Debate 2º turno – sete perguntas ‘incômodas’

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1. O que a sociedade verdadeiramente quer? Tudo bem que grande parte da sociedade tenha aderido à vida fofoca-BBB, ou à vida intolerância-MMA no trânsito. Mas o único canal – implicância e futrica – escolhido pelos candidatos parece, efetivamente, acrescentar pouco, muito pouco. A não ser uma sanha pessoal de derrotar e expor o outro. É um jogo bem primário. A sociedade parece querer saber da sinceridade, da gentileza, mas sobretudo da capacidade de aprofundar reformas ou criar coisas novas e eficientes para o país. Ataques representam um discurso negativo, quando o diálogo poderia estar sendo positivo.

2. Tratarem-se, presidente atual e presidenciável, por ‘mentirosos’, ou seja, canalhas e safados – é a mesma coisa-, ‘pode’? Poder até se está vendo que pode. Não se buscam, aqui, éticas moralistas e, juridicamente, crimes não há. Num debate há chances de retorsão imediata, respostas a ofensas. E a própria ofensa perde em quantidade de importância jurídica como evento danoso ou potencialmente criminoso. Ambos desceram para o play, que brinquem. Mas as ofensas, pelo menos teoricamente, mancham o cargo de presidente, se é que isso é possível. No vaidoso mundo do Direito sempre houve muito egocentrismo com cargos públicos. Qualquer palavra torta atrai uma reação judicialíssima, policialíssima e crimes e prisões patéticos são invocados. Como se todo ocupante de cargo público fosse ‘virgem’ e honesto. Ora ora. No debate político na TV xinga-se a presidente de ‘mentirosa’ – ou salafrária, é o mesmo – e ‘tudo bem’. Quanta ‘modernidade’.

3. Este modelo de debate-futrica já cansou? Talvez não. Marqueteiros continuam a estimular essas novelinhas cênicas e parecem se divertir com elas. As televisões também. A aposta é alta. Mas custa-se a crer que sejam agressões e desconfianças, ódios e dissimulações que a sociedade queira assistir para efeito de decisão de voto, ou de indecisão pessoal. É difícil imaginar um debate calmo de ideias e projetos sem esses ataques pessoais ao passado e a antepassados, bem como ligações fantasiadamente inventadas, outras mentirosamente arranjadas e outras para lá de reais e verdadeiras.

4. Debates são para fiéis ou indecisos? Se houver uma possibilidade de resposta a esta questão, o cerne do debate oscilará visivelmente. Se são mais para fiéis, estes não se abatem com acusações adversárias. Acham que tudo é mentira e seu candidato é lindo e perfeito. O candidato fiel é um crente ideológico. E o crente ideológico já se permitiu convencer. Mudar ser-lhe-ia algo bastante custoso e nem seria correto ou esperado. Outra situação é dos muristas habituais, como, por exemplo, os que iriam votar em Marina para ver o que ia dar. Debates são para todos, mas se alguma gradação é possível, são menos para fiéis que só aplaudem os seus e criticam adversários, do que para indecisos. Indecisos não estão imunes às ofensas adversárias no sentido de achar o seu candidato perfeito. Aqui se a ofensa for mais pesada talvez pudesse atrair mais indecisos. Mas esta equação seria uma péssima fotografia social.

5. Afirmações com ar circunspecto, austero e indignadíssimo de que a gestão do adversário foi um ‘caos’ e gerou prejuízo de milhões ou bilhões de reais têm, realmente, grande efeito num debate? Palavras são muito fáceis de serem ditas. Expressões como ‘absurdo’, ‘inacreditável’, ou a bobajada da moda ‘nunca antes na história deste país’, podem ser ditas – usadas- à vontade, a cada frase. Mas será que isto cria adesão? A bravata verbal, a indignação moralista e reacionária contra a genérica ‘corrupção’ podem enganar incautos. E enganam. Mas formadores de opinião e gente mais intelectualizada percebem rapidamente o jogo de cena, a fantasia verborrágica. A afirmação por si só, sem qualquer lastro, não prova nada.

6. A ética Hélio Gracie deveria ser usada? Na década de 1980, o saudoso Hélio me contou uma história importante. Um de seus muitos filhos, um que vivia na Califórnia ensinando jiu-jitsu foi desafiado pelo campeão mundial de caratê, um sujeito imenso e muito mais forte que o filho. O mundo das lutas ficou em alerta máximo. Hélio tomou um avião e foi orientar o rapaz. Disse a ele que os Gracie precisavam ‘entrar’ de vez nos Estados Unidos. Não poderiam humilhar o desafiante. Pediu que o filho vencesse sem bater excessivamente, sem pancadaria, mesmo sendo um vale-tudo, o que não agradou muito ao filho num primeiro momento, mas, claro, foi seriamente obedecido. Houve quase dez lutas seguidas e em todas elas o desafiante perdeu, ‘batendo’ de dor, pedindo para parar. Os Gracie saíram triunfantes da situação, inclusive pela ética. Será mesmo que um mínimo de ética é impossível em política? Quanto mais num debate? Não se pode imaginar um vencedor sem acusações e ataques, ou pior, um candidato sem flancos verdadeiramente mentirosos e flagráveis? A continuar assim estima-se que pessoas medianamente inteligentes abram mão de assistir a debates. Todos os debates serão iguais e simplórios no quesito de novidades; só pancadaria verbal e acusações. Tudo meio patético, afinal o que busca é a pancadaria e a humilhação do outro.

7. Quem usa quem: os candidatos a TV ou a TV os candidatos? É óbvio que debates são saudáveis e aperfeiçoam uma transparência de ideias, ou deveriam ser assim. Mas quando candidatos são usados como garotos propaganda de uma emissora para bombar sua audiência, submetendo-se a um formato ditatorial em que o tempo será cronometrado a segundos para não atrapalhar a novela que vem depois, fica patente [mais] uma atenção capitalista do Estado para com emissoras que, mesmo sendo ‘concessão’ mandam em tudo e fazem o que querem. O debate não é uma ‘tomada’ de horário da emissora pelo Estado para que o próprio Estado, sob suas regras públicas e igualitárias, leve ao povo o debate de forma democrática, sob organização pública. Nada disso. É um programa ultracomercial da emissora que busca audiência com um objeto público e um objetivo também público, sem pagar nada por isso.

A impressão é de quem viu o debate de 14.out.14 não vai querer assistir a outros. Os temas serão os mesmos e sem a mínima mudança: Petrobras; Samu de Minas Gerais; demissão ou saída espontânea dos diretores da Petrobras; desvio de dinheiro da saúde em Minas Gerais; aeroporto de Claudio e outros rame-rames parecidos.

Parece que o que importa não é a melhor proposta, mas vencer na retórica e na elegância ou sorriso posturais. Assim não há luz no final do túnel. A eleição se vê totalmente parelha. Marqueteiros não esboçam a menor intenção de mudar. Dilma agora loura, Aécio com sua indefectível gravatinha de casamento monocromática e todos esperando que cor de roupa a presidente usará na próxima aparição – isso tem sido a coisa mais importante dos debates. Como se aí estivesse o ponto central.

Esses debates de TV, assim, morreram. Só falta enterrar. Jean Menezes de Aguiar / OBSERVATÓRIO GERAL.

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Categorias:Política

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