Rodrigo Tardeli – Era uma vez, um Príncipe solitário que vivia no castelo de seus antepassados gloriosos. Solitário e infeliz, cultuava os feitos que julgava incapaz de realizar.
Jamais saíra do castelo e tinha medo de viver. Todas as vezes em que a felicidade se mostrara ao Príncipe, a morte – horrendamente real – a levava estupidamente.
Tristeza, solidão e monotonia subjugavam o Príncipe. Fenecia com o passar dos anos, atolado em pensamentos e ilusões.
Tornara-se indiferente aos deveres morais. Não podia ser diferente. E todos os que se aproximavam dele sofriam. O Príncipe não desejava o sofrimento dos seus, embora não o conseguisse evitar. Bem, ele nem sequer tentava. A sombra da morte implantara a covardia no coração do Príncipe. Ele tentava dirimi-la, iludindo-se no culto dos feitos de seus antepassados gloriosos. Mas eles também estavam mortos. E isso o assolava, a cada pensamento.
Certa vez, quando a tristeza e o tédio o estavam sufocando, o Príncipe recebeu a visita de um Anjo de beleza inefável.
E o Anjo começou a contar ao Príncipe como era viver. Inebriado, o Príncipe se deixou transportar a lugares mágicos, sendo conduzido pela doce voz do Anjo.
E o Anjo seduziu o Príncipe com suas misteriosas delicadezas.
Mas o príncipe temeu, pois não havia experimentado felicidade igual. E o que poderia fazer a morte desta vez?
A boca úmida do Anjo despertou o Príncipe de suas reflexões. O Anjo o beijou. E ao abrir seus olhos deficientes, o Príncipe e o Anjo estavam às portas da velha necrópole familiar.
Teria chegado o fim apoteótico do Príncipe solitário?
O Anjo propôs ao Príncipe, tendo às suas costas a memória dos mortos, uma escolha arquetípica: o soberano escolheria entre seus antepassados gloriosos ou a alma do Anjo.
O Príncipe chorou. Não poderia não fazê-lo. A ilusão de uma vida inteira ou as extasiantes sensações desconhecidas?
O Anjo o fitava com complacência.
O Príncipe escolheu o Anjo, e então, do mesmo modo fantástico, voltou ao castelo, na mesma posição de outrora.
O Anjo havia sumido.
O Príncipe se olhou num dos espelhos. Um olhar angelical havia substituído seu obnóxio mirar.
Então, o Príncipe compreendeu que o Anjo estava nele. Indelevelmente. Inevitavelmente.
O Anjo se aniquilou para que o príncipe pudesse viver.
O Príncipe e o Anjo um só se tornaram.
Rodrigo Martiniano Tardeli.
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