Fundamentalismos religiosos, deuses e outras invenções formidáveis

O artigo discute tema que alguém poderá achar sensível, absurdo. Ou “ousadia”. Falar de deuses e fé pode ser perigoso. O biólogo Richard Dawkins (Deus Um Delírio) diz que não se pode ofender a fé, já que “protegida por uma parede de respeito extremamente espessa”. Realmente, algumas sociedades vivem este tabu.

Origem. Os filósofos do Iluminismo, após dois séculos de grandes guerras religiosas, matanças e horrores em nome de algum deus, consideravam o fanatismo quase que totalmente de origem religiosa. Está em Noberto Bobbio (Dicionário de Política). Haverá quem disfarce ou ignore fatos. Mas as três religiões monoteístas, todas abraâmicas, pela ordem cronológica, judaísmo, cristianismo e islamismo, com seus poderosos rabinos, padres e imãs conhecem bem o assunto. Com o passar do tempo, aquele conceito de fanatismo “virou” fundamentalismo religioso, mantendo violências e crimes, e inovando. Agora em subformas de neofanatismo-TV, o fundamentalismo-pix, franquias glorificadas pelo lucro-aleluia em contas-bancárias-ungidas, com o milagre do QRcode abençoado. Espetáculo.

Tipos. Por fundamentalismo religioso, uma patologia social, na expressão de Sergio Paulo Rouanet (Adauto Novaes, Mutações – A Invenção das Crenças), podem ser consideradas duas ideias centrais. A primeira, a do fanatismo agressivo, a criminalidade organizada em terrorismos e assassinatos. Tudo recheado pela quadra discriminação, ódio, desprezo e violência, contra pessoas consideradas inimigas, inferiores, não eleitas e outras “bondades sagradas” das religiões.

Há também o fundamentalismo referido por Richard Dawkins (op. cit.), uma espécie de fundamentalismo crencial, a fé engessada em o que está nos livros “sagrados”, Torá, Bíblia e Alcorão ou Corão. De tão radical, a crença não aprende ou evolui, mesmo diante de uma prova concreta e contrária ao dogma ali fixado. Se questionado, este crencialismo radical concluirá que é a prova que tem que estar errada, nunca o seu livro. Este orgulho negativo da razão é próprio de quem deu o acrobático “salto de fé”, na expressão de Søren Kierkegaard. Os termos crença e fé vão representar, aí, um plano infrafilosófico ocultado pela Razão, só denominados assim por falta de termo melhor, conforme François Jullien (Adauto Novaes, Mutações – A Invenção das Crenças).

Em artigo para o Science Digest, Isaac Asimov (Antologia 2 – O Círculo da Terra), abordou “o pressuposto bíblico de que a Terra é plana”, notório equívoco da Bíblia. Recebeu uma enxurrada de cartas negando o que ele demonstrou com precisão, e gráficos. Para os fundamentalistas a Bíblia não pode errar, pois cada palavra ali é divina. Tal lógica credular só piora o erro, tornando-o, então, erro sagrado. Asimov ainda negou “choque” entre a Bíblia e a ciência moderna, afirmando que muitos judeus e cristãos veem o livro apenas como “uma orientação moral e teológica, além de uma obra poética, nunca como um tratado de astronomia, geologia ou biologia”.

Se os sempre vaidosos fanáticos não quisessem discutir, por exemplo, biologia e astronomia, até com biólogos e astrônomos, seria ótimo, mas não é assim. A crencialidade tem sua cosmogonia fantasmática atrelada a sobrenaturalismos e superstições que lhes dá certezas absolutas, além de não precisar aprender nada e, de quebra, jactar-se de poder ensinar qualquer coisa a qualquer um. Christopher Hitchens (Deus Não é Grande) afirma que “os crentes insistem em alegar que sabem! Não apenas sabem, sabem tudo.” Por outro lado, para alguém cientificamente alfabetizado, expressão de Carl Sagan (O Mundo Assombrado Pelos Demônios), a metodologia científica obriga a que se separe os graus de conhecimentos. Desde o século XIV Guilherme de Ockham registrava: “ciência e religião são fundamental e irrevogavelmente incompatíveis”, (Johnjoe McFadden, A Navalha de Ockham). O fato é que os fundamentalistas religiosos sempre exageraram no horror à inteligência. Espetáculo.

