“Operação Pega Safado”- fazendo o que a polícia/MP deveriam fazer

lucio-big“O poder público brasileiro é corrupto em todas as suas esferas.” Este é o pano de fundo de Lúcio Big na entrevista exclusiva ao OBSERVATÓRIO GERAL. Criador da OPS, “Operação Pega Safado”, com apenas uma câmera de filmar, inteligência e criatividade este comerciante e ativista da cidadania reuniu grande material investigativo. Coisa que nem a polícia nem o Ministério Público conseguiram. Protocolou no Tribunal de Contas da União um pedido de providências contra vinte parlamentares federais por desvio de verbas públicas. Seria o caso de se perguntar: por que um número tão insignificante, vinte, perante a realidade brasileira? Lúcio poderia responder que atua sozinho. Mas não é o caso. Big criou uma rede de fiscais que o ajudam a coletar dados. A esperança então é o número de vinte ser multiplicado por dezenas. No caso da denúncia no TCU, o ministro relator Walton Alencar Rodrigues já determinou diligências para apuração dos fatos e deve imaginar que com Big não pode brincar. A OPS vem dando certo e produzindo filhotes e adeptos pelo país. O OBSERVATÓRIO GERAL reproduziu matéria do site “Congresso em Foco” (https://observatoriogeral.com/2013/09/15/uma-camera-na-mao-e-uma-ideia-fixa-pegar-safado/). Agora traz um entrevista exclusiva com Big em que sua visão de mundo é contada para os admiradores e público em geral. Confira.

OBSERVATÓRIO GERAL – você teve ótima repercussão na mídia pelo seu projeto um tanto quanto autoral e visceral, algo como “pegar safado”, o que o transformou, em certa medida, numa espécie de queridinho dos movimentos e mesmo da imprensa. Como observador atento, qual é a sua visão da corrupção no poder público brasileiro?

Lúcio Big – O poder público brasileiro é corrupto em todas as suas esferas. Não há qualquer órgão imune a este mal. Mas o que ocorre no poder público nada mais é do que o reflexo da cultura do povo brasileiro. Nós somos levados a corromper e a sermos corrompidos desde pequenos, desde “colar” na prova, por exemplo. Nós jamais estaremos livres da corrupção, mas podemos minimizar o seu raio de ação e a sua freqüência. Para isso é necessário criar a cultura de fiscalizar o poder público e externar tudo aquilo que for encontrado de errado, como fiz na OPS – Operação Pega Safado. Deixe um celular no banco da praça. Em segundos ele será levado. Mas experimente deixar o mesmo celular no mesmo banco da praça, mas com pessoas o vigiando. Ele não será roubado tão facilmente. Esta é a função do “eu, fiscal”.

OBSERVATÓRIO GERAL – você que é engajado em movimentos populares de combate à corrupção, como viu o Junho 2013? Foi um porre de cidadania ou as manifestações estão latentes e serão retomadas a qualquer momento?

Lúcio Big – Eu me surpreendi com a dimensão que os protestos tomaram naquele mês. É certo que houve um porre de cidadania e que as coisas agora se aquietaram novamente. Mas os corruptos de plantão não devem se tranquilizar. O povo é como a brasa escondida naquela fogueira de ontem. Basta um gravetinho e um assopro para que a fogueira se acenda novamente.

OBSERVATÓRIO GERAL – a sua autodenominada “inconoclastia incendiária” passa por uma pauta anárquica, terrorista ou meramente transgressiva em que a palavra incendiária represente um certo radicalismo? Você acredita que contra certas estruturas sabidamente podres há que se ser incendiário ou no mínimo radical?

Lúcio Big – Eu não me vejo anárquico ou terrorista, mas transgressor às leis obscuras daqueles que insistem em fazer do que é público, um bem privado. Há de se radicalizar e até incendiar a estrutura corrupta e corruptiva da máquina estatal. Não deve haver espaço para a libertinagem feita com o dinheiro público.

OBSERVATÓRIO GERAL – Como está Brasília? O cinismo triunfou e se estabeleceu como teoria ou cultura, ou ainda há remédio social para a corrupção? Os movimentos e resistências cumprem um protocolo de cidadania ou conseguem efetivamente impactar ou amedrontar os corruptos?

Lúcio Big – Brasília descansa em paz até que um novo “junho/2013” apareça, mas eu não vejo que exista um retorno possível para aquilo que se iniciou em 2011 quando as redes sociais permitiram a união de milhares de pessoas pelo país em torno de ações no combate à corrupção. O processo se iniciou e o fim se dará quando toda essa corja que hoje toma conta da política brasileira e todos os demais que só estão esperando uma oportunidade para abocanhar a sua fatia tenham ido desta para uma melhor. Os movimentos sociais estão minando a área de conforto dos corruptos e eles sabem que esta é uma viagem só de ida e que daqui a alguns anos, todos estes escândalos diários que vivenciamos hoje em dia serão nada além do que páginas de um livro de história. Acabar com a corrupção só quando o planeta Terra entrar em extinção, mas minimizar o raio de ação e a frequência, eu não tenho dúvidas de que é possível com os movimentos e com ações de fiscalização como as da O.P.S.

OBSERVATÓRIO GERAL – o seu método de ação que você deu o nome de Operação Pega Safado, OPS, é algo que pode ou deve ser feito por qualquer um?

Lúcio Big – A grande sacada da operação é justamente esta. Mostrar aos brasileiros que qualquer um que queira e que tenha acesso à internet pode “e deve” ser um fiscal. As informações estão disponibilizadas aos montes na internet e aquelas que não estão, poderão ser encontradas através de uma simples solicitação ao órgão que as detém. Ser fiscal, cobrar, disseminar informações incongruentes nas redes sociais e ainda, denunciar aos órgãos competentes os indícios de “mau uso do dinheiro público” é um ato de cidadania sem precedentes.

OBSERVATÓRIO GERAL – Na sua avaliação as instâncias oficiais de persecução e descoberta  de ilícitos – polícias, Ministério Público, corregedorias, tribunais de contas etc., com a Constituição de 1988 conseguiram reduzir o nível de corrupção ou foram parte integrante do processo cultural de corrupção que assola o serviço público brasileiro?

Lúcio Big – Até mesmo nestas instâncias há corrupção, mas eu creio que as ações, principalmente da Polícia Federal e do Ministério Público, impuseram certo limite a alguns grupos de corruptos pelo país. É claro que eles não resolvem o problema sozinhos, mas formam um tijolinho a mais na construção de uma nova cultura, a cultura do “meu é meu e o seu é seu”.

OG.

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2 respostas

  1. Eu concordo com Lucio Big qdo ele fala que a própria população também é corrupta, é uma verdade que não queremos aceitar. A nossa culpa em todo esse processo do nosso país está em nos calarmos a compactuarmos com tudo que tem acontecido, votando mesmo assim para as mesmas pessoas.

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