Felicidade e tristeza – o que é mesmo isso?

tragédia

Estipulou-se nesta sociedade em que o consumo passou a ser sinônimo de felicidade, inclusive terapêutica, que todo mundo é e se não for precisa ser feliz. É a ditadura da felicidade comprável. Ou no mínimo conseguível. Mas muitos sabem que essa vida cor de rosa é uma grande mentira.

Converse 5 minutos com qualquer compositor de música popular brasileira e confirme o que de bom e do melhor, em termos de poesia e letras de música, a tristeza e o desamor já possibilitaram para ele. E para todos os outros.

O fato é que a tristeza passou a ser tão negada que não poucas pessoas não querem nem ler nada sobre ela. Até exemplos de situações que deixam, normalmente, alguém triste, não são bem-vindos para muitos. É como se conversar sobre a tristeza atraísse ou “baixasse o astral” da conversa. Também é como se a tristeza não fizesse parte da vida e que nunca pode ser teorizada.

Quase que como um antídoto, mas até preconceituoso para alguns pensadores, está o conceito de “felicidade”, algo bastante fugidio, difícil de conceituar e mesmo de entender. Sua concepção sabidamente genérica faz com que aceite e absorva, em seu grande guarda-chuva, fenômenos bastante variados da vida humana, sejam passageiros ou duradouros.

O filósofo Robert Misrahi (Café philo), estudioso francês dedicado à felicidade e à ética, abre duas questões interessantes. Por que privilegiar a felicidade e não a liberdade, a justiça ou o amor? A segunda diz respeito a se tentar dar um conteúdo a essa felicidade e não simplesmente usar o seu nome.

Seguindo essa linha de raciocínio, pode-se concluir que o conceito de “felicidade” pode ser um biombo, meio cínico, para se esconder sensações que deveriam ou poderiam ser identificadas, conhecidas e terem um nome próprio. Também, pode ela querer ser um placebo contra determinadas análises que apenas dão trabalho. Teorizar amor e justiça, para saber se eles existem e, então, geram felicidade, é algo complexo. Daí, fica-se na felicidade que é mais simples e genérico.

Mas há ainda mais. Quando se busca saber se uma estrutura que diz respeito a amor e a justiça pode ser considerada minimamente satisfeita, ou seja, aceitando que aí possa existir felicidade, pode estar presente uma verdadeira censura. Não sobre o conceito de felicidade, mas sobre os conteúdos, amor e justiça que envolvem valores sensíveis, íntimos e sociais. Uma ditadura, por exemplo, permitirá que a sociedade questione a felicidade, mas não permitirá que questione formas abertas de amor ou a qualidade de justiça existente.

O historiador Eric Hobsbawm (O novo século), cita Jefferson que se referiu à “busca da felicidade”, dizendo que na atualidade se torna muito difícil saber quando essa aspiração é realizada. Se há toda essa dificuldade, talvez possa se concluir que ela, a felicidade, não seja a regra. Hobsbawm utiliza um didático exemplo em nível primário. Vincula a felicidade, em pessoas pobres, a que minimamente consigam estabilizar “elementos básicos da vida, como alimento, roupa e abrigo”. Conseguindo essa melhora de vida, conseguiu-se felicidade.

Um traço marcante da felicidade parece ser o seu hábito. Há pessoas acostumadas a ela. E há as pessoas acostumadas à tristeza. Para as pessoas tristes o mais importante pode não ser como sair de uma situação triste, mas como lidar com algo efetivamente novo, se por acaso advier: a felicidade.

Um dos nítidos traços do pensamento conservador – e reacionário-, é querer que tudo sejam “opções”. O menor de rua, a prostituta, o mendigo, o aidético, o dependente químico todos eles fizeram [apenas] opções pessoais que os levaram ao estado ao qual se encontram. “Optaram” por não estudar, por não se cuidar, por não trabalhar. Nenhuma sociedade evoluída, ou minimamente democrática, adota mais este modelo de intervenção social para seus problemas domésticos. Só as reminiscentes ditaduras.

A felicidade não é uma opção do agente que resolve, então, a partir de um determinado dia ou episódio, ser feliz, pronto, fácil assim. O pensamento trágico, tão estudado na filosofia é uma profunda ferramenta para o manejo da felicidade e da tristeza. Com Kierkegaard se conhece a angústia.  Com Heidegger o existencialismo do ser-para-a-morte. Com Nietzsche a morte de Deus. Com Cioran a amargura.

E não se diga que basta se “optar” por não conhecer, não estudar, para se ser feliz. Ou que a ignorância, então, é melhor. O próprio filósofo já disparou: na próxima encarnação quero voltar ignorante. Mas até isso se sabe que é uma ironia.

Para se conhecer a felicidade não se pode ter medo de saber o que é a tristeza. Não se pode fugir dela. Reuniões e jantares deveriam ser feitos em homenagem à tristeza, no sentido de seu conhecimento a fundo. Só aí se pode ter a certeza de que se está diante de um momento feliz e não apenas aparentemente feliz.

Na sociedade do consumo pegaram-se o riso rápido, a gargalhada incontida a um momento e consideraram felicidade. No amor, inventaram o “ficar”, a transa avulsa, o beijo descompromissado. Desmontaram a poesia e a meiguice, o romantismo. Mas disto, muito já se falou e não adiantou nada. O efeito manada do consumo das sensações imediatas triunfou.

Falar em amor e romantismo é que se tornou “conservador”. O problema é que ainda há uma quantidade imensa de homens e mulheres que buscam a meiguice da cumplicidade e do sonho do carinho, do beijinho, da conchinha noturna e dos cochichos amorosos que só o casal consegue escutar. O amor ainda continua a ser um ótimo naco teórico para se apurar o que seja felicidade. O problema é que ele saiu da moda. Se eu pudesse desejar algo, em vez de felicidade, desejaria amor. Aí pode estar o grande segredo. OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo para os jornais O DIA, SP e O ANÁPOLIS, GO]

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1 resposta

  1. ótimo texto. Felicidade certamente transcende a obrigação imperativa de negar a tristeza.

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