Rodrigo Martiniano Tardeli desanca o presente: de arquitetura a “Funk ostentação”

bachEm artigo exclusivo para o OG, disparando sua metralhadora giratória de crítica, o intelectual e professor acerta diversos alvos. O primeiro é a pasmaceira social em que a ditadura do relativismo força a aceitação do lixo cultural como mero “gosto pessoal”. Ou pior: tenta negar que haja lixos. O texto aborda a elite cultural esquerdista nivelando por baixo; a arquitetura e seus arquitetos da mesmice em que cidades apenas se enfeiam; saberes menosprezados por um mundo corporativo estúpido e seus estúpidos; e um presente esteticamente insosso. Não se trata de pessimismo burocrático de pensador, mas de um olhar agudo e fino, necessário à compreensão da atualidade. Ou à sua melhora. OBSERVATÓRIO GERAL.

 

Bach x “Funk ostentação” – quando o presente piorou

“Quando secam os oásis utópicos, estende-se um deserto de banalidade e perplexidades.” Habermas

Existe, de fato, uma velocidade desconcertante que faz com que todas as ideias desapareçam e caiam no esquecimento, mesmo antes de terem a chance de amadurecer e envelhecer de forma adequada.

Essas ideias, que, em suma, são a cultura de um povo, diante da constatação acima, se nos apresentam de forma relativa e volátil.

Talvez, por isso, se diga que a cultura na pós-modernidade, não seja uma cultura, mas culturas, e que os velhos padrões e paradigmas estão todos caducos e obsoletos.

Afinal, sendo a cultura um aspecto da realidade social – um dos muitos “fatos sociais” que devam ser adequadamente apreendidos, descritos e representados – apresenta-se sempre mutável, o que acaba gerando, mesmo fora dos altos muros da Academia, um sem número de perplexidades.

A maior delas, e que definitivamente prova que a cultura em seu sentido amplo atravessa uma severa crise, é a intenção da rebaixada “elite” intelectual esquerdista de se nivelar às manifestações culturais, sempre por baixo.

A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, esse fenômeno será percebido em todos os níveis de saberes da sociedade.

Afinal, somente nos sombrios dias de hoje, é possível encontrar numa mesma classificação o glorioso maestro Bach e um estilo chamado “funk ostentação”!

Mas, o que aproximaria “A Paixão segundo São Mateus”, de Bach, das batidas hediondas do funk? Certo é que ambos são manifestações culturais, ambos estão inseridos num contexto histórico e sociológico definidos, ambos representam uma ideologia.

E o que faria de uma obra um clássico universal e eterno e de outra o mais absoluto lixo? Seria o gosto do ouvinte?

Nos dias que se seguem, está cada vez mais comum o uso do argumento estúpido e vulgar de que “gosto, igual às intimidades, cada um tem o seu”. Não posso discordar. Mas o que não se pode esquecer nunca, jamais mesmo, é que, apesar das apreciações pessoais e subjetivas, a humanidade já chega a códices e padrões que valoram o gosto como bom ou mau.

Então, apesar de cada um ter um gosto, este será sempre classificado diante de um sistemas de valores positivos ou negativos.

Creio ser desnecessário explicar, então, porque a obra de Bach citada é considerada a melhor e mais perfeita obre musical composta pelo homem.

Dei um exemplo musical, mas posso trazer a discussão para mais perto, para que todos os que tiveram parte de sua educação no século passado, vejam-se numa espécie de espelho da autorreflexão.

Quem não se lembra de ter conhecido o sentimento de frustração quando, na escola, a disciplina a ser ensinada parecia coisa morta, amontoado de fatos totalmente desinteressantes, que não faziam nenhuma relação com a vida real?

Frequentemente, aqueles que tiveram essas experiências, nos tempos da escola, descobrem a riqueza da cultura muito mais tarde e passam por um verdadeiro despertar. Isto vejo diariamente nos meus dez anos de magistério no Ensino Superior.

O estudo da História, como um elixir mental, desperta a consciência.

A Literatura acaba se transformando numa forma de magia.

A Filosofia possibilita a explosão de supernovas mentais, onde antes só havia aridez.

E essas descobertas todas emocionam porque a velha justificativa “o mercado não se interessa por isso” ou “ah, isso não dá dinheiro” passa a não bastar para conformar a própria estupidez.

Foi essa noção mercadológica absurdamente distorcida e combatida por ideologias tão perniciosas quanto ela mesma a grande responsável pela crise da educação e da cultura.

Uma última reflexão, numa área que muitíssimo me incomoda – a Arquitetura -: as construções sublimes estão sendo totalmente substituídas por caixotes de concreto, ditos mais funcionais. Quanta falácia! A mentira, também justificada pelos velhos argumentos de mercado só serve para encobrir a incapacidade dos profissionais de ir além do ângulo reto. A beleza foi sacrificada. Residências foram trocadas por pombais insípidos e recuso-me, terminantemente, a aceitar o argumento dos custos. O que se vende é a falta de dedicação, a falta de profissionalismo, a preguiça de se dedicar a montar projetos realmente belos. Preguiça e burrice sempre andaram de mãos dadas, desde o alvorecer da História.

Na minha Muzambinho da infância, percorria suas ruas, extasiado com tanta coisa bonita. Hoje, passear pelas ruas da minha cidade natal é acintoso.

O Palacete “Dr. Joaquim Bernardes da Silva Costa”, hoje em ruínas; o Solar da Família Carnevali, um caixote horroroso; o casarão dos Anderson, embora com as formas preservadas, transformado em duas casas; o casarão de João Adolfo Martiniano, com sete quartos de dormir, hoje, demolido. Das mais de vinte casas históricas, devem estar em pé, umas cinco. E minha cidade, sempre minúscula, fica cada dia mais feia.

O intelectual italiano Umberto Eco escreveu “O moderno é ler Platão”. Platão viveu quatro séculos antes de Cristo. Será que o moderno deve ser sempre árido, simples, reto, estéril? Ou podemos buscar, individualmente, um renascimento cultural pela beleza, pela música, pela literatura, pela filosofia?

Um filósofo francês disse que a “filosofia é a arte de reaprender a ver o mundo”. Só quem percebe que este mundo está todo errado e equivocado, terá o estímulo necessário para operar mudanças. Em que níveis forem.

Rodrigo TardeliRodrigo Martiniano Tardeli.

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1 resposta

  1. Excelente! É uma honra ter sido aluno de uma figura tão edificante. Parabéns, Tardeli!

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