O Iluminismo representou uma perda de poder estamental para a Igreja, com a laicização dos Estados, o que, em certa medida, não ocorreu ao judaísmo e ao islamismo. Mesmo assim, Terry Eagleton (A Morte de Deus na Cultura) registra o decréscimo da deidade na sociedade evoluída em geral, apontando como foi incrível a modernidade ter levado tanto tempo para alcançar um autêntico ateísmo, ainda que isso não se relacione diretamente com a fé religiosa. Mas Peter Sloterdijk (Pós Deus) anota uma Europa trágica, imitando os Estados Unidos, quando fala em sociedade pós-secularizada e histérica com Deus, este modelo de “alienação sociológica”.

Ciência. A ciência, em o que conseguiu predições e leis razoáveis, o que já é muito, logrou dar respostas a uma série de pavores populares para mistérios mundanos, como raios, trovões, enchentes e pestes, até então sobrenaturais. Peter Sloterdijk (Crítica da Razão Cínica) anota que todas as religiões foram erigidas sob o solo do medo, daí o Esclarecimento, desde o século XVIII, ter possibilitado a “teoria do engodo sacerdotal”, podendo-se questionar a quem interessa a religião, um germe de uma moderna teoria cínica, para não se responder que, em primeiro lugar interessa ao domínio do medo perante a vida, e em segundo, para a legitimação de ordens sociais repressivas. Historiadores detalham as formidáveis invenções do céu, há 4 mil anos, do pecado, do paraíso, da moralidade, da religião, dos espíritos (Matthew Kneale, Crença Nossa Invenção mais Extraordinária); e o teólogo sênior Osvaldo Luiz Ribeiro (canal Youtube, A Tenda do Necromante, live 288) mostra que todos os deuses foram inventados, e nenhum deus “vivo”, ainda adorado em alguma religião, tem mais de o que míseros 3 mil anos, em 100 mil anos de história religiosa e apenas 5 mil anos de escrita. E segue, interrompendo o orador quando este diz “Os deuses das religiões precisam ser superados, e o verdadeiro deus…” Neste momento Osvaldo atropela o interlocutor com a sentença: “Não, não continue esta frase, porque é uma frase burra!”.

Realmente a palavra “deus” está “carregada de múltiplas interpretações ligadas a uma variedade de credos”, conforme o prêmio Nobel de biologia Christian De Duve (Poeira Vital) afirma em seu livro e, por isso mesmo, assume não fazer qualquer referência a ela.

Pela ciência secularizaram-se algumas crenças e ignorâncias até então atribuídas às zangas – ou ferocidades- dos deuses. Com o entrechoque invencível desta secularização em várias frentes, inclusive no Estado, aliado aos conceitos tardios de Direitos Humanos e de um conceito de liberdade pós-moderno, não se continuou a tolerar modelos deísticos e punitivistas de proibições em muitas sociedades evoluídas, o que representou a mudança de habitus da chamada fé firme, para uma “sugestividade livre e flutuante”, conforme Sloterdijk (Pós Deus). Entretanto, há, noutra banda da atualidade, um nítido recrudescimento de um subfanatismo religioso, neopentecostal, atrelado ao preconceituoso Velho Testamento e seus ódios – que muitos, depois, “não querem” biblial. É o neopentecostalismo descaradamente dinheirístico que alguns praticantes tentam negar com a máxima “na minha igreja não é assim”, e o ouvinte finge que acredita. Vê-se aí um trágico, como que o sociólogo da religião Max Weber se referia aos “seguidores religiosos pobres e ignorantes” (Matthew Kneale, op. cit.).

A parte do preconceito ligada ao fundamentalismo forneceu a seus adeptos, uniformemente em qualquer dos três monoteísmos, senhas customizadas e funcionalizantes de vivências fanatizadas para uso com cada um dos deuses e religiões; mantendo exclusões a gentes consideradas rivais ou de segunda categoria. Há aí o pior tipo de dogmatismo que existe: o religioso. Não à toa, Habermas (Filosofia em Tempo de Terror) classifica o fundamentalismo religioso como “furioso”.

Observe-se que sempre haverá fortíssima tendência, por parte dos respectivos praticantes religiosos, sejam judeus, cristãos ou islâmicos, a certa minimização do fundamentalismo. Serão desculpas ligadas a um passado que não existiria mais; hábitos sociais ultrapassados; ou guetos internos de radicais que não representariam a religião. Esta última até pode proceder.

Outro escapismo interessante é o do teísta “solo”. Ele acha inteligente condenar as religiões, e se dizer ligado diretamente a algum deus, obviamente o que acredita, que, sabe-se, está atreladíssimo a uma religião. Esse crente quer usar o clube, mas não quer se filiar. Assim, o cristão não adorará Alá, ou Javé etc. Entretanto, a longa relação de deuses das outras religiões ou seitas existentes, ele naturalmente negará e afirmará, vaidoso; Deus é só um; o dele. Richard Dawkins (op. cit.), quando lhe perguntam se é ateu, responde que “também” é ateu, em relação a Zeus, Apolo, Amon Rá, Mithra, Baal, Thor, Wotan, tendo ido apenas um deus “a mais”. E Matthew Kneale (op. cit.), registra na história da humanidade milhares de deuses. Mas o crente solo – e não só ele-, dirá que só há um deus, “coincidentemente”, o que acredita. Percebe-se que o teísta, em geral, sofre de o que Nietzsche (A Gaia Ciência) chama de “compulsão por acreditar”. Espetáculo.

Assim, não interessam estudiosos, historiadores e os fatos, nem os outros crentes que arrolam outros deuses, e outras religiões monoteístas que fazem igual. Se o ciúme chegar a ser neuroticamente figadal, nasce aí o fundamentalismo. Se se transformar em ódio ao crente rival de outro deus, progride-se à delinquência religiosa, crimes e atentados. Michel Deguy (Adauto Novaes, Mutações – A Invenção das Crenças) afirma que “a religião é genocida. Cada uma quer o todo, quer que as outras reconheçam seu Deus como o único verdadeiro.” Vê-se que com ciúme não se discute.

Fundamentalismo cristão. Há uma classificação, Chris Rohmann (O livro das ideias), de o fundamentalismo cristão ter surgido nos Estados Unidos, no início do século XX. Seria reação ao liberalismo teológico que, dentre outras coisas, considerava a Bíblia com natural importância cultural, mas sem roupagens sobrenaturais. Um exemplo está na ótima e atual série Yellowstone 1923, retratando a voluptuosa, e assassina, violência de padres, freiras e religião, contra os índios, pela superstição da “purificação” por meio da Bíblia. Modernamente se fala em “América fundamentalista ou evangélica”, expressão do cientista político Gilles Kepel (A Revanche de Deus), com praticantes atirando saborosas notas de dólares em direção ao pastor, em obediência-transe. E outras “oferendas”, igualmente valiosas. Ainda e de quebra, o fundamentalismo cristão, o de origem, é o responsável pela difusão do ódio cultural aos praticantes do judaísmo, no sentido de que judeus teriam assassinado Jesus que, por promoção, veio a se tornar o deus do cristianismo, mais ou menos baseado na transubstanciação ou metamorfose real, do pão no corpo de Cristo. Com este ódio de ocasião à religião judaica – mais antiga-, firmou-se o destino de que judeus viveriam uma punição, com inúmeras perseguições idiotizadas e barbarias desde a Baixa Idade Média até o presente. Foram cristãos e outros, meio lobotomizados nesta vingança, não há outro nome, que não permitiram que o preconceito contra judeus cessasse, havendo estudiosos que afirmam, de aí, terem os judeus criado, então, seu vitimismo eterno e portátil.

