Só falta Alckmin afirmar que o Trensalão é ‘do bem’

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O prêmio Nobel de literatura de 1976, canadense Saul Bellow, afirmou em 1982: ‘O poder mostrou seu desprezo pelo conteúdo da vida, pela alma’.

Quem vive num país como o Brasil, sabe o quanto isso é verdade, quando se pensa no poder estatal. Já se vão muitas décadas desde que as ‘autoridades’ passaram a ter somente uma única, e cínica, preocupação: seu umbigo.

Corrupção no Estado brasileiro se refestela em todos os poderes e entidades. Um advogado dos envolvidos no Petrolão disse que não se põe um único paralelepípedo neste país sem caixinhas e pagamentos escusos. Muita gente quis se magoar e fazer bico. Tolinhos de plantão verdadeiramente se assustaram. Mas o sonho de qualquer ‘repartição pública’, no quesito corrupção, continua sendo uma coisa que se chama ‘obra’. Isso mesmo.

Obras, compras de mobiliário e carros oficiais, reformas. Aí está o maná. Nunca são cem por cento transparentes. É na beirada da não transparência que saem as ‘beiradas’ de comissão, presentes e, claro, corrupção grossa. O professor Joaquim Falcão, diretor da FGV, tem uma frase lapidar publicada em livro: ‘ninguém resiste a um procurador ensandecido’. Infelizmente faltam muitos desses para fiscalizar o próprio Estado.

O governador de São Paulo agora com sua maniqueísta ‘escolha’, afirmando que o Petrolão é do mal, mas o Trensalão não é similar, deu a piada de virada do ano que não se precisava ouvir.

O que vale para a até aqui olímpica e vaidosa Petrobras, finalmente arruinada por sua incompetência fiscalizatória totalmente cúmplice em termos de gestão – não foram bagrinhos que assaltaram a empresa -, vale identicamente para mazelas descobertas no governo de São Paulo. E para qualquer outro governo.

Querer, Alckmin-Daslu, que as históricas mazelas que não se conseguiu esconder e começaram a pipocar no eterno governo peessedebediano paulista sejam incomparáveis com as da Petrobras é uma análise no mínimo farisaica. Só falta o governador dizer que o Trensalão é ‘do bem’, essa expressão analfo-intelectual típica de ‘contemporâneos’.

Sabe-se que a ‘corrupção’, conceito quando usado de uma forma difusa e genérica, é apenas uma flâmula meio idiota. Bradar simplistamente contra ela pode ser um berro reacionário, porque se acha que apenas gritar basta. Veja o Junho-13, as ‘ruas’ que enganaram a tantos.

É nesta linha de quietude social que ‘autoridades’ deitam e rolam. Sabem que as cobranças efetivas, nevrálgicas e contundentes não vêm mesmo. As ruas se esvaziaram com a boçalidade bêbada de garotos mimados fantasiados de black block. Enquanto isso o iate estatal continua singrando mares calmos. Meia dúzia de caras presos pelo Petrolão lavam a alma do brasileiro. O país é ‘outro’? Piada.

Nas falas autoritárias do governador de São Paulo até parece que o Trensalão não existiu. E todos os outros passados e presentes-muito-bem-obrigado trensalões da realidade brasileira.

Uma das coisas que precisa ser cobrada, para quem gosta de falar ‘abaixo corrupção!’ é o fim do cinismo de ‘autoridades’ oficiais defendendo seus direitos a carros de luxo, auxílios moradias, auxílios educação, auxílios comida e outras microcorrupções que levam qualquer salário à casa de 40, 50 mil e que servem de fundamento ético a uma cultura do roubar pouquinho pode.

A Polícia Federal indiciou mais de 30 pessoas no esquema de corrupção paulista, relativas às gestões de Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin. O judiciário federal bloqueou mais de R$ 600 milhões de empresas envolvidas no cartel. Mas para Alckmin isso é ‘diferente’ do Petrolão.

Enquanto essa sociedade continuar quieta, só restará rir. Ou chorar. Jean Menezes de Aguiar /OBSERVATÓRIO GERAL.

[Matéria republicada no BRASIL 247]

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1 resposta

  1. É Mensalão, é Trensalão, é Petrolão… tudo Corrupto Grandão!

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