O ‘imbecil’ de Brecht e a morte do cinegrafista

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Caio Silva de Souza, 22, auxiliar de serviços gerais de um hospital, confessou ter acendido o explosivo que matou o cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Ilídio Andrade. O profissional morreu 4 dias depois. O crime se deu na última 5a feira (6), no Centro do Rio de Janeiro.

Repare, Caio era um funcionário de um hospital, local e serviço que cuidam da saúde das pessoas. Seria a última pessoa a se imaginar envolvido num crime de homicídio sob a especialidade de se travestir de manifestante.

Talvez esta criatura criminosa já tenha auxiliado na saúde de enfermos. Como será, por outro lado, a admissão de um ‘auxiliar de serviços gerais’ em um hospital? Qualquer um serve? Basta querer ganhar os 800 reais de salário mais vale-comida etc.?

Há questionamentos de toda ordem aí. Mas há uma estrutura podre que parece servir como energia humana a essa onda de depredação e crimes sociais em manifestações.

Caio disse que não sabia se tratar de um artefato explosivo. Talvez seja verdade. Esse sujeito não deve saber de muita coisa na vida. Depois que mata pede desculpa e se diz trabalhador. Foi o que ocorreu.

A situação remete o caso ao ‘imbecil’ de Bertold Brecht, em ‘O analfabeto político’. Diz o poeta alemão: ‘O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais’.

Seria esse Caio um dos ‘imbecis’ de Brecht? Seriam todos os violentos e agressivos, truculentos e quebradores, radicais e jactantes da violência nas manifestações que começaram no Junho-2013 no Brasil, ‘imbecis’ de Brecht? Parece que são.

A alienação como estrutura cognitiva nesses seres socialmente primários nem chega a consumar o que em neurociência se chama ‘desordem da percepção’. Tudo indica não haver patologias, o que Freud chamou de agnosia, situação gerada por uma lesão no cortex central. Isto é sofisticado demais para o ‘imbecil’ de Brecht.

Até a suposição de uma situação que representasse uma vitimização à saúde parece ser um exagero. Os ‘imbecis’ de Brecht são saudáveis. Orgulham-se de se dizerem ‘superiores’. Não se interessam pela política dialética, dos debates. Querem a destruição, à mão armada, de o que a democracia construiu.No caso, a liberdade de imprensa.

Thomas Jefferson declarou que se fosse dado optar entre um governo sem imprensa ou uma imprensa sem governo, não hesitaria pelo segundo modelo. Toda e qualquer tentativa de cerceamento ou afetação à imprensa é um risco direto à democracia.

Já imaginou uma única manifestação no mundo não coberta pela imprensa? Em que um evento assim, impune para o Estado, poderia redundar? Sem o testemunho publicável do jornalista? Aí estaria o horror da impunidade pró-Estado em que a secretitude garantiria a violência oficial.

Todo Estado erra e é truculento. A construção de Direitos Humanos foi historicamente, toda ela, elaborada para conter excessos do Estado. O ‘imbecil’ de Brecht também não percebe que o jornalista articula a fiscalização do Estado. O Estado e seus agentes devem ‘temer’ a imprensa como publicadora de suas falcatruas oficiais.

A imprensa também erra e é facciosa. Em todo o mundo há essa crítica. Talvez nem possua mais a velha aura do Quarto Poder, referida em Norberto Bobbio, ‘Dicionário de política’ . Mas a ausência da imprensa é a certeza da violência estatal conforme mostra a história.

Quando a parcela dos ‘imbecis’ de Brecht, infiltrada nas manifestações, começaram, além de quebrar bens, a atacar a imprensa, várias explicações houve. Dentre tantas possíveis, permanece aquela de que essa gente buscava cometer crimes mundanos e patrimoniais. Comunzinhos e nada ideológicos: assaltos e roubos a caixas eletrônicos e pessoas de bem.

Uma bomba mirada na cabeça de um jornalista em trabalho profissional de rua é um nível de dolo, intenção e planejamento criminoso. Ou se queria a cabeça ou o equipamento empunhado. Se a cabeça, o desejo era do homicídio pessoal – mirar na cabeça mostra uma intenção letal absoluta-. Se a intenção era o equipamento, o desejo reacionário era de calar a imprensa, pelo dano à filmagem.

Talvez pior do que a maldade seja a imbecilidade. É difícil saber, por ora, se o criminoso confesso é apenas mais um bandido ou mais um imbecil, sabendo-se que um conceito jamais exclui o outro. Não adianta a morte do jornalista Santiago Ilídio Andrade para ‘servir de exemplo’. Ele não tinha é que ter morrido. Este exemplo não serve para absolutamente nada. Vandalismos e crimes em manifestações precisam merecer o efetivo basta da sociedade e a repulsa pesada do Estado e da Polícia. OBSERVATÓRIO GERAL.

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Categorias:Cidadania online, Direito e justiça, Ruas & Internet

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2 respostas

  1. “Com cinco jornalistas mortos em 2013, o Brasil se tornou o país mais letal da América para representantes da mídia, segundo o relatório anual divulgado nesta quarta-feira (12/02), em Paris, pela ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF). A posição era até então do México, um país “muito mais perigoso”, de acordo com a ONG. O Brasil ocupa a 111ª posição no ranking de liberdade de imprensa da organização, incluindo 180 países, tendo descido três posições em relação à avaliação anterior.”

  2. Excelente análise.

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