Fundamentalismo islâmico. Islã, em árabe íslam, significa “submissão”. Já pelo nome escolhido, em leitura não crencial, tem-se um problemático rebaixamento do homem. Aqui corrija-se rápido, com Christopher Ritchens (op. cit.) anotando que jovens muçulmanos são mantidos afastados de toda companhia feminina, “de fato ensinados a desprezar suas mães e irmãs”. O credo islâmico resumido na frase “Não há deus senão Alá, e Maomé é seu profeta”, também retrata, numa leitura meio lógica, um paradoxo. Alá não é nome pessoal, mas a palavra árabe que significa “deus”, ou El, usada na Bíblia para nomear o deus dos hebreus. Quanto ao fundamentalismo, e seu Qur’an (Corão) e a shari’ah, as leis islâmicas saídas do Corão e ensinamentos de Maomé – um líder político e religioso, ex-assaltante em Medina, para se firmar financeiramente, conforme Hellern, Notaker e Gaarder (O Livro das Religiões), e com a esposa mais nova de apenas 9 anos de idade (Hitchens, op. cit.) – tem se mostrado pujante na atualidade. Chega a ter milícias e exércitos religiosos organizados, com armas de guerra, uma estrutura invejável para os outros fundamentalismos que no máximo só conseguem matar individualmente. O modelo de fundamentalismo islâmico pratica, sempre que pode e deixam, atentados religiosos em nome de seu deus, tudo ornado por um audível grito (de guerra?) “Alá hu Akbar” – Alá é o maior-, após cada delito cometido. Tem colecionado, pelo mundo, formidáveis casos de tragédias coletivas, a ponto de ter conseguido impor, a todas as democracias, uma reconfiguração funcional nos conceitos oficiais de convívio, paz, segurança, fronteiras e terrorismo.

Ainda, fundamentalismo não é a religião, são coisas diferentes. O fundamentalismo islâmico ganhou relevo mundial com o atentado de 11.9.2001, episódio que lançou, reconheça-se, ilegítima suspeição ao islamismo como um todo, com seu 1,3 bilhão de autodenominados “muçulmanos” que ocupam e compõem uma sabida pluralidade cultural. São países muito diferentes entre si, como Turquia, Mali, Nigéria, Arábia Saudita, Marrocos, Indonésia, Bangladesh e outros. Amartya Sen (Identidade e violência) explica que “ser muçulmano” não é identidade. Mesma lógica aplica ao caso judeu, citando Jean-Paul Sartre ao afirmar que é o antissemita que “faz” o judeu, conclusão cientificamente parelha, em resultados de DNA e outros testes, todos negativos, relatados pelo professor de história da universidade de Tel Aviv, Shlomo Sand (A Invenção do Povo Judeu). Anota o historiador que o Estado de Israel judaizou quem se autodeclarasse judeu, em questionário oferecido em 8 de novembro de 1948. Assim, igualmente para o muçulmanos, não há uma continuidade biológico-genética, ou um ethnos muçulmano.

Sobre a cultura religiosa islâmica, no próprio Alcorão, e numa leitura literal, de um repetida e declaradamente “Allah clemente e misericordioso”, em todas as 114 Suratas – capítulos-, veem-se duas ordens de castigos. Com aparentes ódio & vingança como fundamentos de eticidade ligada a um “valor”, por exemplo, em Al Bácara (a vaca), 2ª Surata, com 286 versículos, no versículo 10, quando, à mentira dos crentes que tentam enganar Allah, tenham que sofrer um “castigo doloroso”. Não se imagina o que seria esse mal islâmico. Em segundo, na 4ª Surata – Al Nissá (as mulheres), com 176 versículos, no versículo 34 vê-se que os homens são protetores das mulheres, mas, se elas forem “rebeldes” serão admoestadas na primeira vez; abandonadas em seus leitos na segunda; e castigadas na terceira. Uma trágica “domesticação” da mulher. Samir El Hayek (Alcorão Sagrado, Folha, com a grafia Allah) anota que o livro “era e contina sendo” o centro de toda a cultura, filosofia e atividades intelectuais islâmicas. Ou seja, não há “vida” fora do texto, que organiza de costumes a heranças, de jurisprudência ao futuro.

