conecta-se com o fato de que não existe nenhuma busca desenfreada em suprir a ausência de alguém. Preciso estar bem comigo sempre. Preciso poder viver comigo em qualquer circunstância. Separada, viúva, abandonada, não importa. Volte seu olhar para você. Descobri que não posso mudar a forma como os outros pensam a meu respeito, mas posso sim, mudar o tratamento que me dou. Seja feliz a partir de você. Garanto que o olhar das pessoas também mudará.

    • Isso sim é uma escolha, como não? Tanto que me sugere fazer a mesma. Já fiz também, não me ocupo dos outros mais, quis foi desabafar e deixar entrever o desamparo da perda ou da ausência que damos conta sim, por decidirmos isso. Mas que ele existe, existe sim e não somos imunes a ele o tempo inteiro.
      😉

  3. Marcia, achei muito bonito o que você disse sobre a relação e conexão que tinha com cada um dos amores que perdeu. Quer dizer, com as duas pessoas que perdeu, porque o amor você deixou claro que continuam com você. Ainda bem! Queria dizer que fiquei impressionada e comovida com a clareza e delicadeza com que você retratou sua experiência e também dizer que desejo tudo de bom para você, sua família (isto inclui o cachorro companheiro) e para quem mais você escolher dividir sua felicidade! Lais

    • Obrigada Lais. Foram amores tão singulares, tão diferentes…. O primeiro, foi o que deu frutos e filhos, e fez história. O segundo, o fez folia, festa e quis um futuro q não houve. A dor anestesia durante um tempo, mas depois que a dor vira memória, você faz as pazes com o amor que ficou preso, e percebe que ele é seu. E que o amor tem que nos acompanhar sempre. Independente de circunstância, tempo, espaço. Felicidade para você também, e para todos à sua volta! M

  4. Sem palavras, coberta de emoções.

  5. ola…adorei quando vc fala”… foi oq deu frutos e fez historia”…fiquei viuva a 2 anos e meio,tenho dois filhos, agora ele cm 8 e ela com 15anos …direcionei minha vida a eles tudo psicologa …homeopatia …sou espirita a muitos anos, entao foquei mais ainda junto com eles q tb ja frequentavam ,me cuidei mais eles eram meu foco, agora ha seis meses voltei para mim to na terapia …homeopatia enfim tudo…mais uma coisa q pega digamos assim e q as pessoas cobram de vc namorar ter alguem cm se isso fosse meta de vida…com se pr ser feliz vc tem q ter alguem …as vezes acho q elas nao sabem viver com elas mesmas…desculpa a minha questao mais vc se envolveu com alguem quanto tempo depois ?nao eramos o casal perfeito, mais eramos felizes,foram quase vinte anos juntos …sei la !!!como vc disse foi quem me conheceu jovem participou de toda mudança emocional ,fisica e tudo mais…vc acha q eu to errada ou certa?acho q cada um tem seu tempo para uma nova intimidade …por favor diga algo …para q nao me sinta tao ET…dizem assim vc é bonita ,inteligente ,fala bem ,e ate agora nada …ele nao foi o primeiro homem da minha vida, tive minhas paixoes antes dele ,mais foi este amor …de homem ,de alma q dividiu tanta coisa …espero q tenha entendido afinal o assunto é longo,.aguardo suas palavras .Andrea

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