Eu selfo, tu selfas: selfie, #aftersex e outras tralhas

 

aftersex

Escrever sobre o fútil é futilidade, diria o não fútil. Perder tempo em criticar o fútil também é lá meio ocioso. Mas o fútil nos pertence. Pertence à humanidade, principalmente nesta época que poderia ser chamada de pós-fútil. Quem diria, agora as invenções não visam mais a durar por longo tempo, mas precisam ser concebidas para quebrar. Tudo tem que passar em curtíssimos espaços de tempo.

É a era da substituição do pensar; da fragilidade das vontades; e mesmo da mera brincadeira de amar. Sim, parece, nas redes sociais, que não se ama mais. Só se finge. O fingir deixou de ser feio, deixou de ser vergonhoso. Finge-se que o cabelo está despenteado, finge-se que a calça jeans rasgou. Ou o rato roeu, vai saber. A afetação no padrão ético da sociedade que aceita o fingimento é mais que direta. É a grande aceitação da mentira. Final dos tempos? Não. Apenas início de um tempo com mentira, vamos combinar.

É interessante quando a sociedade consegue normalizar o absurdo, o esdrúxulo, o ridículo. Antropólogos diriam que isto não é nada de mais. Pertence à cultura. O ‘absurdo’ é um mero juízo de valor de cada um. Tudo bem. Enquanto estes traços culturais puderem ser apelidados de ‘gosto’, não se discute. Pode-se no máximo lamentar.

A mania de se fotografar, o autorretrato em celular – já arranjaram um nome para o troço, claro, em inglês, selfie-, ganhou mundo. Ninguém menos que o síndico do mundo, Barack Obama foi flagrado todo serelepe fazendo selfie com a (sirigaita?) primeira-ministra da Holanda. A louraça Helle Thorning-Schmidt. Tudo sob olhar ciumentíssimo de Michelle Obama. A cena correu mundo. A paquera disfarçada de ‘apenas-uma-foto-alegre’ se deu no enterro de Nelson Mandela. Ou seja, nem enterro mais se respeita. Por outro lado, essa coisa de ‘respeito’ também já deu o que tinha que dar. Todo mundo só quer ‘selfar’. Eu selfo, tu selfas, ele selfa. É a maior selfagem.

Mas a coisa evoluiu. O selfar chegou ao sexo. Previsível. Rapidamente já conseguiram um nome para o negócio. Também em inglês: aftersex. É a legenda com hashtag (#) para se colocar no Instagram. A legenda – #hashtag quer dizer que o autorretrato do casal, feito ainda na cama, no celeiro, no banco de trás do carro, no lavabo da festa da casa do avô, não importa onde, indica que aquele casal acabou de transar. Isto mesmo.

Será que vão inventar o ‘#aftermasturbation’? Já que o negócio é se mostrar, certamente haverá quem queira mostrar a sua solidão sexual-manual. Ou digital, no caso das moças. Gosto para tudo há.

Se o Selfie podia ser entendido como um desejo natural da vaidade de apenas se ver ou se mostrar em uma determinada pose, é algo estático e pontual, um momento, quase que um espelho portátil, o aftersex contém um discurso. Sim, há ali uma intenção exibicionista bem complexa. É a vontade de dizer ao mundo: eu sou sexualmente ativo; eu sou competente por ter alguém; eu sou potente e viril; ou eu ‘já’ transo, no caso de ‘crianças’. Poderá também servir de recado para comborços, rivais, sirigaitas e congêneres, algo do tipo: nós continuamos juntos, estamos muito bem obrigado e transando – você que dê o fora.

Esta ‘satisfação’ social de contar ao mundo a prática do sexo é que parece ser nova. Já foi o tempo das 4 paredes. Agora são mil paredes, a coisa é para ser praticamente ao ar livre, ou melhor, na internet. O sexo qualquer um e todos indistintamente praticam e podem praticar. Desde que o mundo é mundo. É bom e faz bem à saúde. Mas como a ele também se carreiam preconceitos e pudores, em certos casos, a prática do aftersex ‘pretende’ transgredir. O negócio é saber se consegue.

Um sentido que mais se ligaria à prática talvez fosse o ‘consumismo’. Essa sôfrega prática celularoide de pessoas solitárias andarem pelas ruas com a cara enfiada no visor do telefone buscando não sabem bem o quê. Creem que ali está a felicidade, o diálogo, a relação de amizade verdadeira. Mas quando estão ao vivo num restaurante continuam hipnotizadas pelo visor do celular. É o neoegoísmo, a conversa intimista que exclui presentes.

Neste contexto em que se misturam egoísmo, exibicionismo e consumismo, efeitos tão primários da vida humana, o que não há é transgressão social. Não se transgride para um em-si, ou um para-si, como diria Sartre. Esta endogenia existencial é um nada. Não desafia teóricos ou pensadores a um estudo.

A prática ou invenção do aftersex até poderia ser algo que chamasse atenção, enquanto ‘sacada’ de algum internauta. Ou ‘celulauta’. Por 15 minutos. Como foi, por exemplo, o “rolezinho”, que causou tanto faniquito na imprensa e ninguém mais fala nele.

Numa comparação odiosa, os hippies tinham a seu favor a simplicidade, o não luxo, o não chique, a paz e o amor. Eles não queriam ser ‘mais’, não queriam ser ‘over’. Queriam ser ‘menos’. Aí, precisamente aí estava alguma beleza, na simplicidade dos modos e de uma sociedade amistal.

Já esta ‘sociedade’ do aftersex não prima por uma humildade social. Há um desejo de exibição. Só que pela via da potência: a prática do sexo. Mas, ora, quem não faz sexo, principalmente em época de Viagra?

Daqui a pouco haverá também o aftersex fake. Casais mentirão sobre estar transando, quando tudo é uma armação. Parece que a prática é mais uma fadada a um modismo do mês.

Seja o que for, buscar a psicanálise da prática é o que vai parecer mais ocioso. Cada um que exiba o que quiser, onde quiser e com quem quiser. O importante é o que parece estar mais raro nesta sociedade: cada um ser feliz. OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo para os jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS, GO]

 

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Categorias:Ruas & Internet

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1 resposta

  1. “É o neoegoísmo, a conversa intimista que exclui presentes.”
    Para mim, essa é a melhor frase do texto.

    Excelente artigo!

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