Por outro lado, pesquisa Gallup, entre 2001 e 2007 mostra que muitos Estados islâmicos não têm qualquer intenção de se transformar em democracias secular-liberais, até porque muitos muçulmanos entendem que esta Charia, base da lei islâmica, deveria ser a fonte normativa legal de seus países. Isso não surpreende, já que a maioria dos americanos, num surto de moralismo dogmatista, também acredita que a Bíblia deveria ser uma das fontes da legislação, conforme pesquisa relatada por Steven Pinker (Os Anjos Bons da Nossa Natureza).

Fundamentalismo judaico. Grande parte do fundamentalismo judaico conseguiu se oficializar no sistema jurídico de Israel, não tanto pelas inacreditáveis 613 proibições da religião aos praticantes, conforme Gilles Kepel (A Revanche de Deus), mas por meio da total deficiência democrática que representa o modelo de religião oficial para qualquer país. Os fatos narrados por Shlomo Sand (Como Deixei de Ser Judeu) são quase inacreditáveis. Um terço da população de Israel, nascida ou residente no país, pelo simples fato de não ser praticante da religião oficial é privada de vários direitos civis. Os discriminados sequer podem ter a cidadania “israelense” pois esta categoria não existe por decisão judicial do tribunal supremo do país, apenas judeus e “outros”, bem como não acessam a universidade, não podem se casar etc.

Fundamentalismo em Gaza. O Hamas, em 7/9/23, atacou Israel e matou 1200 pessoas, fazendo 240 reféns. Ataque covarde, infame e assassino, que fique claro. Israel, numa “legítima defesa” totalmente fundamentalista, revidou, dizimando mais de 40 mil palestinos. Até agora. Estranha “relação” de uma vida israelense valer tantas vidas palestinas assim. Como são dois fundamentalismos religiosos se fuzilando mutualmente, só resta ao mundo civilizado esperar a paz. Ou sonhar com ela.

Fundamentalismo pix. Neste bem desintelectualizado século XXI de uma modernidade tardia, agravou-se, por estas bandas, o subproduto do fundamentalismo-pix, ou fundamentalismo-conta-corrente. Financeiro, dinheirístico e, presumidamente safado. Na TV, verdadeira financeirização da fé. Igualmente, discrimina pesado, e os milagristas autoungidos requentam em sua nominada gente-rebanho uma cultura furtada do jactancismo do “povo eleito”, espécie de ufanismo salvífico. Cria, assim, um paralelo latifundiário do céu com a rotulagem cafono-mística do “abençoado”. Entretanto, este fundamentalismo-conta-corrente não para na crença, infiltrou-se na política, esta ambiência igualmente honestíssima. Certamente por isso, religião e política brasileiras se dão tão carnalmente bem.

Com linguagem popularesca e uma alvissareira interpretação-Bradesco da Bíblia, o fundamentalismo-pix formou quadros para composição de bancadas políticas, herméticas e sempre excitadas com moralismos punitivistas reacionários, buscando deslaicizar o Estado Democrático de Direito, marco civilizatório da modernidade. O “negócio” é montar o seu bunker de poder sobrenatural. Tudo sempre muito bem remunerado por dinheiro público. De quebra, e com estupidez, fator constante no fundamentalismo, declara guerra à ciência, como no caso da vacina de Covid; fideliza um terraplanismo ideológico; vocifera a criação da Terra em risíveis 5 mil anos e outras mirabolâncias da falta de conhecimento. Sem qualquer cerimônia, lança mão de uma imitação cênico-semiótica do mais antigo monoteísmo, requentando símbolos e vestes judaicos, com inusitados ponchos santificantes. E, pasme-se, até um então Estado de Israel passa a ser “aprisionado” como espécie de resort paradisíaco-em-fé da vertente, com turismo ungido e referência político-mito, em toda duplicidade semântica possível. (1. Há-se imaginar esse povo bem! brazuca-pix, em ônibus de turismo vagando por uma ordeira Tel Aviv). (2. Totalmente inquietante a formigante curiosidade de saber o que impagáveis, reclusos e silenciosos judeus ultraortodoxos não acham deste neocondomínio sacrossanto sul-americano inventado por este fundamentalismo-novo, de sua milenar fé javédica, pedindo para fazer selfies no estonteante muro das lamentações). Podiam tentar invadir as mesquitas (…).

