O problema do golpe é a palavra ‘golpe’

geisel

 

“Esse negócio de golpe é muito difícil. Vi sete, posso falar.” Ernesto Geisel se referindo aos quatro golpes vitoriosos, 1930, 37, 45 e 64 e aos três perdidos, 1955, 61 e 65, ao comentar um hipotético golpe contra a posse de Tancredo Neves, em 1985, a Elio Gaspari, na obra A ditadura envergonhada.

 

Este importante dado histórico mostra três coisas graves. A primeira, o Brasil é íntimo a golpes; a coisa é mais comum do que neoconservadores possam querer achar que não. A segunda é que das 7 datas acima, alguns desses episódios foram ‘suaves’, operados em bastidores, com certa elegância, e mesmo assim Geisel, sim, ele, isto é importante, admite ter havido ‘golpe’. A terceira é que em todos os momentos à época, a palavra ‘golpe’ era simplesmente proscrita. Acusasse alguém de golpe e seria preso na hora, à tapa.

 

Mas isso é passado, não é verdade? Agora tem whatsapp, facebook e não há mais golpe. ‘Né’?

 

O impeachment não é golpe. Não pode ser. Não é de ‘bom tom’, não é ‘fino’, não é de gente ‘do bem’. Revolucionários são sonhadores, cabeludos, puristas e radicais, ainda que tesudos, dizem as moças. Golpistas são estelionatários, aproveitadores, gordos e interesseiros, ainda que conservadores, raposas velhas com cabelos acaju-asa-de-graúna, e caídos, dizem as mesmas moças. Assim, não há golpe.

 

Cunha e Temer não são aproveitadores e interesseiros. Jamais o seriam, (não é?). Os deputados e a Câmara também não são interesseiros, (certo?). Todos esses são valentes sonhadores e dedicados a um ‘Brasil melhor’. Levam uma vida simples ‘pela família’ – a nova safadeza conceitual garantidora de voto, dinheiro e seguidores nesta sociedade balzaquiana piegas do momento-. Mas ‘suas excelências’ também se preocupam seriamente com a sociedade. Alguém duvida?

 

Aí estão algumas das causas da ‘infâmia’ de se falar em golpe. Fora, claro, Temer ter confessado que não queria que falassem o termo ‘golpe’; ou queria se descolar do conceito. Aí ‘pegou’. Virou TG, Temer-Golpe.

 

Até hoje crédulos acreditam, ou cínicos defendem, que 1964 foi uma ‘revolução’. Juram que não houve ‘golpe’. Nada como um dia após o outro para aparecer uma entranha viva do sistema, como Geisel, e dizer o que nenhum general ou direitão crédulo participante teve coragem de dizer.

 

Entre os conceitos de golpe e revolução sempre houve grandes vieses ideológicos. Agora, entre golpe e não-golpe também; igualzinho. Quem ‘acredita’ em um dos conceitos não arreda pé do seu ‘lado’. Para teimosos, não há lógica, inteligência, fato histórico ou ciência que mude isso.

 

Há juristas e intelectuais de um lado, e do outro. Isso ‘acomoda’ as coisas. Principalmente para quem não pensa complexivamente por si e precisa de argumento de autoridade para ‘vencer’ debates. Que vença. Se o importante é o primarismo do ‘ter razão’, que tenha. A história se faz próxima às mortes, ou depois dos túmulos. Como foram os ilustres e inusitados casos de Geisel e Golbery em suas estupendas confissões, espontâneas, fáticas e enfáticas. Praticamente dolosas.

 

Talvez quem perceba as entrelinhas da História, suas absolvições e condenações temporais, invariavelmente sempre muito depois dos fatos, esteja querendo se descolar de um possível governo Temer. É o caso dos caciques do PSDB. FHC, um que pensa ali, sabe que a história poderá ser muito cruel no futuro com essa chance alegre de Temer. Daí também uma explicação para tantas figuras conhecidas já terem dito ‘não’ a convites de Temer.

 

Formalmente há um beneplácito de 2 ministros do Supremo Tribunal Federal atestando que o ‘processo’ de impeachment, este, não é golpe. É muito, muito pouco para a história. Ela é muito mais exigente do que este número. Pode impressionar a alguns superficialistas ou ideólogos do caos como motivador de impeachment. Mas continua sendo pouco, praticamente nada.

 

No pé em que a coisa chegou, só ela, a história dirá o que se viveu em 2016. Mas isto, só para uma tal ‘confirmação’. Enquanto isso, boas cabeças, pensadores e observadores políticos têm suas construções sedimentadas, não saídas apenas de jornalões ou programas de ‘tv’, mas de observações, movimentos, reações, discursos, entrevistas diretas e reflexão.

 

Pelo andar da carruagem, pelas reações que certas figuras têm tido, estima-se que a história venha a ser como ela é, impiedosa, com Michel Temer. O mais sensato – ou desesperador-, para ele agora, seriam eleições diretas. Não para se eleger, isso ele tem cacife zero. Mas para não se incinerar. Por outro lado, é a única chance da vida dele. E algumas pessoas fazer peripécias pela tal única chance.

 

Então está combinado. Não é golpe, a Câmara dos Deputados vai ‘ralhar’ com Eduardo Cunha porque ele foi um mau menino e pregou mentira, e Temer salvará o país. O que mais você precisa?

 

Observatório Geral.

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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