Os ‘nãos’ da mulherada a Temer

 

leila diniz

Leila Diniz

Certamente Michel Temer não imaginou que poderia se meter num imbróglio assim. Montou um ministério só de homens, dando vazão a um pensamento funcionalista nada plural. Quase uma concepção militarista do tempo que não cabia mulher na caserna. Um retrocesso e tanto.

 

Quando percebeu o erro, ele já havia sido denunciado. Era tarde demais. Figuras do mundo mulheral começaram a dizer ‘nãos’ a Temer, em então sabidos convites tapa-buracos.

 

Quem será a heroína, ou a santa a se prestar ao papel aporético agora? Talvez ‘apanhe’ das próprias mulheres. Ou talvez só se exponha.

 

Não se trata de ‘pautar’ a negativa das mulheres. O fato é que o erro de Temer não foi avulso. Foi historicamente antagônico e simétrico (em antagonismo) ao governo que se suspendia: uma presidente mulher, com várias mulheres no comando. Não se iluda, isso incomoda a muito macho por esses Brasis. E não só a machos, claro.

 

Talvez Temer não goste, sinceramente, de trabalhar com mulheres. Prefira as recatadas e comportadas, as quase transparentes e silenciosas, que não enfrentem o homem com razões que só a feminilidade inteligencial consegue. Mas isso é problema dele. Só que agora, se a suposição for minimamente verdadeira, virou um problema de gestão política.

 

O governo Temer não tinha o direito de ‘errar’. Que frase patética… Rechaçou eleições gerais, disse que dava conta do recado. Cada pequena crítica, que seja, agora, como fogo amigo, gente que apoiou o impeachment, por exemplo Hélio Bicudo, se torna uma bomba.

 

Temer não pode errar, não porque ele teria que acertar. Não pode porque o Brasil precisa de acerto, amanhã, seja com ele ou com qualquer um. Cada semana em seu governo será um mês. Cada mês, um ano. Mas essa análise se lhe era sabida.

 

Ministros por aí que se cuidem. Se uns 3 ou 4 começarem a falar bobagens, Temer poderá aproveitar a mancada inicial para tentar ‘emulherar’ o governo. Seria um colorido antropológico espetacular. Mulheres, muitas mulheres.

 

Um outro erro complicado cometido foi o ministério só de políticos e politiqueiros profissionais. Tudo sempre atrás do velhaco apoio congressual. Nenhum intelectual, nenhum acadêmico, nenhum pensador brilhante, como tantos que o país tem, respeitados por opiniões densas e progressistas.

 

Esses tais ‘erros’ podem ser nada para ‘entusiastas’, ou crédulos. Podem ser pouco para atuais situacionistas. Mas são profundos para uma análise que antagoniza um governo ruim de Dilma, mas efetivamente legítimo – o que é muita coisa numa democracia –, com um governo que luta por se legitimar a troco de invenção de um crime de responsabilidade totalmente sonhático.

 

E o Senado, o agora juiz de Dilma, está calibrando isso tudo. Mas a sociedade é que dará as palavras finais, já que políticos são facilmente influenciáveis pelas ruas.

 

Há dois lados nos ‘erros’. O erro que um legítimo comete; e o erro que um ilegítimo comete. O erro do legítimo pode ser péssimo, mas como errar é humano, é um erro próprio da existência. Já o erro do ilegítimo é, paradoxalmente, ‘menos’ que erro, é uma ousadia. E a história mostra que governantes já enfiaram muito os pés pelas mãos com ‘ousadias’. Só que quem sempre pagou a conta foi o povo.

Um ‘viva’ carinhoso às mulheres.

Observatório Geral.

 

 

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