A prisão

Esta semana deu-se a prisão de um ex-ministro importante. Não um desses cuja pasta ministerial é uma desfaçatez ao povo e não serve mesmo para nada a não ser prejudicar o caixa do país. Horas depois o juiz revogou a prisão. Internamente, no mundo jurídico, a revogação é nada demais. Um arrependimento humano, mundano, louvável. A imprensa se alvoroça em mais vendas de exemplares e audiências. Compreensível também este desespero mundano.

Chama atenção o interesse social pela ‘vingança’, palavra estigmatizada que muitos piegas, religiosistas e cristãozetes não têm coragem de assumir viver. Há uma cultura tácita, jamais declarada com a prisão-vingança. Querem-se punições e degredos. Se possível justiçamentos

 

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MF

Parafraseando Michel Foucault, na obra Vigiar e punir – nascimento da prisão-, com seu ‘pequeno funcionário da ortopedia moral’ que tenta esconder a vergonha de punir, ao lado do oficial que distribui a justiça, há os pequenos cidadãos da mesma ortopedia moral, mas que em vez de buscar justiça, só pensam em punir desavergonhadamente. Revezam-se no patrulhamento social com uma farisaica moral persecutória, acusadora, buscando punir ‘inimigos’ políticos, ou ideológicos, mesmo que de time de futebol. É o nós contra eles, numa deformidade pensante oligofrênica. Enquanto viragem sociológica é das mais interessantes para culturalistas. Mas seu atraso é patente.

 

Nesta psicanálise da sociedade doente, pouco interessa se Guido Mantega merece ou não ser preso. Hoje ou mais para frente. Qualquer um que tenha efetivamente cometido um crime deve ‘pagar’ por sua conduta. Simples e desgraçado assim.

Em pleno século 21 não deveria haver mais, na sociedade da ocupação digital, do trabalho invisível, o rancor oitocentista de um século atrasado com a sanha pela prisão, o encarceramento. Ainda que a humanidade não tenha inventado algo muito melhor.

Christian Delacampagne conta que Courbet tinha um amigo que acordava à noite gritando ‘Julgar, eu quero julgar’, na mania que as pessoas têm de julgar. Uma grande parcela da sociedade intolerante atual parece dizer “Prender, eu quero prender’, o que será chamado num direito lucidamente crítico de ‘cadeísmo’. O atraso do cadeísmo.

Não se trata de perdoar o criminoso. Não se caia na vala fácil do antagonismo simplista e totalitário. Mas o fato é que a sociedade do fundamentalismo prisional, construtora de cadeiões não vem vencendo as guerras. O tráfico de drogas venceu, não se cogita mais viver sem ele, as polícias sabem que enxugam gelo. O terrorismo venceu igualmente. Será que o estupro coletivo, como cultura, vencerá no Brasil? Veja, a questão é cultural.

O horror da punição estatal, desde a barbaria do esquartejamento humano por cavalos em praça pública, passando por todas as formas de suplício e execuções de penas não conseguiu mostrar um mínimo de inteligência funcional com o crime. E se num pós-Guerra ‘amenizado’ em sanha punitiva, pelo horror dos holocaustos e matanças nazistas, as sociedades atônitas e ao mesmo tempo influenciadas por uma liberdade hippie conseguiram dar a impressão de que estavam mais ‘brandas’, a paradoxal intolerância deste século 21 parece ter firmado lugar.

Dizer que a prisão chegou a um lugar ‘decente’ é muito pouco. Primeiro, porque o interior dos estabelecimentos prisionais, só quem conhece, como interno ou profissional do sistema. Segundo, que paralelamente a esse horror, parece recrudescer a sanha da sociedade do ‘prender, eu quero prender’, um vezo baixo, pobre intelectualmente, como mantra para uma gente que precisa crescer, produzir e melhorar educacionalmente.  Terceiro, porque a subnarrativa das operações policiais nunca é uma contribuição pedagógica de qualquer valor que fosse, mas apenas a pancadaria da opressão intelectual com a derrota do bandido pelo mocinho.

A grande tristeza – ou mera paisagem estagnada- para observadores sociais aí é não ver luz no final do túnel. Apenas uma funcionalidade que se mecaniciza como uma inércia do punir; a mesma funcionalidade que pedagogiza em novas gerações, no sentido de que isto é correto; e a continuidade de um modelo velhaco de política e autoridade oficial, um Estado essencialmente desonesto por concepção com o uso do dinheiro público, em todas as hipóteses e gestões e, de novo, ausência de esperança.

Continue-se a prisão como moeda da esperança de uma sociedade esbugalhada. Mas o certo é que a Educação precisava ser revista de uma forma séria, honesta e centralizada por todos. Só ela tem o poder na História de trans-formar. OBSERVATÓRIO GERAL.

 

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