As férias sociais da ética, da moral e da vergonha

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O presidente da República Michel Temer é flagrado numa conversa de índole tipicamente criminosa, gravada na última-escondida hora da noite com um sujeito confessadamente criminoso e ‘nada acontece’.

 

Qualquer delegado de polícia ou promotor recém aprovado em concurso não teria qualquer dificuldade em tipificar os crimes ali envolvidos.

 

O ‘nada acontece’ do primeiro parágrafo parece ter se perpetuado, até aqui, em legalismos e milimetrias jurídicas às quais a ética, a moral e a vergonha na cara – fatores otimamente mundanos e caros a qualquer cultura – simplesmente não podem entrar.

 

 

Temer está no lugar dele: esbravejar altivamente, exigir perícias, contraprovas, certezas cartesianas, devido processo legal, que sabe demoram meses, ou anos. Assim não seria o presidente que estaria ‘mais’ em xeque. Mas sim a sociedade.

 

Uma sociedade que não se ruboriza com uma gravação dessas, com um fato-segredo como o ocorrido, com o exemplo claríssimo de violação ética e mesmo criminal como foi, não merece muito respeito. Três fatores aí.

 

Por primeiro, ‘tudo bem’ que muita gente já se veja tão enojada há décadas com a política e mesmo com a sociedade em relação a essas pautas que desenvolveu uma couraça de insensibilidade. Nutre verdadeiramente nojo por tudo isso que vê. Admita-se que este efeito colateral desgraçado seja legítimo. Bertold Brecht quando teorizou ‘O analfabeto político’ não conhecia o Brasil.

 

Por segundo, admita-se também que a grande imprensa tenta empurrar esta mesma sociedade para um despertar político, escancarando manchetes sensacionalistas, panfletárias, horrorizadas e outras convocações sociais típicas de um quase pós-guerra necessariamente reconstrutivo.

 

Por terceiro, sabe-se que o Estado brasileiro, nos 3 níveis, federal, estadual e municipal, seus muitos usurpadores nos primeiros escalões com suas vidas nababescas em ilhas de riqueza, totalmente descoladas de um Brasil real, não param de dar motivos à certeza da patifaria oficial e legalizada, contra uma sociedade inerte.

 

Mas estas três considerações precisam ser revisitadas, mesmo por esta sociedade aviltada. O preço de não se arregaçar as mangas e efetivamente lutar por um país minimamente mais ético e mais decente – de verdade- será cruelmente pago pelas gerações próximas, num continuísmo antropológico perverso.

 

Pode parecer, à primeira vista, que os papéis da imprensa e dos observadores e críticos sociais estejam sendo enxugar gelo. Mostram, analisam, criticam, expõem e clamam à consciência social, e o ‘resultado’ parece ser pequeno.

 

Os próprios movimentos de rua parecem ter se cansado. Ou aderido. Mas se optam pela segunda possibilidade, se arriscam à leitura de uma não-ética episódica terrível, segmentada, partidarizada e sem mais moral para grandes movimentações.

 

Não se veem as mesmas estruturas impactantes que foram vistas para o impeachment de Dilma, com o presente caso Temer. E este parece ser surrealmente pior: há uma gravação detonante.

 

Por outro lado, o tempo vem confirmando um ‘desesperador’ quadro analítico feito lá atrás: por que até agora não apareceu nada de concreto contra Dilma e Temer como tem aparecido contra tantos e tantos? Cadê o power point e sua explosão do mundo? Cadê a Lavajato? Será que os teoristas da conspiração ainda sustentarão que a polícia e os promotores continuam esperando … ‘o melhor momento’?

 

Se o tempo é o senhor da razão, também é o grande angustiador de certas lógicas.

 

O episódio Temer-Joesley é ‘mesmo’ para cair no esquecimento? A sociedade brasileira não ficou pasmada e aviltada sabendo da gravação que revelou a imensidão malévola do esquema?

 

Se for assim, essa tola e careta ‘ética’ tão propalada por formalistas – e crédulos e sonhadores- de um comportamento social mínimo para um saudável convívio em sociedade não saiu de férias. Mudou-se definitivamente para outro lugar.

 

E o preço que o país continuará a pagar será a continuada crença de que o próximo político será um salvador da pátria, um redentor do progresso e um mágico da esperança.

 

 

Jean Menezes de Aguiar / OBSERVATÓRIO GERAL

 

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Categorias:Política

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