Só os radicais interessam

brasil sangrando

O filósofo Kant conceituou ‘antinomia’ como dois argumentos supostamente antagônicos e, no entanto, igualmente convincentes, postos lado a lado em páginas opostas. Ele não queria provar que um era superior ao outro, mas mostrar que eram ‘apenas’ dialéticos. Esta demonstração já é muita coisa.

No Brasil atual foram criadas oposições interessantes. Uma política, profissional, engajada, com fóruns próprios, relativa a militâncias e partidos, com seus argumentos, projetos e razões: entre PT e PSDB.

Outra mais ‘social’, menos neutral, mais vulgar e mundana – no sentido legítimo-, menos tolerante e menos fundamentada: Lula/Dilma/PT e esses valores de um lado, e classes média/alta e esses valores de outro. Não se apresse a um maniqueísmo ‘fácil’ de querer destruir conceitos com o chavão de que aí está a boa e velha luta de classes. É óbvio que está. Mas desde quando deixou de ser assim? E também se sabe que há inúmeras exceções nas situações de ricos e pobres.

Um dos pontos interessantes é saber se estas oposições são mesmo antinômicas, no sentido de que seriam naturalmente opostas. Ou se são superficiais. E se já foram superficiais e se tornaram agudas e porquê.

Se pontos assim puderem ser mapeados, contribuem para explicação de uma série de questionamentos. Por que a sociedade vem buscando heróis e aceitando a autoconstrução desses heroicizados, como Moro? Por que buscou líderes políticos carismáticos, Collor? O que satisfaz, agora, à sociedade internetiada acostumada à rapidez das respostas?

Primeiramente a oposição política, vivida profissionalmente, nas entranhas das Casas legislativas é, praticamente, toda ela de mentirinha. Mesmo quando um estapeia o outro e põe a mãe no meio. Com o triunfo do cinismo político regiamente remunerado, ninguém ali tem muito, a sério, porque brigar. Amor ao país? Respeito à sociedade? Retribuição ao salário e ganhos estratosféricos? Quem acreditaria numa carochinha dessas?

Esta primeira visão, escatológica, admita-se, deveria ser um tempero teórico de freio a todo tipo de ação social. Não no sentido de inibir a sociedade a reagir, mas de piorá-la, conscientizando-a de um cinismo necessário para lidar com cínicos.

Voltaire em seu Dicionário filosófico, ensina que ‘os políticos arrebanham os de feitio faccioso’. Isto não é de hoje. Se a sociedade no mundo já foi crédula, moralista e ética, hoje é desesperada por heróis-tamagoshis portáteis. Mas eles nunca existiram, o último foi a experiência Collor. Nem o moralismo triunfou, nem a urgência melhora as respostas.

Bons tempos aqueles que a imprensa era apenas marrom e preconceituosa. Hoje é incendiária e terrorista, querendo que o Brasil se exploda para vender mais. Roberto Marinho e seus amigos generais atualmente seriam trainees de um novo tempo, assistindo atônitos o que o Brasil fez com o Brasil. De novo.

Não há muita lucidez ou fundamentos em quem se orgulha de odiar Dilma, PT e Lula. Este ódio é o óleo lubrificante da imbecilidade no argumento. A partir dele, tudo cai. Mas também não há credibilidade em quem, como torcedor fanático e rouco berrando ‘chupa!’, vive de defender Lula como santo. Os extremos são patéticos, mas se disser isso a eles você apanha. De ambos.

Deste antagonismo, numa sociedade atual, o que se vai querer? Só radicalização. O monoteísmo político a Lula quererá ele reeleito como um ditador eterno, sem perceber que projetos envelhecem, vencem e que um mundo novo construiu esperanças novas. Apenas conceitualmente diferentes das que existiam quando se lutava contra uma ditadura qualquer. Ainda que o PT tenha conseguido fazer um novo Brasil.

Já os odiadores de plantão, como crentes nada lobotomizados que customizaram a fé, em busca de um justiçamento unilateral do PT e companhia, fabricarão heróis, criarão suas próprias interpretações jurídicas e aceitarão quaisquer meios em troca de certos fins. Mesmo que se rasgue a Constituição, se deturpe ‘um pouquinho’ a lei, deixe o preso sofrer um pouco para ele confessar, e imponham-se coações e medos para obtenção de delações. Envergonha-se o Direito Processual Penal, mas quem se importa com ele?

O novo Brasil que saíra ‘disso’ é imaginado por observadores atentos. Consumista agudizado em conceitos, filminhos e mensagens ‘fáceis’ de whatsapp; não ético e não educado, principalmente com seus filhos reizinhos e princesinhas manhosos e barulhentos; disfarçadamente corrupto e panfletariamente moralista. Mas efetivamente maquiado. Apenas isso.

Uma vez saída Dilma, se sair, tudo ‘cessa’, no pior dos sentidos. Não que não haja vida após ela, mas seu mandato ‘deveria’ ser respeitado. Talvez seja como o dia seguinte da vitória da seleção brasileira numa copa do mundo. Uma segunda feira qualquer. Isso lembrando quando o Brasil vencia. OBSERVATÓRIO GERAL.

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