Povo nas ruas é conservadorismo ou vanguarda?

elio gaspari

Estabeleceu-se interessante diálogo na imprensa com artigo do jornalista Elio Gaspari intitulado “Em 2014,  ‘vem pra rua você também!'” (Folha de SP). O Brasil 247 abriu manchete “Por que Elio Gaspari convocou as ruas em 2014?”. O site Carta Maior, por seu misterioso Saul Leblon, nome fantasia de alguém, teceu comentários históricos de Gaspari, enviesando-o à época da obtenção dos documentos que compuseram sua estupenda série de livros sobre a história da ditadura, para concluir ser o chamado que parafraseia a Caixa, “Vem pra rua você também”, um chamado da direita, grosso modo.

Será?

Parece haver no jornalismo brasileiro uma certa disputa por quem é mais “purista”, no sentido de mais esquerda roxa. Uma cabeça da extrema esquerda, panfletária ou não, radical ou não, fundamentalista ou não, considera como da direita quem for um esquerdista não radical. Mas esta é uma visão totalmente equivocada. Não para aí. Como parte do público tem certa predileção por sangue, as teses extremadas às vezes fazem muito sucesso. (A esta hora alguns já estão me chamando de reacionário).

O povo nas ruas, movimento recente conhecido no Brasil por “Junho-2013” autoriza diversas leituras. Uma, de cidadania legítima, das massas, como se dá na Europa. Outra, da violência black-bloquiana que se estabeleceu aqui, deplorável. Uma terceira, de revolta que seria específica contra o PT, governo atual, parecendo também bastante equivocada – Dilma vai muito bem obrigada, diria ela. Uma quarta, como explosão de insatisfações históricas acumuladas por décadas, que se relaciona com a primeira; como por exemplo a histórica corrupção curralista e coronelista sabidamente vergonhosa de senadores e deputados, o sistema pífio de atendimento ao povo, a má educação, os transportes indecentes e muitos et cetera.

Tem interpretação para todos os gostos. Petistas sensibilizados pensaram que Junho-2013 fosse contra a Dilma. Outros leram que era uma revolta à histórica corrupção do Brasil. Já peessedebistas roxos tentaram construir que, sim, era contra Dilma. Por seu turno, estudiosos em geral, da direita e da esquerda aplaudiram a ida das massas às ruas. Assim, é muito difícil a paternidade ideológica de o que “quis ser” o Junho-2013, ou mesmo o que tenha sido o conjunto da obra.

Há alguns indicativos. Se Dilma está bem e sua reeleição é confirmada em pesquisas, parece óbvio que o Junho-13 não tenha sido contra ela. Ainda, há que se reparar que as manifestações em Brasília mais violentas pouparam o Executivo e se centraram no Legislativo, Poder historicamente mais apodrecido por corrupção quase que secular.

O artigo em si, de Elio Gaspari, não denota qualquer nódoa reacionária, como as que podem ser percebidas nas figuras que, historicamente defendem liberalismos capitalistas viciosos e contaminados. É interessante notar que o Brasil 247 não emitiu juízo de valor como fê-lo a Carta Capital. Pelo menos expressamente. É claro que o simples noticiar em si traz todo um discurso crítico subjacente. Mas talvez a Carta, excelente veículo de resistência à direita, tenha dado uma pernada.

Convocar todo mundo para a rua em 2014 pode não ter a ocultíssima conspiração contra Dilma que alguns supuseram. O exemplo da peruca ou implante de Renan Calheiros utilizado por Gaspari parece ser um demonstrativo cabal de pressão positiva das ruas: Renan só devolverá a grana do voo da cabeleira após ter havido uma grita popular.

As ruas são um direito social dos melhores, agora em tempos de Facebook. Particularmente, adiro à volta das ruas, declarando, expressamente e, para que fique bem claro, que por motivos históricos ligados à corrupção nos Poderes, à festa dos salários mentirosos de qualquer um por aí arrombando o teto constitucional e safando por mês 40, 60 mil reais, às indecências estatais com licitações, contratos escusos que permeiam o país há 50 anos, por baixo.

Num país que reclama do mensalão tucano que não consegue nem iniciar este inquérito policial; com alguns próceres da direita histórica que conseguiram morrer em paz, um inclusive com herança de bilhão de reais e outro que só muito depois da morte estourou o escândalo do metrô de SP, e um terceiro com dinheiro na Suíça, sabendo-se que “agora” ri da hipótese cadeia, e ainda aparecendo na TV dizendo que somente ele fez por São Paulo, não ter o povo nas ruas é uma censura social do agir, da presença, da exigência do direito de ser cidadão.

Jacques Ellul, filósofo francês dizia: não critico a direita, somente a esquerda com quem tenho laços e afinidades; a direita eu ignoro. A esquerda brasileira precisa parar com fogo amigo. Há muita gente maléfica e reacionária que precisa ser combatida, no outro lado. Inclusive no jornalismo. Não ser radical, não é ser da direita, ou ser reacionário.

Jean Menezes de Aguiar/OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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1 resposta

  1. O PT manteve o liberalismo estabelecido nas políticas de direita dos governos anteriores. Não queriam criar qualquer confronto com as políticas capitalistas e por isso adotaram os parâmetros da política econômica anterior.
    A falta de existência de um controle efetivo das contas públicas e das “contas” de pessoas ligadas às obras públicas (e não só) leva à corrupção.
    Falta de controle sobre fortunas em dinheiro e patrimônio também leva à corrupção.
    “A corrupção é a ladra do desenvolvimento social e econômico, roubando oportunidades de pessoas comuns de progredir e prosperar”.

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