Senador Randolfe Rodrigues

 

randolfe rodrigues

Precisava escrever um artigo, mas não tinha ânimo com esse marasmo político brasileiro desses quase todos representantes monótonos, elogientos, formalistas, balofos, caretas e repetitivos. Além de intelectualmente discutíveis, a não ser pela ótica deles.

 

Até que apareceu no cenário dos 15 minutos da noite deste emblemático 11.5.2016, o senador Randolfe Rodrigues na tribuna do Senado e tirou as coisas do lugar. Com lógica, racionalidade e coerência.

 

Lembrou o professor de Direito da Universidade de Bordeaux-I, Jaques Ellul, em entrevista ao Le Monde, quando disse que começava por criticar tudo que lhe era simpático, por isso não criticava a direita, mas a esquerda, onde tinha amizades e afinidades.

 

Rodrigues fez uma crítica da esquerda não especificamente à esquerda, mas ao PT, que um dia já foi esquerda, depois ‘virou PT’. Talvez a miríade do PT tenha sido supor que a esquerda pudesse se reduzir ao petismo. Essa redutibilidade, mesmo com o suceder histórico, não se confirmou jamais.

 

O PT fez muito por um Brasil atônito pós-ditadura e sem saber à época, sequer, como sonhar. Ele inventou um bom sonho. Fez-se poderoso e gigantesco. Mas o poder lhe corrompeu, e ele próprio expulsou uma grande parte da esquerda de si. Como Stálin expulsou Trótski da Rússia em 1929, gerando quase que uma diáspora de trotskistas pelo mundo.

 

As críticas de Randolfe nem foram também diretamente ao Partido dos Trabalhadores, mas às ligações políticas que fez, aí sim, num continuísmo do carcomido, do mesmo, que acabou por devorar as entranhas do próprio PT. Ainda que caibam algumas ressalvas históricas: tanto FHC, quanto Lula e Dilma ‘precisaram’ de vices direitões. A sociedade brasileira da época não aguentaria um discurso progressista ‘puro’. Como se aguentasse hoje em dia. Cadê o aborto?

 

Um dos grandes problemas do Partido dos Trabalhadores é não saber falar mal de si; não expurgar suas desgraças; não rir de suas idiotices e asneiras. Como Nietzsche anunciava numa placa pendurada à porta de sua residência que não imitava ninguém e ria dos mestres que não riam de si próprio.

 

Se os deputados e senadores acham que os 15 minutos na TV dão ‘fama’ a eles, ajudam na reeleição, talvez se surpreendam ao saber que a sociedade pode, nesta oportunidade, isto sim, conhecer o ridículo deles. E querer mudar aos bolsões, em quantidade elevada.

 

Políticos e sociedade não ‘têm’ que ter uma simetria direta e necessária no plano antropológico, no sentido de que o político é um espelho automático da sociedade. A sociedade é sofrida, não rasga dinheiro público como os políticos e não tem imunidades e privilégios como eles. Então esta suposta simetria que culturalmente seria ‘compreensível’, pode muito bem ser envergada. Políticos e ‘autoridades’ devem (!) ter uma ética extremamente elevada, ‘apenas’ porque lidam com dinheiro público.

 

Assim, nessa Geral de Maracanã (o velho espaço onde os mais pobres assistiam o jogo em pé), da Câmara e do Senado que está sendo esse impeachment, poucas figuras se sobressaem. Não adiantam falar alto, xingar ou chamar Cunha de canalha somente. Isso, ali, não é difícil.

 

O rapaz de Garanhuns, Pernambuco, Randolfe, não somente provocou aplausos. Completou uma crítica amadurecida e desesperançada do senador Rubens Requião ao mostrar que o futuro não se ‘corrigirá’. Infelizmente não parecendo ser futurologia.

 

Os partidos políticos talvez não tenham tido grandes histórias no Brasil. Apenas as suas histórias. A história do Partido dos Trabalhadores não deveria se perder. Mas para isso seus caciques precisariam ouvir as críticas, baixas ou altas, pequenas ou infames, como um pensador ouve uma nova teoria: surpreso, interessado.

 

A fala do senador Randolfe Rodrigues deveria entrar para a história, para os anais. Pessoas da direita e da esquerda deveriam ouvi-la, vê-la. Pensar naquelas verdades. Naqueles ‘cansaços’ de uma política que, não adianta, não muda; que um senador jovem não deveria ter. Mas a realidade não consegue esconder do expectador a sua própria coluna vertebral, se não, não teria o nome de ‘realidade’.

 

Vai Brasil. Vamos ver o que Michel Temer vai ser.

 

Observatório Geral/ Jean Menezes de Aguiar.

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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