Radicalismos, autoritarismos, intolerâncias e o esgarçamento da democracia

ciudadanc3ada

 

Setores importantes do cenário atual, seja no jornalismo, na justiça como um todo, na política, na educação ou na sociedade em geral vêm sendo vitimados por um radicalismo cultural de fronteira. Um que chega a se situar no limiar da agressão. Inclusive física, baixa e efetivamente infame, a partir de que não se contenta com o debate. Precisa, às vezes da agressão física. Por todos, as torcidas de futebol por um lado, e a PM com essa tara psicanalítica por bater nos outros.

 

A metaleitura de o que vem ocorrendo com a sociedade é sempre um bom exercício, mas parece não ser a regra entre observadores em geral. É como se cada um quisesse agudizar ainda mais as situações às quais são chamados a se manifestar, mostrando sempre, um pontinho mais e mais grave. Numa busca a um infinito tosco. Ou é como se só com adjetivos extremados, últimos, burilados em ofensa, o esclarecimento, quase que o ‘Aufklärung’ de Horkheimer e Adorno, pudesse ser alcançado. Confesso que tenho que me esforçar para não cair na vala sedutora.

 

No jornalismo, outrora ‘imparcial’ e ‘isento’, pelo menos ele jurava ser assim, somente parte da imprensa era ‘marrom’. Hoje os maiores jornalões e veículos se tornam cinza chumbo, atendendo a uma demanda radical da sociedade pelos 5 itens no mercado midiático: pânico, caos, escândalo, medo e terror. É o que vende. Se a sociedade quis ‘sangue’ na informação, a imprensa se vendeu fácil como vulgarizadora da notícia editada, mentida e safada. Fechou-se um círculo de clientelismo aí.

 

Já na justiça, os exemplos não fogem muito disso. Houve juízes no Supremo Tribunal Federal em bate-bocas televisivos com acusações de ‘capanga’ para lá, ‘vendido’ para cá, que ‘deveriam’ ruborizar o Judiciário. Agora, procuradores da república da Lava Jato que poderiam muito bem evitar críticas de que não conhecem Direito Penal, com o espalhafato midiático contra um Lula também midiático, armam um show midiático para … trabalhar. Sim, fazer o que devem fazer, por ordinário e normal dever de ofício. Para que shows? Aqui há uma demanda da imprensa por fofocas e futricas legais. E aqui agentes oficiais caem na esparrela.

 

A educação familiar de crianças, já comprometendo a talvez duas gerações, virou uma oligofrênica egolatria de desejar – e crer!- filhos como ‘reizinhos’ e ‘princesas’. A malandra ideia da falsa realeza na criação é a da irresponsabilidade pessoal. Eles vivem acima da lei, da moral e da ética. Afinal, tudo que fazem, e podem tudo, passa a ser escapista e rapidamente ‘coisa de criança’. A radicalização do comportamento antissocial quase que é estimulada por pais, em nome de uma supostíssima ‘liberdade de personalidade’. Podem berrar no avião, chutar a poltrona da frente, rastejar em chãos imundos de rodoviárias, podem tudo. A seu favor; contra o mundo; mas também contra si próprios, nesta versão famélica da inteligência na educação infantil. Assim, não se ensina que cair do 8º andar mata. Põe-se uma cerca física. Se a cerca furar, a criança que ‘não aprende’, pula. E morre.

 

A política se fundamentaliza sob alguns nichos apodrecidos, ainda que certos teóricos patrulhem quem fale mal da política, como se a crítica fosse uma ode direta à ditadura, um extremismo primário. Assim, bancadas ‘religiosas’ – que diabo é isso?-, por exemplo, que ‘deveriam’ ser ‘éticas’ (perdoe-me Ética) se fazem marcar por uma dupla característica: atraso e mentiras. Já as bancadas da esquerda conseguem justificar fisiologismos capitulantes de momento com o que de mais vergonhoso há, parido pelo autoritarismo e conservadorismo. A direita segue igual, ruim e ‘esperta’ como sempre foi. Ou seja, ninguém quer ‘perder a oportunidade’. É o oportunismo do lucro, do resultado, mesmo que danando-se a sociedade, o país.

 

O retrato que se busca não é o da escatologia, mas causas e situações que muito bem se parecem com ela existem, aos montes. Não há como tapar o sol com a peneira. O que é ‘verdadeiro’ aí? A entrevista dos procuradores da Lava Jato? O choro de Lula? O impeachment de Dilma? A polidez cênica de Temer? Os produtos, como leite e suquinho, agora ‘do bem’? As candidaturas malandras de Zé do Posto, do Cemitério, do Gás, do Açougue, do Prostíbulo etc.? (Talvez este último fosse o Zé mais ‘puro’ de todos).

 

A premeditada eliminação da Crítica na formação do jovem universitário, nas milhares de faculdades particulares que primam por um corpo docente obediente, serviçal, não instigador e acrítico contribuiu seriamente para a manutenção de um jovem-estopim. Pouca reflexão, pouca meditação sobre os problemas e demandas sociais, e muita produção de final de semana, movimentos e passeatas espoletas. Mas pouco comprometimento com um Brasil ético, calmo, inteligente, justo, equilibrado e tolerante, como desenhado por Darcy Ribeiro. Hajam vista os exemplos atuais de agressões, o trânsito-buzina, a continuada violência contra minorias etc.

 

A democracia aceita praticamente tudo. Francis Fukuyama, na nova obra As origens da ordem política – dos tempos pré-humanos até a revolução francesa-, ensina que a passagem histórica para a democracia resultou de indivíduos antes passivos que se mobilizaram, por meio de 5 fatores: maior acesso à educação, tecnologia de informação, viagens e comunicações acessíveis e maior prosperidade.

 

Como a democracia é essencialmente elástica, seremos o misto da cara que fomos até aqui; somos; e a que vamos querer ser, em percentuais diferentes. Se não se pode mexer no passado, o presente e o futuro aceitam discussões lúcidas e racionais. Sem mitos e medos, sem mentiras e sem radicalismos. Aí o desafio. Para que consigamos uma vida minimamente mais ética e mais serena.

Jean Menezes de Aguiar / OBSERVATÓRIO GERAL.

 

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