Os ‘Diálogos’ do Congresso em Foco e um debate de métodos

Diálogos

 

O site jornalístico Congresso em Foco propõe uma rodada de debates para aprovar, segundo a própria proposta, num ‘fórum plural de altíssimo nível, um conjunto de sugestões para o Brasil enfrentar as crises política e econômica e a questão da corrupção’, denominado Diálogos Congresso em Foco. Será esta semana em 14 de julho de 2016, Brasília. Tive o prazer de ser convidado. Estarei lá.

 

Também, foi criada no Facebook uma valiosa janela de discussões com o público para recepção de sugestões oriundas da sociedade.

 

O evento não podia vir em melhor momento, politicamente grave. A iniciativa, qualquer que seja o resultado prático ou efetivo, já nasce válida e se legitima automaticamente. Canais representantes da sociedade, num país como o Brasil em que a participação popular é apenas ocasional, devem promover debates qualificados. Principalmente em épocas de redes sociais e os queridos ‘achólogos’ online.

 

Apenas uma preocupação de ordem histórico-metodológica talvez permeie como pano de fundo funcional. O Brasil atravessa uma crise política profunda que se reverbera diretamente na sociedade. Os anseios e desejos de mudanças e correções, por parte de estudiosos em geral, compõem arcos largos e profundos. O problema é que o ‘real’ na política impõe a dimensão do ‘possível’, afastando desejos e projetos que não seriam por si sós inviáveis, mas que invariavelmente acabam dando em nada. Aí um cuidado primeiro, para se evitar o ‘sonho’. Ainda que o sonho tenha efeitos pedagógico, propulsor e protagonista na realidade.

 

Numa comparação metodológica, duas ordens de grandeza podem nortear o debate, mas talvez uma tenha que ser escolhida mais centralmente.

 

Uma primeira, incluindo pautas potencialmente utópicas, ideais mesmo, se considerado o verdadeiro cenário político brasileiro, em disjunção com a realidade brasileira. Aqui, há certa inverificabilidade de efetivação dessas pautas. Os empecilhos podem ser de ordem vária: histórica, de implementação, de vontade política etc. Também não se pode esquecer a generalidade da classe política brasileira com seus traços antropológicos, barganhal; patrimonialista; conchaveira; raramente ideológica em preocupação com a sociedade; focada só em reeleição e sucessão familiar para que os ‘seus’ herdem tronos e currais eleitorais.

 

Com um cenário assim, teorias, abstrações, possibilidades políticas de mais alto nível tornam-se sonhos. Mudanças radicais, ainda que benéficas, aporias.

 

Com esta degradação no ideário, que está longe de ser uma sanha escatológica na análise, sempre haverá o risco de se debater, discutir, gastar energias, propor ‘saídas’ e muito pouco ser feito. Principalmente se as ‘soluções’ já tiverem sido de qualquer forma tentadas e nunca chegaram a causar uma ‘mudança’, perdoe-se o termo utópico.

 

Uma segunda ordem de ideias trabalharia com o possível e o viável. Sem, crenças, míticas ou ideológicas mesmo. Entretanto, o mapeamento de o que é viável não é das tarefas mais simples. A vontade política das cepas partidárias atuantes no Congresso é dúctil, chegando às vezes, raramente, a surpreender.

 

Estima-se, por exemplo, que ninguém mexa nos ganhos indecentes das ‘autoridades’, envolvendo compensações, benefícios, auxílios e toda uma tralha safada, mas legal, de dinheiro entregue a marajás do serviço público. Salvo a minúscula Lava Jato, estima-se que não se queira investigar ‘evolução patrimonial’ de políticos e agentes do Estado ao longo da carreira. Reformas política e tributária, outros sonhos, haja vista a desfaçatez que fizeram com a Constituição de 1988 ao queimar a emenda de reforma (votação unicameral) número 5 – Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, art. 3º, com medo da eleição de Lula. A partir daí, a tal ‘reforma política’ se tornou um sonho, dada a então bicameralidade de votação e outros fatores.

 

Por outro lado, admita-se, e efetivamente contornando uma ortodoxa metodologia da plausibilidade, talvez o ‘utópico’ seja o condão necessário. Para um afrontamento de cidadania; uma impactação de ideias; uma demonstração de vontade política da sociedade que emparedasse o marasmo continuísta da classe política; mas sobretudo um recado aos dirigentes políticos e governamentais de que a sociedade não tolera mais o cinismo do conchavo para roubalheira com o dinheiro público.

 

Não pode ser mais discurso ou teoria apenas. Precisa haver mudanças. E a iniciativa do Congresso em Foco, nas luxuosas entranhas brasilienses, com a pujança jornalística e de visibilidade que tem pode ser um grande marco.Tomara. Jean Menezes de Aguiar/Observatório Geral

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