A triste nobreza do suicídio

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Com a opção do ator Robin Willians, um misto de comediante e ator dramático, de se enforcar em 11.8.14, o suicídio atrai, novamente, atenções.

O título do artigo pode soar estranho para muitos. Afinal, como se repete vulgarmente, a vida é o maior bem da existência humana.

Mas se é para filosofar, que ‘bem’ é este que obrigatoriamente acaba em doença, deformidades e morte para todos, nunca existindo outra alternativa?

Certamente essa discutível patrimonialidade [‘bem’], imaterial, que se quer dar à vida deita raízes em visões criacionistas, mitológicas ou salvívicas. O problema é que se acaba comparando, paradoxalmente, vida com não vida. Mas o primeiro erro está aí.

Não se pode comparar a vida – uma existência – com uma suposição totalmente intangível: a não vida. Se é não vida não existe, não se sabe o que é. É algo que nem o ‘conceito’ consegue atingir. É o não ser.

O filósofo Jean-Paul Sartre (O ser e o nada, p. 19) ensina que o ‘ser’ não pode ser definido como uma presença, porque a ausência também o revela. Em relação à morte de alguém, a ausência revela ter ele existido, mas em relação à inexistência de quem não se sabe ter existido, ‘aquela’ vida que não existiu não é um bem.

‘Poeticamente’ pode-se considerar a vida como um ‘bem’. Insistindo aqui que se é um bem, o dono desse bem pode se desapossar dele. Leopoldo Lugones, escritor argentino, vinte anos antes de seu suicídio já teorizava: ‘O homem, dono de sua vida, o é também de sua morte.’

Sobre o suicídio há inúmeras passagens na filosofia e na teoria crítica. Jocosas ou mais que sérias, efetivamente pertencentes à tragédia. Depende do gosto. Há quem teorize que o suicídio seja o único tema efetivamente ‘profundo’, já que seu objeto é a própria vida e sua autoextinção.

Assim, quando o pensador discute o suicídio, manipula a hipótese do fim à própria existência. Mexer nisso é de dar arrepios. Primeiro, porque o suicídio é, funcionalmente, fácil e rápido, ainda que emotivamente possa ser muito difícil, dadas as barreiras e reflexos conscientes, inconscientes e biológicos de preservação da vida.

Segundo, porque como adverte H. L. Mencken (O livro dos insultos, p. 26) ‘Não há registro na história humana de um filósofo feliz: só existem nos contos da carochinha. Na vida real, muitos cometeram suicídios.’ Ou seja, se é verdade que filósofos são ‘tristes’, o suicídio ser-lhes-ia uma tentação.

Nos diversos artigos e textos publicados sobre Robin Willians, a quem para muitos parecia uma pessoa apenas ‘feliz’, uma coisa ficou clara: a contradição existencial, a depressão. Willians seria o que muitos julgam como homem de sucesso: fama, dinheiro, facilidades e reconhecimento mundial por seu infindável e reconhecido talento para representar, com visceralidade, qualquer papel, qualquer tipo humano.

Mas atrás desses fatores mundanos de progresso ou sucesso pessoal havia um homem atormentado com tragédias. Não o pensamento trágico como estudado em Kierkegaard (angústia) e Heidegger (o ser-para-a-morte), mas talvez algo muito ‘menos’ do que toda essa teoria. A simples tragédia ou fardo do viver. Principalmente após saber da doença, o Mal de Parkinson.

Certamente a chamada ‘vã filosofia’ não chega nem perto da angústia real de quem experimenta efetivamente o suicídio. Quando se compara toda e qualquer filosofia sobre o suicídio com um suicídio concreto, nada explica, nada resolve. Tem-se a morte efetiva e este evento é o ponto final que certamente não deveria existir.

Há toda uma dedicação de autores e filósofos tentando, conscientemente ou não, retirar o estigma do suicídio. Até torná-lo ‘leve’. É, por exemplo, o caso do poeta Jorge Luis Borges (O dicionário de Borges, verbete ‘Suicídio’).  Com sua intelectualidade e bom humor, Borges, morto em 1986, cunhou frases lapidares.

‘Quando eu era jovem, pensava em suicídio. Em compensação, o tempo agora se encarregará de me suicidar a qualquer momento, não preciso ter esse trabalho’ (1984). Não tenho coragem para me suicidar, e afinal de contas, a vida também é um mau hábito’ (1984).

O pensamento autoritário, o pensamento conservador e o pensamento religioso querem ‘julgar’ o suicida a qualquer preço. Ora negam ao suicida o direito humano extremo: o seu livre arbítrio máximo, matar-se. Como se alguém conseguisse ‘proibir’ o último ato. Ora buscam culpas para condená-lo. Seria uma condenação à morte?

Julgar o outro é sempre um atalho fácil, uma atração sedutora para muitos. Dizer que só quem passa por isso sabe ao certo de suas dores, parece um clichê de quinta categoria. Mas com a morte não há clichês.

O cinema ajuda a se ter uma ideia, rala, de o que pode ser, cênica ou esteticamente, o suicídio. Não há dúvida que para a pessoa é o horror máximo.

O único que se pode tentar é o cuidado preventivo com quem tem propensões ou ideias suicidas. O mundo perdeu Robin Willians, um talento singular. Mas sempre o suicídio é diferente da morte natural. Parece ser mais nobre. Dá a impressão de causar mais dor e mais estragos. Fica-se com uma pena profunda e desesperadora de quem morreu. Mas até esta pena e esta dor não servem para nada mais. OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo publicado no jornal O DIA SP]

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