Na relação sempre promíscua entre religião e poder, ninguém menos que Adorno (Estudos Sobre a Personalidade Autoritária) registra que “pastores ou ex-pastores” eram, historicamente, identificados por um indisfarçável “papel na disseminação da propaganda fascista”, situação que chama a atenção e talvez atraia nova interpretação para tempos atuais, principalmente se se considerar que jamais há, em todos os modelos extremistas, qualquer comprometimento com padrões igualitários das gentes – se há o eleito, há o excluído; se há o abençoado, há o amaldiçoado, a violência conceptiva discriminante ao primeiro dos fatores reveladores do conceito de democracia, a igualdade.

Recentemente, viram-se histrionismos explícitos na TV, de rezas e ajoelhamentos místicos do segmento, além de falação em línguas, em palácios e repartições públicos do governo brasileiro de primeiro escalão. São exibicionismos midiáticos, como uma forma de pajelança branca-classe-média, talvez nunca antes vistos em sedes oficiais do país.

Seja como for, é extremamente atual a “cláusula de não oficialização” (establishment clause) da 1ª Emenda dos EUA que impede oficialização de qualquer religião, ao contrário da Inglaterra, único país que consegue tê-la, com a Igreja Anglicana, mas com influência zero naquela democracia. Nos EUA são proibidos ainda: rezas em escolas públicas; presépios em praças públicas; lista de 10 mandamentos em paredes de tribunais; pseudociência baseada em fé religiosa etc. Tudo visando ao não partidarismo por uma ou outra religião, ou entre religião e o ateísmo, conforme Ronald Dworkin (Religião Sem Deus).

Fundamentalismo “do bem”. Haverá quem queira, na esteira do fundamentalismo crencial, teorizado por Dawkins, que exista outra subforma, um que seria o “fundamentalismo do bem”, aqui propositadamente com este sufixo farisaico-calhordal “do bem”, para emprestar algum efeito publicitariamente saudável a pautas totalmente discutíveis. Trata-se de uma visão não diretamente ligada à violência, mas “somente” ao preconceito, ainda que secretíssimo. Tem por base a criação identitária acerca de um modo ou cultura que, todavia, não se viu historicamente excluído, mas busca protagonismo protoafirmatório, para conseguir discriminar-grosso, a regra, por meio de projeto de poder, com a utilização da díade-lacração filiados (do-bem) versus excluídos (do-mal), e outras polarizações igualmente primárias. Mais ou menos o que fazem com religiões de matiz africano etc. Concretiza-se por marchas, passeatas, paradas, manifestações públicas numericamente maciças e outras hipervisualidades estéticas, funcionalizadas tematicamente por meio de orgulhos, louvores, adorações e outros exibicionismos, inclusive cantos e rezas volumosamente amplificados para difusão de um blibilismo ultraoperoso, pseudoconvertedor e invasivo do espaço sonoro público, ou, noutra forma de nominar: evangelizar. Talvez o mote seja incomodar para gerar adeptos, ainda que pelo cansaço. O diferencial, por exemplo, com as Paradas de Orgulho Gay, é que estas buscam, historicamente, uma necessária e cabível correção compensatória social por vergonhosas perseguições, preconceitos e violência sofridos, que as tornam justificáveis. Já o tal fundamentalismo do bem, por meio de marchas – terminologia se não nazista, no mínimo militar-religiosas são manifestações cuja intenção é meramente obter filiados em claro desígnio de projeto de poder, inclusive político, com a formação de frontal enfrentamento por meio de bancadas no Poder Legislativo e uma subsequente deslaicização do Estado, para a implementação de um Estado atrasado, na coisa da religião oficial. Há aí, tanto um atraso cultural, como, no caso brasileiro, uma inconstitucionalidade, um projeto sabidamente preconceituoso no sentido de violação a marcos democráticos civilizatórios nítidos.

OAB-RJ – fundamentalismo autárquico? A OAB do Rio de Janeiro, dentre as várias comissões obviamente funcionais e estritamente jurídicas que a autarquia oficial tem que manter, resolveu criar, em estranhíssima assunção sobrenatural, mística ou supersticiosa, utilizando o nome de apenas um dos três monoteísmos, uma “comissão de advogados cristãos”. Além de a qualificadora “cristãos”, por si só, excluir, no título, outras crenças e deuses – poderia ser ecumênica, ou comissão contra a intolerância religiosa; a rigor não poderia ser ecumênica porque deuses, crenças, religiões e ecumenismos não são pautas jurídicas; sem se falar nos ateus-, mostrando-se, já pela preferência no nome, inconstitucionalidade; viola a epistemologia da necessidade de uma comissão oficial, quando não se dirige ao objeto/necessidade social em si, mas a uma qualidade pessoal mística de um determinado tipo de pessoa, em nada relacionado com a advocacia. Há aí errância epistêmica no cruzamento de necessidade funcional com particularismo subjetivo do agente.

Conclusões. O cenário atual do fundamentalismo, fora a tragédia de atentados, agora se reduziu ao cafonismo-piegas do subfundamentalismo pix da TV, mais uma alegoria tragipatética de padres-cowboys e suas calças embaladas a vácuo, expondo sugestões muscularíssimas gluteanas e penianas, mais os topetes chifrenses durificados a laquê, vendendo multivitamínicos milagrísticos de ora-pro-nóbis, que, por sua vez, garantem curas, tudo “provado cientificamente”, a expressão preferida dos crédulos, e regado a interpretações bíblicas que encontram Bradesco e Itaú a cada página.

Desde 1588, com o filósofo Michel de Montaigne (Ensaios), sabe-se que “cada um chama de barbarismo tudo o que não pertença a seus costumes”. Assim, nesta área do sobrenatural, sobram críticas – e desprezos- aos deuses e crenças dos praticantes e adeptos dos outros deuses. Por outro lado, não se pense que filósofos e cientistas sejam heresiarcas ou apologistas de algum demônio. Quando Carl Sagan (op. cit.) afirma que a ciência concede “prêmios mais valorizados àqueles que convincentemente refutam crenças estabelecidas”, é apenas o constante resultado do método científico derrubando dogmatismos e superstições sacralizados em credulidades. Nada mais que isto.

Sobre religião oficial por estas bandas, sem futurologias, “eles” devem vencer. Vem aí – como se já não estivesse- a religião-CNPJ, só que “terrivelmente” oficial. Se se quiser, com terminologia da moda, lastreada no modelo GBV, Gestão Baseada em Valor, e haja “valor”; apoiada no conceito ROI, Return on Investiment, o cálculo de retorno financeiro que se obtém a cada 1 real gasto com a “atividade”, … a fé; e seus gerentes tendo seus desempenhos avaliados por metas a bater por meio da KPI, Key Performance Indicator, e outros inglesismos tesudos para países do Terceiro Mundo, expressão utilizada pelos franceses. Tudo muito “dinâmico”. São empresas com procurações divinas muito bem falsificadas, tributariamente isentas, para felicidade dos milionários gestores. E, de quebra, o presidente e o diretor financeiro com passaportes diplomáticos oficiais. Não é uma bênção?

Nietzsche deveria estar vivo. No Brasil.

Jean Menezes de Aguiar.



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