Intelectualidade e estudo versus vida sem livros e outras opções toscas

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Escritório de trabalho do geógrafo Milton Santos

 

Intelectual, estudioso, cientista, pensador, sábio, conhecedor, genial. Provavelmente entre todas estas categorias ou tipos humanos haja um instrumento, uma coisa atualmente fora de moda chamada ‘livro’. Não que o livro gere tudo, resolva tudo. Mas é o início mais óbvio – e muito mais do que o início- para o conhecimento.

O livro não é o detentor com exclusividade do conhecimento, muito menos de o que se convencionou chamar de ‘intelectualidade’. Mas por ele certamente passa a esmagadora maioria do conhecimento existente no mundo. Em todas as áreas.

Pelo livro se compara, se autoeduca, se corrige, se aprende, se treina, se aperfeiçoa, se grava, se confirma e se transforma. Tudo isso com segurança e sabedoria própria de um livro. Quando um autor resolve publicar um livro ele cuida meticulosamente das opiniões, dos pareceres, das afirmações, dos ensinamentos. É fácil para ele pesquisar e ratificar o que vai deixar eternizado no texto. Não é uma conversa vaidosa, uma conversa de botequim, um conselho autoritário. O autor se expõe pessoalmente, por isso tem todo o cuidado com o texto. Não quer escrever besteira. Esta é a grande regra.

Já a opinião dada numa conversa informal costuma ter bem menos reflexão, cuidado e aprofundamento. Tanto em sua elaboração quanto em sua recepção. Por isso o livro como fonte de saber é infinitamente mais seguro.

As ideias no livro podem ser relidas, refutadas, confirmadas. Já na chamada ‘escola da vida’, que não quer dizer muita coisa, a não ser para malandros que buscam transformar o mero viver numa ilha de excelência e sapiência humana, os ensinamentos são muito mais frágeis.

Uma vida sem livros é uma opção que muitos vêm fazendo atualmente, principalmente em países como o Brasil, com ‘jeitinho brasileiro’, espertezas e malandragens. E o paradoxo está na medida em que se fala muito de uma tal ‘sociedade de informação’ ou do conhecimento. Mas entre informação e conhecimento há um abismo.

Haveria uma quadra gradativa. Fofoca, notícia, informação e conhecimento.

Fofoca seria o dado para saciar a curiosidade sobre a vida do outro, quase sempre por futilidade ou intriga, muitas vezes com intuitos simplesmente depreciativos. Medíocres idolatram a fofoca.

A notícia é utilizada no jornalismo, ligada a qualquer tema. É uma informação manejada profissionalmente, visando a atender a sociedade. Mas também, em muitos casos, pretende causar sensacionalismo lucrativo em veículos com conexões comerciais.

Informação é qualquer conteúdo minimamente trabalhado com algum rigor. O Google seria atualmente o ambiente por excelência da informação.

Já o conhecimento, em si, pode ter um foco menor na transmissão do dado, mas um ligado a seu viés receptivo: a detenção, a retenção dele. Só que uma detenção qualificada, com possibilidades transformativas, de se alterar o dado, melhorá-lo, ao mesmo tempo que transmiti-lo pedagogicamente.

Para diferentes decisões da vida haverá diferentes necessidades. Para coisas simples do dia a dia, em muitos casos a informação supre as necessidades. Mas para outras coisas, somente o conhecimento consegue atender e propiciar uma decisão pessoal saudável, otimizada. Genial mesmo.

Há muita gente na atualidade que vem optando por não lidar com conhecimento, um saber estruturado e refletido. As decisões comuns e pessoais de quem não lida com conhecimento podem ter resultados piorados, desastrosos. A reflexão própria do conhecimento acostuma o agente a sopesar opções e hipóteses, analisar consequências e imaginar cenários. Em uma palavra, maturidade.

Pessoas que vivem ‘apenas’ interligadas por internet, conversando ou preocupadas em se comunicar com alguém no outro lado do aplicativo acabam ‘produzindo’ pouco, quase nada. Na maioria dos casos não há circulação ou manuseio de conhecimento aí. Só troca de dados pessoais, impressões e percepções. Não seria errado supor que uma geração assim teria como resultado efetivo uma baixíssima produção de conhecimento metódico.

Isso que se chama modernosamente de ‘inovação’ (expressão nova) e que pretende democratizar o acesso de qualquer um a um ‘invento’ (expressão velha) pode ser um escapismo cínico para treinadores e domesticadores atuais de comportamento empresarial. Trocam-se livros por manuais; tomos por apostilas; princípios por dicas; normas por alternativas. Dizem que toda essa rapidificação é ‘genial’. Mas não basta usar a palavra ‘genial’ para que algo se torne assim.

Na mesma onda, por exemplo, também são trocadas as éticas internas de abstenção por não tirar o que é do outro por justificativas canalhas dadas na culpabilização desse outro porque, afinal, ‘ele não cuidou de o que era seu’.

Com os atalhos e remendos ao conhecimento e à formação, vêm paralelamente os analgésicos à ética, os disfarces à seriedade, e o drible à compostura. É a desonestidade arrumadinha, pronta para impressionar e gerar lucro. Isto é na empresa, na ‘gestão’, no Estado, na política, na família e na própria pessoa.

Na formação em si, a renúncia do livro gera uma turma oca, tosca, careta, formalista e conservadora. Mas também autoritária, intolerante e imbecil. É a tragédia do não livro. Se o conhecimento ensina a calma da meditação sobre seu manejo, a pressa do dado digital e os atalhos estimulam o desespero de não se saber esperar alguns segundos mais na fila.

O Brasil pulou uma maturidade sociológica do conhecimento estabilizado por décadas, muitas, que seriam necessárias. Nos países velhos foram séculos. Surfou direto para a era digital, querendo tornar obsolescente o livro, o conhecimento, a reflexão e principalmente a experiência. Equivale a um budismo ‘express’, basta se inscrever e se ‘dizer’ budista. Apenas dizer, fácil assim.

Uma geração neste estilo decidirá coisas pessoais com desastres, efeitos colaterais e falta de sabedoria. Mas ‘sabedoria’ é um termo para muitos ‘ultrapassado’. Só não para Cícero, o filósofo da antiguidade que classificava apenas a sabedoria acima da amizade. O problema é saber se esta geração atual está mais feliz, ou, mais solitária e desesperada.  Jean Menezes de Aguiar /OBSERVATÓRIO GERAL.

Em homenagem ao grande intelectual brasileiro, prof. Milton Santos.

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Categorias:Cultura

2 respostas

  1. Concordo contigo. As pessoas hoje em dia fazem tudo o que se é conveniente. Até para ler. Dizem que a leitura está em moda entre os jovens, mas a maioria deles lê apenas o que está na vitrine, ninguém busca ler algo com mais conteúdo, algo que realmente vá acrescentar conhecimento. Não desmerecendo os livros que fazem sucesso na atualidade, porém, se você lê o que todos leêm você pensa igual a todo mundo.

    Muito bom o texto, adorei.

    Beijos.

  2. “Com os atalhos e remendos ao conhecimento e à formação, vêm paralelamente os analgésicos à ética, os disfarces à seriedade, e o drible à compostura. É a desonestidade arrumadinha, pronta para impressionar e gerar lucro. Isto é na empresa, na ‘gestão’, no Estado, na política, na família e na própria pessoa.”

    Excelente texto!

    A internet nasceu para aumentar a capacidade em gigabytes do nosso espírito e da nossa alma, mas a leitura de bons livros é indispensável.

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