O despertar da raiva

Alice Arida

Alice Arida – Ela havia acabado de voltar de um feriado prolongadissimo da casa de seu avô paterno. Casado há quase sessenta anos com uma senhora de oitenta e quatro anos completos naqueles dias, sem muita saúde e alegria. Ela padecia de insuficiências e doenças diversas: pulmonar, renal, hepática, diabete, asma, trombose e outras enfermidades de nomes raros – que talvez ninguém além dela algum dia tenha ouvido falar- e queixava-se delas sem parar. Uma imagem de velhice assombrosa.

Há décadas discorria com propriedade sobre tudo que causava suas dores e sua quase morte e nem por isso tentava reverter a situação. Fazia exatamente tudo que lhe causava mal: comia doces e toda sorte de alimentos proibidos pelos médicos e depois passava o dia inteiro inerte, sentada em uma poltrona segurando um controle de televisão . Um verdadeiro terror. Não se expunha à luz do sol nunca. Não percebia e não via graça nas nuances da luz do sol ao longo do dia. Talvez nem se lembrasse da existência do sol. Não via a luz do sol nunca. Não via a luz do sol nunca. Não via a luz do sol nunca.

Enquanto não se lembrava dele, enquanto não se lembrava desse calor gostoso que aquece e faz da vida algo prazeroso e deixa os sujeitos na grama enlanguescidos embaixo de copas de árvores em qualquer lugar do mundo, ela continuava ali, sentada na poltrona. Queixosa, virada de frente para uma televisão enorme ligada naquele canal patético, assistido lamentavelmente por quase todo Brasil, em som alto, deixando a casa toda em ritmo de notícias-novelas-incêndios-estupros-roubos-manifestações-propagandasdascasasbahia-notíciaisdeguerras-enchentes-produtos-de-beleza-que-elas-anunciam-mas-não-usam,enfim,casa em ritmo de vida vazia.

De costas para a luz do sol, ela projeta para dentro da casa uma grande sombra, maior do que ela mesma. Todos os seus problemas, medos, paranóias, culpas e remorsos, acumulados e não reciclados ao longo de uma vida alienada misturam-se de forma desgovernada e por mais cretino que isso seja, ela, uma pessoa absolutamente sã, que se diz mestre em não sei quantos saberes, consegue enlouquecer e dilacerar seu marido, um sujeito simples, que não teve sequer o ensino fundamental completo. Um senhor cujos olhos outrora eram o espelho de toda amargura de uma vida de perdas irreparáveis, e que hoje transparecem uma imensidão de tristeza e desilusão, que só aumenta com essa doçura de pessoa que ele escolheu para viver.

É tão difícil falar sobre esta vida tão insalubre e sobre esta pessoa tão intragável. É tão difícil falar sobre qualquer pessoa, que não nós mesmos. O que quer que se diga nessas breves linhas será sempre insuficiente para traçar minimamente aquilo que alguém é. Neste caso, este casal, tão pouco definido aqui. Só com uns vinte e poucos anos de convivência dá para entendê-los um pouquinho, ou vivendo dentro da realidade deles.

Sempre tento não julgar as pessoas injustamente. Inverto situações, banco advogada do diabo, finjo ser o outro. Mas neste feriado fui tomada por uma raiva que por pouco não me fez perder a cabeça e virar o próprio diabo. Raiva é um sentimento horroroso, repugnante. Ah, esqueci de pontuar lá em cima que dentre as doenças crônicas das quais sofre a tal senhora, está a raiva, que para mim parece ser sua mais grave doença.

Basta um olhar e você se contamina. Certo dia fui defrontada por uma mulher irada, que me olhou de uma forma inesquecível. Minha defesa imediata foi desviar o olhar e ficar  em silêncio, mas depois remoer internamente em tristeza. Dói muito ver alguém morrendo e matando por raiva.

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Categorias:Poética

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