O porre de ideologias

Album_Ideologia_cover

Em uma plena burocrática 3ª feira, 3.4.17, passou na televisão um rapaz brasileiro, na porta da delegacia em São Paulo reclamando da lei de imigração. Isso após agressões e embates físicos de seu grupo de patrulhadores e conservadores de uma moral portátil, provavelmente rácica e étnica, com pessoas árabes e muçulmanas. Todos foram detidos pela polícia.

 

Após o julgamento que liberou José Dirceu da cadeia, os juízes do Supremo Tribunal Federal que votaram – obrigatoriamente com fundamentos jurídicos-, pela liberdade, passaram a ser xingados e pautados à sociedade para que esta mesma sociedade disparasse ódios por eles, sob o slogan de ‘inimigos da nação’.

 

Grupos de pessoas no Rio atacaram caminhões de carga e os saquearam, em vilanias sociais patéticas, com pais, filhos, vizinhos, conhecidos e estranhos, todos numa formação de quadrilha aética, entregues ao assalto coletivo.

 

O que está havendo ‘com o Brasil’? Os grandes questionamentos, as grandes interpretações das gentes continuam a interessar estudiosos. Mesmo que resvalem no conceito cartesiano de ‘correto’. Isso importa pouco.

 

Talvez haja uma psicanálise comum a tudo isso. Esta é que seria interessante.

 

A sociedade já viveu alguns ‘porres’ em sua história recente, como sintomas percebidos de exageros de sentidos, ideias e modos urbanos. Verdadeiros caldos culturais turvos.

 

O dito porre de democracia, por exemplo, há poucas décadas. Mas atualmente se vive um porre de ideologias, com tudo que o conceito carrega de ruim.

 

O maniqueísmo que ele sugere é verdadeiro. Meu grupo está certo, e o seu, errado, tem que apanhar de nós. Fisicamente, até sangrar. Ou morrer. E a polícia que nos contenha, se não nos matamos. É antropofágico.

 

Há aí uma desantropologização, uma perda do humano, um retorno ao animal irracional. Como se o animal calculasse a maldade como o homem projeta.

 

O filósofo Jürgen Habermas na obra Mudança estrutural da esfera pública, p. 501, ensina que ‘a opinião pública é, de fato, uma ficção’. Ninguém minimamente esclarecido cai mais nisso de ‘opinião pública’. Já se conhece a diferença entre opinião pública e opinião publicada.

 

Mas nesta atualidade nem se precisa mais da ideia geral de uma opinião pública. Basta uma coesãozinha de 50 pessoas em Facebook para um ‘grupo’. Formou-se um movimento.

 

Cessaram a educação familiar, a escolar, a pressão social pelos bons modos e respeito ao outro em geral. A gentileza foi clivada pela mão nazista de alguma cultura doente, lisérgica.

 

O biólogo Frans de Waal, no livro A era da empatia, p. 287, cujo subtítulo expressivo é: Lições da natureza para uma sociedade mais gentil, explica que nós humanos temos uma porção Bonobo, o primata com mais empatia que há, e uma porção Chimpanzé, o primata mais violento.

 

Às vezes a impressão é que só há chimpanzés nas redes sociais, nas torcidas de futebol, nos confrontos políticos. Ou que eles vivem escondido, bastando qualquer fagulha de desagrado para se revelar. Triste uma gente assim, uma sociedade assim.

 

De novo, pode haver um substrato geral aí, esclarecendo alguma mancha social cultural, um acirramento ideológico que outrora até existiu no país, tanto no pós-Guerra com a rápida liberdade de 1946 e sua Constituição democrática, quanto também na ditadura, e sua agudização bestial com caçadores de comunistas e outros mentalmente afetados.

 

O problema é que atualmente, isso se soma a uma abrupta falta de educação, volúpia pelo sucesso-tela-de-celular, vontade de aparecer em selfie e outros horrores da cabeça-porcaria, socialmente egocêntrica que não aceita o outro, as diferenças, as dificuldades, os ritmos e a própria concepção de vida e tempo.

 

O conceito de ‘porre’ utilizado aqui, pode não ser um algo obrigatoriamente ruim. Para uma sociedade morna e sem muita convicção política como a Brasileira, essa mesmo que prometeu acordar o tal do gigante, fosse lá que palhaçada isso pudesse ser, a acidez crítica, a cobrança social são algo interessante. Mesmo, em certos casos, com ideias estapafúrdias.

 

O problema é que ‘evoluíram’ desse porre para a intolerância. A ‘ideia’ é igual ao papel, totalmente anárquica e aceita qualquer coisa, absurdos, preconceitos e ódios.

 

O antídoto para a ideia ou ideologia idiotas nem é a bondade ou alguma estrutura piegas, mas a reflexão racional, a análise genial, a inteligência e os fundamentos de toda e qualquer conclusão. Fora daí é só porre.

 

Jean Menezes de Aguiar / OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo republicado no site BRASIL 247]

Anúncios


Categorias:Cultura

%d blogueiros gostam disto: