Greves: quem tem medo delas?

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O pensamento conservador sempre lidou mal com as greves. Ouvem-se pérolas reacionárias do tipo: será que grevistas não podem fazer as manifestações no canto da rua sem atrapalhar o trânsito? Ou: precisavam causar transtorno na cidade? Alguns que reclamam assim são quatrocentões mariquinhas travestidos de Odetes Roitmans. Acham ‘chique’ não precisar de greve. Mas a realidade do povo sofrido é outra.

A greve é um instrumento universal do trabalhador e foi reconhecido até nas ditaduras. Nenhum sistema jurídico do mundo, minimamente democrático, proíbe a greve.

Se o junho-2013 no Brasil ficou marcado por manifestações de ruas, basicamente sociais, o maio-2014 está mostrando uma cara tipicamente profissional, grevista. É óbvio que os organizadores de greves esperaram para estar à porta da Copa para começar seus movimentos. Se não fizessem isso seriam burros. Não se pense que o certo é tumultuar a Copa. Claro que não. Mas há que se olhar pelo lado dos trabalhadores. ‘Tecnicamente’, o melhor momento atual de greve é este. Infelizmente é.

Toda greve pede visibilidade. Mas também cobra transtornos e incômodos para forçar o outro lado a ceder, pelo desconforto, pela exposição pública, pela cobrança social, pelo enfrentamento causador de críticas. Este é um dos objetos centrais da greve e sua funcionalidade. Como vencer isto? Pela inteligência, pela negociação, pelo diálogo ágil.

Outro ponto mal compreendido é a politização das greves. É claro, é óbvio que a greve, como manifestação social, é tipicamente política. E num país às vésperas de eleição, qualquer greve se potencializa neste patamar. PSDB quererá incendiar o governo dizendo que as greves são ‘uma prova’ de que tudo está mal, o país está em chamas etc. Já o governo dirá que são situações pontuais e não refletem uma generalidade.

Mesmo que 20 categorias se reunissem e fizessem greves no mesmo dia, não seria uma generalidade social. A greve não pode ser comparada à situação do junho-2013. Seriam 20 greves, 20 reivindicações e 20 pontualidades. O aspecto salarial da greve restringe seu fato social. Ela pode ter, sim, um ‘ingrediente’ político, mas sua cara não é ordinariamente esta.

Quando os ônibus param na Avenida Francisco Morado, SP, em fila e não atendem à população, não se pode pensar que motoristas e cobradores estão manifestando-se contra política econômica, contra Dilma, contra PT. Há ali um interesse imediato e próprio que são as condições de trabalho, incluindo salário, grana. Este confronto é natural e precisa ser compreendido com naturalidade. Não se pode querer ‘migrar’ um movimento profissional que tem interesses salariais para eventual fogueira contra o governo.

Por outro lado, greves têm um alvo preciso: o patrão. Têm um objetivo certo: salário e/ou melhores condições. Isto não depende de nenhum presidente. A menos que seja na pasta do Executivo federal.

Se virá uma tormenta de greves, dificultando efetivamente a alegria da Copa é uma análise que os possíveis grevistas devem sopesar com calma. Quando começar mesmo o clima da Copa, pode ser que um grupo fazendo greve para surfar aí seja visto de uma forma péssima, até antiética. Mesmo sabendo-se que, normalmente, as greves precisam de visibilidade. Ou seja, há no caso da Copa, uma linha tênue com três pontas, a eficiência da greve, a Copa e uma eventual porretada no povo.

Os motoristas de ônibus, esta semana, se tivessem feito catraca livre, ganhariam a adesão do povo. Mas parar o atendimento foi pôr em risco, inclusive, os veículos que poderiam ter sido depredados por criminosos de plantão.

A greve não é nem nunca foi um bicho papão. É, toda ela, legítima do trabalhador e ninguém pode lhe torcer a cara. Nem querer que ela seja o que não é: uma ‘prova’ de que o Brasil vai mal. Não vai e todo mundo já percebeu que está muito bem obrigado. Agora é esperar a Copa, com ou sem greve. OBSERVATÓRIO GERAL.

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