Passeata, ok, e depois?

passeata

 

Muito mais ‘legítimo’, se é que cabe comparação, do que a passeata-impeachment do dia 15 de março de 2015, foi o conjunto de manifestações de Junho-2013.

Praticamente todos os observadores e analistas políticos aderiram já na primeira hora ao que parecia ser uma espetacular tomada de consciência do povo brasileiro.

Naquele junho, os primeiros momentos foram totalmente de festa cívica por parte da sociedade que foi para as ruas com seus filhos e crianças. Mas também, registre-se, por parte de um obtuso governo paulista, a primeira reação inicial foi de pancadaria oficial militarizada. Percebida a mancada, veio uma segunda ordem de a PM não fazer nada e cruzar os braços, outra coisa estapafúrdia, só vindo a atuar de novo quando começaram os blac blocks.

Há um déficit imenso de ‘ruas’ pelo povo brasileiro; este povo-gado-mando que não protesta por nada aqui. Num dezembro passado não distante, por exemplo, perto do Natal, deputados aumentaram seus salários em safados 67%. Havia ali um motivo claro para uma reação àquela esbórnia remunerativa. Mas o país não fez nada, zero. Não dá para confiar muito numa ‘sociedade’ que parece gostar de ser manipulada.

Agora vem a passeata-pau-de-selfie, a que pede um esdrúxulo impeachment da presidente da república. Até o jurista Miguel Reale Júnior que outro dia num artigo ‘exigiu’ a renúncia já de um monte de gente, inclusive Dilma, afirmou expressamente que só se pode falar em impeachment no período do mandato atual de Dilma. Ou seja, de janeiro a março de 2015 e neste período não há fato concreto para impedimento da presidente.

Mas essas coisas mais jurídicas não interessam quando o mote é ódio. O ex-ministro Bresser Pereira fundamentou que muitos das classes altas nutrem verdadeiro ódio ao PT. Aí está uma grande causa. Bresser, mesmo sendo um dos pais do liberalismo foi extremamente lúcido em sua análise e merece ser lido seriamente.

A passeata-impeachment está em xeque. O parecer de Ives Gandra que tanto serviu de muleta jurídica a apressados que supunham poder se falar em impeachment, foi contestado no site Consultor Jurídico por 3 juristas de peso. Depois, sem querer, por Reale Júnior. Políticos até da oposição têm dito que não há qualquer caso para se pensar em impeachment. Mas parece que nada disso presta para apagar intolerâncias.

O que fazer? Só aguardar e esperar que, infelizmente, a sociedade brasileira volte para seu lugar de sempre: em frente à TV assistindo BBB, Faustão e novela. E mexendo, sôfrega, no celular. Longe das bibliotecas, dos museus, livros etc.

As manifestações de rua começam a ter um padrão, parecem greve de professores em universidades federais, a cada dois anos. Só que a cidadania exige uma atuação incomparavelmente mais presente. Mas isso a história mostra que não vamos ter. Para nosso próprio prejuízo e tragédia.

A passeata-festa, do impeachment, pelo que se ouviu falar, está mais para uma parada gay da cidadania, pela alegria anunciada, do que qualquer outra coisa. Só que aqui haverá o destilar de ódio. Mas mesmo o ódio em um dia só não serve para consertar a omissão de toda uma sociedade por décadas. OBSERVATÓRIO GERAL

 

[Matéria republicada no BRASIL 247]

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