O currículo inteligente e o outro

curriculo

Praticamente tudo na vida envolve negociação. Apresentar-se por duas folhas de papel, constando no topo curriculum vitae, pretendendo uma aprovação para emprego não é das formas mais fáceis de gerar aceitação. Há códigos profissionais, protocolos sociais e impressões pessoais envolvidos que são levados em consideração. Tanto na entrevista quanto na contratação.

O curriculum vitae – em itálico porque palavra estrangeira; jamais se pronunciando ‘viti’, mas com o ‘e’ aberto- costuma ser a primeira aparição do profissional num possível cenário de emprego. Leva informações. Mas também pode revelar valores e signos a serem interpretados, dependendo de quem analise. Fatores negativos ocultos como vaidade, futilidade, arrogância e insegurança podem ser percebidos. Há que se cuidar detalhadamente de cada palavra.

Errar num currículo pode representar inaceitação. Um dos primeiros questionamentos seria se tentar saber quem analisará o currículo. O tipo de profissional, sua graduação na empresa e, claro, a empresa em si. Uma agência de publicidade, uma universidade e um banco são estruturas completamente díspares entre si, quase antagônicas. Variam desde a ideologia ontológica às finalidades, passando por diferenças em criatividade, inteligência, liberdade e transgressão. Daí, o currículo não poder ser um conteúdo engessado para toda e qualquer situação.

Mesmo com a diversidade entre locais e pessoas, há princípios gerais. São fatores otimizantes: concisão no tamanho; precisão nos dados; objetividade; bom critério de seleção entre informações principais e acessórias; linguagem impessoal e minimamente perfeita; leveza na paginação e na apresentação.

Seriam erros desastrosos: floreios vernaculares e semânticos; enfeites estéticos e papel hello kitty; autoelogios; informações espumosas, enaltecedoras e exageradas; inexatidões e outras firulas próprias da não inteligência e da não racionalidade; erros ou rasuras nos dados.

Tolos ainda acreditam que empregadores vivam ávidos por saber ‘números’. É a praga de se abrir o currículo com os famigerados ‘dados pessoais’. Um irracional festival numerológico: RG, CPF, cep, título de eleitor, pis, telefone, CTPS, registro profissional etc. Toda essa tralha numérica, que qualquer humano costuma possuir, é para figurar em nota de rodapé. Da última folha. Há quem sinta prazer em informar essa bobajada na parte mais nobre de um currículo. Mas não se justifica.

Quando a pessoa tem algum ‘pedigree’ profissional, alguma grife agregada à sua pessoa, um curso em instituição reconhecida, é, naturalmente, esta informação que deve abrir o currículo. Se não tiver, será sua informação considerada mais importante que deverá estar logo abaixo de seu nome, encabeçando o restante dos dados.

Num currículo empresarial ou acadêmico que não precisam conter todas as mínimas informações em detalhes, dados antigos, de infância, como escolas de graus iniciais só teriam interesse se compusessem um indicativo de sólida e especial formação pessoal. Mesmo assim, sempre após as informações mais valiosas do candidato e que possam ser do interesse direto e imediato do contratante. E dificilmente na primeira página.

Currículos podem ser enviados; levados em mão; ou entregues por um amigo. Quando enviados pode-se ter a preocupação de que deverão dizer ‘tudo’, e assim mesmo numa primeira olhada. Não se está presente para ‘explicar’ o currículo.

Já o currículo levado em mãos, perde um pouco sua importância física que será absorvida pela presença do candidato. Estudos mostram que nos encontros, apenas 7% da comunicação são verbais, 93% vêm de sugestões não-verbais, como gestos e tom de voz (O poder da gentileza, Thaler e Koval).

Amigos ou até pais podem em vez de ajudar, prejudicar na apresentação de um profissional, se quiserem ‘complementar’ o currículo com impressões e uma ‘forcinha’. Expressões como ‘meu filho se formou agora e está lutando para conseguir um empreguinho’ podem ser desastrosas, fazendo com que o currículo nem seja lido. Também amigos ‘pedirem’ um ‘favor’ para contratar alguém afirmando que o candidato está passando por ‘dificuldades’, podem atrapalhar em vez de ajudar. ‘Transferir’ a negociação para um terceiro pode não ser a melhor opção.

Pedir emprego ou oferecer valor agregado? Se o currículo for efetivamente bom, o candidato sabe que não precisa ‘pedir’ em todos os casos. Sua competência profissional interessa, atrai naturalmente. Isso faz inclusive mudar a postura do candidato que se apresenta tranquilo e seguro. Se um amigo não considerar esse tipo de contexto e ‘pedir’ simplesmente ajuda para essa pessoa poderá gerar algum prejuízo profissional. Empresas não gostam de ‘ajudar’ apenas, mas agregar valor.

Informações heterodoxas ou estranhas podem estar num currículo. Se o candidato joga xadrez não informará isso. Mas se ganhou o campeonato brasileiro é uma informação valiosa. Mesmo não sendo o emprego ligado à prática, um contratante inteligente se interessará por uma mente genial. O medíocre, o formalista, o autoritário, o fútil e o burrinho em geral – essas cabeças existem infelizmente – só quererão saber de informações e formatações existentes em manuais primários de ‘como se faz um currículo’, ou seja, autoajuda.

Não pode haver desconexão entre as informações apresentadas e o candidato. Não se contrata por beleza de currículo, luxo na impressão, firulas e gracinhas nas informações. Mas pela objetividade e exatidão nas informações, além de interesses coincidentes. O usual ‘inglês intermediário’ quer dizer uma mínima conversação no idioma. E fluência quer dizer fluência, ou seja, não se pensar muito para falar, mas falar.

Quanto mais elevado o grau de emprego menor o tempo a se perder com um currículo, pois que as informações de mercado ou do métier suprirão os dados. Um ministro de Estado, um diretor de banco ou um técnico de futebol não são convidados por seus currículos impressos, mas por suas histórias, um conceito à parte.

Prêmios, láureas, homenagens, troféus e condecorações recebidos poderão compor o menu de apresentação. Como também livros e artigos publicados. O ser ou estar ‘rico’ jamais é um dado inserível num currículo, nem indiretamente por sinais exteriores de riqueza, como – automóvel: Ferrari. Seria, em todos os casos, péssimo.

Há uma cultura um tanto quanto primária no Brasil no que diz respeito a currículos profissionais que, muitas vezes, não leva em consideração quem vai analisar (e não ler) o currículo; como vai interpretar (e não querer saber) as intenções dos candidatos. É um erro achar que o currículo é tudo, pode tudo e ele é que consegue tudo. Para cargos de ‘mediana’ importância para cima, por exemplo, gerência, a entrevista e a apresentação social do candidato terá muito mais força do que 2 ou 3 folhas de papel.

O currículo impresso não ‘errar’ já é um ótimo começo. O restante estará a cargo personalista do candidato. Mas os códigos de traquejo, olhar, simpatia, segurança, linguagem corporal, que variam muito de acordo com a situação, são conhecimentos paralelos que precisam ser dominados. Uma ótima matéria para outro artigo. Jean Menezes de Aguiar /OBSERVATÓRIO GERAL.

Anúncios


Categorias:Cidadania online, Mundo corporativo

Tags:

%d blogueiros gostam disto: