A história se repete: reacionários de um lado. Do outro, bem…

reacionários

Dá gosto ver a baba do reacionário, do conservador. É uma saliva-dragão-de-Komodo. Puro ódio, desprezo, preconceito e intolerância. Não pense que há aí uma frase de ‘efeito’ para formar um arquétipo personalista de um alguém teórico. É a História, pacientemente, que mostra que os movimentos sociais obedecem a certas lógicas. Em 1937 e em 1964 foi assim. Como o Brasil nunca teve uma revolução das gentes, tem seus golpes, da banda B do poder.

Por outro lado, não se pense que a esquerda seja santa. Nunca foi. E no Brasil, agora, os neocanalhas mostram sua lastimável cultura-boca-suja-de-feijão. Apadrinhamentos iguais, nepotismos do mesmo jeito, favorecimentos amistais. Idêntica aos velhos canalhas de Brecht, os que assaltam bancos, ou os fundam, são iguais.

A esquerda no poder do Brasil, ‘iniciada’ por Lula conseguiu realizar coisas sérias e dar uma cara nova ao país. Fato inédito desde Juscelino Kubitschek. Mas neste desfecho-baixo-clero, ou agora este híbrido-cai-não-cai, mostrou que a diferença entre o velho sonho da esquerda – que nobreza- e ‘isso’ que restou aí, é abissal.

Já reparou que a Globonews mudou o tom esta semana? Pois é. Primeiro vieram as fraquíssimas falas dos criadores da peça de impeachment na Câmara. Mas o que foi aquilo? Depois, com as surpreendentes e incorrigíveis exposições de Nelson Barbosa e José Eduardo Cardozo, o governo-quase-cadáver ganhou forte fôlego. A emissora-news saiu da acusação viciosamente entrópica a la Merval e Waack e voltou para o bom e velho muro. Pois é, já imaginou se Dilma não cai?

Mesmo com o sonho da díade direita-esquerda do eterníssimo e lindo Norberto Bobbio, não será absurda a suposição de que Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Florestan Fernandes e outros tantos inventores de um Brasil melhor estejam se revirando nos túmulos. Principalmente nos seus bons e velhos sonhos de esquerda. Quase da maneira, admita-se, como já foram, ex-Lula e ex-FHC.

Quem de uma ‘verdadeira’ esquerda atual vai sustentar que este resto do governo PT é da esquerda? Tudo bem que política é a arte do possível. Entende-se com naturalidade que o PT, para se segurar no governo, faça conchavos e costuras. São legítimos. Todos fizeram e farão. Principalmente agora, sim, agora que se tenta este neo-golpe. Não contra o PT, Dilma etc. Mas pior, golpe contra a já sangrada história do Brasil.

Este Brasil interminável de Acms, Renans, Sarneys, Bolsonaros, Collors, Golberys, Medicys e Lepo-lepos, seja lá o que isso possa ser. Mas Brasil também de estádios criminosamente bilionários; de cidades como Marianas arrombadas pelas eternas incompetência e safadeza; das vitalícias secas dos sertões; das previsíveis enchentes de São Paulo; e do povo atônito sem saber ‘como’ evolui, melhora e progride.

Uma hora lhe vendem o sonho da casa própria. Na década seguinte, o sonho da faculdade fácil. Depois, o sonho canalha de um povo ‘que não desiste nunca’, ou seja pobre, miserável, despossuído, mas vivendo apenas para pagar impostos. O que pode ser mais reacionário e perverso que isso?

O PMDB finalmente consegue sonhar com o poder-filho-espúrio, mesmo que num delírio golpista de engravidar a prostituta e só depois ver se vai amar o filho ou não. Acredita que seu golpe tem um ótimo disfarce. Jura que seus jantares não estão sendo gravados por uma Lava-jato-Mora banda B. Contabiliza mais imbecis e crédulos do que efetivamente há na sociedade para acreditar em tudo que passa na TV ‘oficial’ do impeachment.

Em 1964 viu-se um desenho ‘parecido’. Sendo que Jango era inseguro e fraco e as Forças Armadas autoritárias e intimidadoras demais. Esses dois extremos não há no cenário atual. Mas mesmo assim vencedores de plantão daquela época não admitem que se chame 1964 pelo seu verdadeiro nome. Só aceitam que tenha sido uma ‘revolução’. Que piada.

O sonho não acabou, está apenas drogado. Dilma tem dificuldade de convencer até ela própria no seu momento reflexivo de xixi presidencial. Tira forças de mulher valente que é para falar na TV. Mas o que o país precisa agora não é de sua valentia. A ditadura já acabou. Seu inimigo talvez nem seja mais as cartas do jogo, mas o próprio jogo, este disfarçado e mais acessível a quem interpreta subnarrativas e subcenários. Ou a quem não quer o jogo, só mesmo o subjogo. De um lado, crédulos; de outro, maquiavélicos. Como em todo golpe. E às vezes ele ganha. Ou no Brasil ganhou sempre.

Mesmo que não haja crime de responsabilidade neste presente, um golpe escamoteado foi gerado por uma inseminação que não era para dar certo, afinal Cunha nunca seria o pai deste impeachment. Ele é estéril para esta concepção política, não porque lhe faltasse maldade, mas exatamente porque lhe sobra. E um ato de impeachment, como previsto na Constituição da República precisa ser um ato limpo. Não uma raivinha cunhadiana, praticamente preclusa.

O golpe pode vencer. Dilma cair. Temer ficar. Lula gritar. O povo das passeatas comemorar. Não exatamente a vitória de um projeto, sabe-se. Afinal PMDB e projeto são conceitos refratários. Mas comemorar a derrota, o estraçalhamento de Dilma, um fim onírico do PT e dessa ‘corja’ – não é assim que falam?

Esses com ar de torcida desfibrilada, tentando matar o adversário não pensam no amanhã. Essa arte, o pensar, é-se-lhes torturosa demais.

Se acham que o Brasil melhorará com a queda de Dilma, que ‘obtenham’. Só que o jogo não acabou, Dilma pode surpreender. Mas uma coisa é certa. Ambas as alternativas são bem ruins, não há qualquer terceira via jogando o jogo, nem o subjogo, e escolher qual a via pior é muito difícil. Num cenário assim, manter-se um mandato eleito é infinitamente mais garantido. E mais: com a ética de não se poder dizer depois, sobre nada – ‘eu não disse?’ Observatório Geral.

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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