O Maranhão e a rainha da lagosta

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Uma ou duas vezes por ano vou a São Luis, a trabalho, há mais de uma década. O maranhense recebe bem. Não há do que reclamar. Mas é fato que o estado é um dos campeões históricos de problemas com governança e mazelas administrativas. Aquele povo não merecia isto. Conta-se lá, por exemplo, que é o Judiciário mais antigo do Brasil e até poucos anos atrás não houve um único concurso público. Tudo nomeação. Lições podem ser tiradas daí. Estados da federação que parecem ter donos.

Três aspectos são percebidos como traços culturais nesses estados assim. Coronelismo, curralismo e patrimonialismo. Sempre pergunto a taxistas se os conhecidos “caciques”, em cada estado desses, ainda mandam. Praticamente sou zombado. – Oxe! – Oxente! – Mas que pergunta! São as respostas mais comuns. Há um sentimento atávico de orgulho e continuísmo invencível para muitos. Mesmo ciente das mazelas.

O problema é que atrás deste caldo cultural há, historicamente, ataques patrimonialistas ferrenhos, como narram historiadores e a imprensa. Fortunas unifamiliares de bilhões de reais foram formadas no Brasil da impunidade dos últimos 50 anos. E continuam a ser. Este aspecto parece encontrar quietude num povo sofrido e habituado a esperar apenas pela providência. Divina.

Mas o caldo entornou para o Maranhão. A ONU interveio. Credora de cidadania e dignidade exige soluções para a violência e não apenas bravatas, frases de efeito e promessas nominais.  Sessenta mortes no sistema prisional e filmagem de decapitação. É um Maranhão que o Brasil não quer. O próprio Maranhão não quer. A gota d’água parece ter sido a morte da menina Ana Clara, incendiada num ônibus.

Em vídeo divulgado, ante a iminente possibilidade de intervenção federal no estado, a governadora Roseana Sarney afirma que está “revoltada”. Mas ao blog Marrapá, declarou: “Eu não sou diferente de nenhuma mulher. Eu gosto de cozinhar, eu gosto de ser dona de casa, eu gosto de botar um arranjo de flor. Não gosto de quando fico mais gorda. Tudo isso é preocupação de mulher normal. Eu sou uma mulher normal como outra qualquer.”

Em meio à crise, então, aparece o cardápio da governadora a ser comprado oficialmente. Claro, bancado pelo dinheiro público: 80 Kg de lagosta, 1,5 tonelada de camarão gigante, 750 quilos de patinha de caranguejo e uma infinidade de mimos gastronômicos. Parece ser quem nunca viu melado se lambuzando. Ou um provincianismo consumista deslumbrado a la Miami. Mas sabe-se que não é o caso. O livro “Honoráveis bandidos – um retrato do Brasil na era Sarney”, do jornalista Palmério Dória, Geração Editorial, 1a edição 2009, 207 páginas, mostra uma realidade de riqueza abocanhada surreal.

A crise no estado era esperada. Irrompeu agora apenas a ponta de um iceberg. Administração relapsa, nepotismo, incompetência, corrupção e ataque ao dinheiro público são o mínimo que se lê em toda a imprensa por décadas, imputados a Sarney e turma. Ao mesmo tempo que incólumes, intocáveis. Contra eles simplesmente não existem Ministério Público, Poder Judiciário, Receita Federal e polícia.

O parágrafo acima pode ser uma pífia síntese do livro de Palmério Dória. Os relatos ali são a essência do absurdo, enquanto pessoas eleitas, nomeadas, catapultadas e enfiadas no setor público. Tudo legitimado por uma estranha prenhez de voto parido em currais eleitorais dominados para locupletação de dinheiro público. Talvez por tantas verdades inconvenientes, o livro não tenha podido ser lançado em São Luis. Deu-se um quebra-quebra patético, assistível no Youtube.

A responsabilidade do clã é proporcional à popularização do nome em uso oficial. Com a palavra “Sarney” há 1 Maternidade, 4 vilas, 3 escolas públicas, 1 biblioteca, 1 tribunal de contas, 1 ponte, 5 avenidas, 6 ruas, 1 rodoviária, 1 fórum, 1 sala de imprensa, 1 sala de defensoria pública. Isso apenas as “homenagens”. Mas repare, homenagem a pessoas vivas. Palmério Doria afirma: “Nem Tiradentes, mártir da Inconfidência e Heroi Nacional, recebe tanta honraria. E está morto. Eles estão muito vivos.”

A intervenção federal no Maranhão é uma realidade, ou uma premência. O problema é saber se há coragem para uma decisão dessas, contra o governo da “Princesinha do Calhau”, apelido de Roseana. Talvez agora a “Rainha da Lagosta”.

Pelo curso da história, proximidade do Carnaval, ano de Copa e eleição, pode ser que isso tudo seja apenas mais uma marola. Roseana se safe incólume sem um único arranhão.

A responsabilidade por presos é tipicamente do estado. Alegar que o sistema carcerário do país tem deficiências e por isso pode-se ter chegado à calamidade pública que se chegou o Maranhão, é argumento cínico e falacioso.

Antes de se querer encontrar culpados, dever-se-ia atender aos aflitos e desesperados daquele sistema, inclusive familiares de detentos e o povo em geral. Mas o sistema deficitário de atendimento no estado não é um fato novo, é inercial.

A ONU não está a exigir soluções pontuais de alegre. Os juízes nomeados pelo CNJ reclamaram intervenção federal em seu relatório, afirmando que o governo estadual perdeu a condição de controlar a onda de violência. Talvez o meio século de família Sarney no estado precisasse chegar ao fim. Mas para isso o povo precisa se manifestar. Jean Menezes de Aguiar/OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo republicado no BRASIL 247 e nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS, GO/próxima semana]

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