A moda de linchar bandidos na rua

 linchamento

Ser bandido é uma atividade perigosa. Ao mesmo tempo que o meliante ameaça a vida de alguém, quando assalta, corre o risco de perder a própria vida se qualquer um do povo conseguir pegá-lo. A intolerância passou a ser uma das grandes marcas da sociedade pós-ética. E o ódio ao assaltante se torna praticamente um prazer. Ou um diletantismo.

O linchamento urbano de supostos criminosos parece estar virando moda no Brasil. Lugares diferentes e sob influências sociais diferentes vêm adotando a prática. Rio, Bahia, Goiás, Santa Catarina etc. Há uma espécie de difusão do manejo vingador.

Grande parte da sociedade, com rasgos conservadores, não desaprova. Ao contrário, estimula. Há os que caçam mesmo. Por seu turno, a imprensa dá ampla divulgação. Não perderia um escândalo desses por nada.

É uma moda nefasta e criminosa. Populista, alimentada por quem contrapõe: ‘- gosta de bandido? Leve para sua casa’. Largas parcelas do jornalismo de quinta se especializam no assunto. Veem-se emissoras de Tv, até as ‘clássicas’, tirarem suas casquinhas. Sangue e desgraça sempre renderam altas audiências e ávidos anunciantes.

Um fator social é que com o consumismo não se quer mais esperar por soluções formais: uma sentença judicial. Apressam-se resultados. O suposto bandido é preso pela própria sociedade, na rua, julgado e sentenciado. É a nítida vingança da classe trabalhadora que se vê no direito de espancar ou mesmo matar, ante a ameaça da perda dos bens. Ou de seus filhos assassinados em assaltos que deram errado.

Numa sociedade em que o Estado é relapso e burro com a criminalidade e o crime se organiza empresarialmente, a difusão do ódio social pela classe bandida é um rastilho de pólvora.

O Código Penal faz sua parte. É leniente com o crime chamado Exercício arbitrário das próprias razões. No artigo 345 se lê: ‘Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite: Pena – detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência. ‘ A pena de detenção praticamente não existe mais.

Também no Direito há as 4 excludentes de ilicitude. Dentre elas, a Legítima Defesa que autoriza se mate o bandido para repelir injusta agressão. Mas essa reação nunca é a que se vê no linchamento, com o suposto bandido manietado, por exemplo, posto sob um formigueiro para ser picado, como ocorreu esta semana. Isso quando não leva uma surra. Ou é morto mesmo.

Constroi-se toda uma teoria justificante para a pancadaria e a surra no assaltante. Mas o grande tormento é o equívoco.

O equívoco é dos maiores fantasmas que há. Não o linchamento em si, dizem os que defendem. O equívoco de linchar um inocente porque ‘parecia’ ser o assaltante. Se os sistemas judiciais do mundo, com toda segurança e cuidado, erram, o que se dirá em relação a alguém que correu apavorado e é confundido com um ladrão?

Problema paralelo aí é se imaginar que milícias, essas que substituíram o tráfico nos morros cariocas e que o Estado não consegue combater, deem ampla difusão à prática do linchamento. Milícias são nítidas atividades comerciais. Como o tráfico, não querem confusão com ladrões em suas áreas. Matar para dar o exemplo é a moeda mais barata e rápida.

Se houver, saída daí, uma pedagogia ou um valor no sentido de que isto possa ser o correto, na base do ‘bandido bom é bandido morto’, o problema se agiganta. Milícias podem estar ‘educando’ novas gerações para a vingança.

O filósofo já disse: ‘os monstros somos nós’.

Um ladrão de 16 anos que tentou roubar uma motocicleta em Goiânia foi amarrado a um poste e seriamente agredido por aproximadamente 40 pessoas. Como é menor ‘sofrerá’ medidas educativas oficiais que ninguém acredita que eduquem ou regenerem.

No geral são 3 as situações. Há uma diferença entre as reações com linchamento; as agressões paulistanas a gays; e a prática de criminosos de Brasília que incendeiam índios e mendigos. Em Brasília é a futilidade e a náusea sociais de filhos de ‘autoridades’ que resolvem, para quebrar o fastio existencial, incendiar pessoas. Quanto aos gays na cidade que parece ser a cidade mundial dos gays, SP,  há o paradoxo de um ódio rácico e dirigido por boçais secularmente deslocados no tempo, organizados em bandos primatoides.

Já reação social do linchamento é um retrato triste da exaustão do sistema punitivo ou minimamente segregador. A falha do sistema que não deveria jamais legitimar a violência, de tanto insistir em sua falência persecutória, parece se prestar a fundamentar a barbaria.

Ninguém pode atacar ninguém. Ninguém pode linchar ninguém. O grande problema é se a sociedade construir que essa prática possa ser aceitável. Esta hipótese que parece ser originariamente absurda, em tempos de difusão na internet e intolerância pode virar um padrão. Será uma nova doença social. OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo para os jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS. Republicado no site BRASIL 247]

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