O neogolpe, os cínicos e os vitoriosos

diogenes

 

O título vem com uma tentativa de conceito e duas percepções.

 

Talvez eles ‘contribuam’ – que ingenuidade-, para os que têm dificuldade com uma leitura menos primária, ou atávica a si própria, nesses tempos sofisticados de compreensões tão complexas.

 

Talvez eles só desmascarem quem tenta se esconder numa ideologia válida, ácida, intolerante e mesmo assim até legítima, afinal cada um é o que quer ser, mas nada disso dá ‘direito’ a se querer impeachment de um presidente da república, ótimo ou péssimo; simpático ou com cara de carranca; que saiba falar ou seja uma caricatura ambulante quando abre a boca.

 

O que está havendo com Dilma Rousseff na política não é golpe, é um neogolpe, e o neogolpe não é o golpe, mas um golpe cujo golpe é não dizer que é golpe, pelo menos para quem quer que golpe se diga golpe, daí o grande golpe a Dilma é não ser aquele golpe, mas o neogolpe, que mente sua ontologia, mas todos sabem que é golpe.

 

O malabarismo esquizofrênico acima é proposital. Talvez retrate os tempos difíceis atuais. Há duas leituras deles: ou há um golpe escrachado e mundano contra Dilma, como alguns veem, ou há um neogolpe muito sofisticado, envolvendo tacitamente ‘simpatizantes’ em todos os Poderes e órgãos do Estado, cada um contribuindo, na hora de sua competência funcional, para empurrar mais um pouquinho Dilma para o abismo.

 

É aqui que o tal do neogolpe se perfaz e, ao mesmo tempo cria dificuldade para que muitos consigam ver.

 

Opositores cínicos a Dilma repetem o mantra de que ‘as instituições estão funcionando’, como se esse pulsar burocrático inercial da débil máquina estatal quisesse dizer algo. Que piada.

 

No neogolpe o que não pode parar de funcionar jamais é essa porcária máquina estatal, lenta, mentirosa e inatingível. Exatamente para que o mantra funcionalístico do maquinismo seja enfiado goela abaixo no povo-TV otário como ração no pato para foie gras.

 

Confrontem-se ‘verdadeiros’ e ‘cínicos’; mas agucem-se as percepções. Um pouco como Voltaire ensina no Dicionário filosófico, no verbete ‘Amizade’, ensinando que amigos têm pessoas sensíveis e virtuosas. Já malvados têm cúmplices; ambiciosos têm associados; políticos têm os de feitio faccioso e os príncipes têm cortesãos.

 

O mero fato de a defesa de Dilma ter conseguido produzir provas técnicas e sérias de que não houve crime de responsabilidade – insiram-se aí TCU e MP desfazendo acusações estupradas de última hora-, mesmo com acusadores insistindo com outras provas já seria o bastante – sim, o bastante- em qualquer tribunal do mundo, jurídico ou político para se absolver. A ‘dúvida’, em toda a história do Direito, nunca militou a favor da condenação. A não ser nas ditaduras e nos golpes.

 

Aí estão os cínicos. Mas aí também podem estar os ‘vitoriosos’. Como aqueles a quem o professor Darcy Ribeiro se referiu na Sorbonne ao receber o título de Doutor Honoris Causa, dizendo ‘não queria estar no lugar dos que me venceram’.

 

Dilma Rousseff não está sendo derrubada por um ato criminoso seu. Este ato criminoso que os cínicos aprenderam rapidamente que precisam meramente ‘falar’, ‘insistir’, ‘repetir’, construir a frase ‘o crime de responsabilidade está claríssimo’, como se estivesse. ‘Falar’ a palavra ‘crime’ não cria crime.

 

Dilma enfiou os pés pelas mãos numa gestão autocentrada, egocêntrica e efetivamente ruim. Demorou séculos a pedir perdão e, mais uma vez, não o fez com a sinceridade que se lhe seria exigível. Este parágrafo não é para ‘alegrar’ serelepes mentais de plantão achando que só ele salva todo o artigo e prova que ‘no fundo’ o autor sabe que Dilma merecia ser impichada. Não merececia. Há um repugnante golpe, neogolpe ou nome perverso e indecente que se imagine dar.

 

Se Lula, Mariza, filhos, netos e bisnetos são donos de vinte tríplex e vinte fazendas não é caso de impeachment de Dilma. O crime de responsabilidade como ato de Dilma Rousseff não apareceu, claudica e até hoje precisa ser ‘explicado’. Está aí a prova endógena, epistêmica de que este crime não é crime. Mas mesmo assim os cínicos e poderosos podem ‘ganhar’.

 

Esses tempos vão deixar, por baixo, toda uma geração em ‘náusea’, como Jean-Paul Sartre imaginou Antoine  Roquentin. Mas a ‘vingança’ – nome estigmatizado por um pensamento piegas e carola- faz o prato de comida esfriar, sem, contudo, deixar de servir como alimento. O gosto altera, o prazer diminui, mas o tempero da História é poderoso e acaba salvando o paladar. OBSERVATÓRIO GERAL.

 

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