Dê-me chance e eu mostro meu preconceito

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Médicos cubanos sendo vaiados em Fortaleza por médicos brasileiros.

Com o programa do governo federal Mais Médicos, importando doutores de Cuba, muita gente vem aproveitando para lustrar seus ódios. Basta falar a palavra “Cuba” para que as bichas se alvorocem. Fidel, comunismo, comedores de criancinhas e outros fantasmas do século passado sempre desequilibraram conservadores. Preconceitos disfarçados ou violentos estão sendo espumados. Pela boca ou pelos poros. Em alguns casos veem-se fundamentalistas agressivos. Triste Brasil nada afetuoso.

Ninguém que discrimina aceita ser chamado de “preconceituoso”. Isto costuma lhe soar como alta ofensa. Raras são as criaturas que encaram o pesado título. A saída mais comum é justificar, dizer que a tacha posta sobre o outro era “brincadeira”. Ou dizer que não foi “com este sentido” que falou. Calhordas e fariseus têm uma coisa em comum com medíocres: se protegem. Ainda que estejam longe de serem geniais.

O site de notícias “Brasil 247” abriu manchete esta semana, 26.8.13, com o título “Médicos brasileiros envergonham o país”. A matéria retrata fatos dantescos. Médicos brasileiros em xingamentos, ofensas e discriminação contra médicos cubanos. Até de “escravos” os doutores cubanos foram chamados, por moças e rapazes médicos e estudantes de medicina brancos e como eles certamente se definiriam “de boa aparência”. O horror foi em Fortaleza, Ceará.

O site “UOL” reproduziu uma imagem de Facebook em que uma jornalista, Micheline Borges, escreve com o português seguinte o que se segue: “Me perdoem se for preconceito, mas essas medicas cubanas tem uma Cara de empregada domestica. Será que São medicas Mesmo? Afe que terrível. Medico geralmente tem postura, tem cara de medico, se impõe a partir da aparência… Coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? E febre amarela? Deus proteja O nosso povo”.

O grande problema do preconceito não é o que se fala, é o que se finge. Não é o que aparece, é o que se disfarça. Talvez a moça aí, com cara de patricinha, recebesse milhares de curtidas no Facebook se a imprensa não a denunciasse e ela rapidamente não suspendesse sua conta na rede social. Mas ela não é nem a ponta do iceberg, é o passarinho que pousa nessa ponta. Não adianta se querer negar. Muito do Brasil pensa exatamente como ela.

O que houve em Fortaleza, esta semana, na recepção dos médicos cubanos, com inúmeros médicos brasileiros xingando, não agredindo fisicamente porque felizmente alguém de Brasília incumbiu o Exército de fazer a segurança dos estrangeiros é, ainda, uma fotografia genuína nossa. O filósofo já disse: os monstros somos nós.

Quais são as raízes do preconceito? Uma resposta mais simples se situa na educação. Ou na falta dela. Um dos lados mais perversos do consumismo é a crise que se estabelece na junção entre a ausência de uma educação de base com a ausência de ética, também de base.

A educação concede gentileza e humildade ao agente. Educação não é chamar qualquer um de “senhor”, essa tralha mental formalista oca que não presta para nada. Educar é ensinar a relativização da humildade, a inserção da pessoa no mundo e o bom convívio com o outro. É se ter “medo” de cruzar a fronteiro do certo/errado. É se ter “vergonha” social pelo que efetivamente é ruim. Se a criança é ensinada que pode tudo, merece tudo e precisa ter tudo desde que chore, será um adulto quebradiço para desafios. Ofenderá para desqualificar o outro, em vez de disputar validamente.

Já a ética deturpada pelo consumo traz o tempo corroído pela pressa. Quero tudo hoje, já, agora. Não dou direito ao outro de provar se é competente ou não, desqualifico-o previamente. De preferência ofendendo-o. Tudo na minha zona de conforto: no coletivo, com meus pares e no meu quintal. Assim agiram os médicos de Fortaleza. Com esta covardia coletiva e xenófoba. Não apenas numérica, mas ideológica: estavam no seu quintal Brasil, xingando o estrangeiro, negro, de uma país pobre, de “escravo”. Mas anote-se, um negro altivo que mesmo agredido soube responder educadamente.

Os ofensores de plantão ou protesto burguês, ouviram uma resposta nobre dos médicos cubanos: em nosso país a medicina é gratuita. Mas a nobreza social não lhes comove. Certamente foram educados nos tais “melhores colégios”, ou seja, caros, consumistas e mimados. E a prova se viu nas cenas de brutalidade social.

O episódio de Fortaleza conseguiu envergonhar todo um país. A essa altura já correu mundo. Como se não bastasse, surge em paralelo um ser de Facebook chamado Micheline Borges com aquela verborragia mental. Disseram-na jornalista. Talvez seja dessas “formadas” em jornalismo que brigam pela obrigatoriedade do diploma para “qualificar” o jornalismo, mas têm dificuldades com proparoxítonos. Ou com humildade.

A moça do Facebook destilou o que de pior há nas relações humanas. A percepção do outro pela “cara, aparência e postura”. Por outro lado, é o mecanismo usual na “rede social”. Muito social.

No tempo presente parece que temos vivido apenas isso, e o risco é virar clichê. Torcidas organizadas de futebol tendo que ser impedidas de assassinar. Namorados insatisfeitos matando companheiras. Filhos assassinando pais. E os preconceituosos que não têm coragem de matar, elevam seu discurso ao homicídio verbal: falam seus horrores portáteis.

O pior para uma sociedade não é a ocorrência avulsa desses episódios, mas a obsolescência do espantar-se. Só esta obsolescência pode permitir a multiplicação do preconceito. E no caso do Brasil parece que a vontade é bem grande. OBSERVATÓRIO GERAL.

 

[Artigo republicado nos jornais O DIA SP”,  O ANÁPOLIS, GO, e no site Brasil 247 – Jean Menezes de Aguiar.]

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