Semana LGBT e o amor

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‘Deu’ no rádio hoje que esta semana é a ‘semana LGBT’. Interessante o alargamento malandro, ou comercial, dá no mesmo, de se esticar o que seria um dia no ano que marca uma data, para uma semana. A criatividade é ótima. Podiam fazer o mesmo com, então, a semana da criança e semana do professor.

 

Na semana dos gays, lésbicas e genericamente conexos, talvez um fator continue pouco explorado. É a ‘possibilidade’ do amor, e não somente do sexo.

 

Conservadores e fundamentalistas em geral ainda ‘se incomodam’ com a fenômeno da homossexualidade humana. Quando são questionados ou expostos, juram que não é um ‘incômodo’. Pode ser.

 

Nesse obscurantismo mental, inventaram travas religiosas, condenações morais, repulsas sociais e até curas milagréticas. Para esses a cena de um homem fazendo carinho noutro homem, ou as meninas, é ‘pouca vergonha’. Repare-se que na sociedade machista, muitos desses gostam de ver a mesma cena entre mulheres.

 

O tosco em geral não consegue imaginar 1) o direito que cada um tem de ser como quiser, 2) ninguém ter o direito de se meter na vida dos outros. E, ainda, e um terceiro fator. Sim, ele: o amor.

 

O moralismo patrulhador aplicado sobre o pessoal LGBT ‘evoluiu’ na canalhice. Passou a utilizar um fundamento covarde que, em cabeças primárias, convence. Não basta mais dizer que é ‘pouca vergonha’. Agora virou doença que pode ser curada.

 

A patologização dos fenômenos gay, travesti ou prostitucional é desonesta, infamante e representa uma atrocidade social, típica de países atrasados, gente atrasada.

 

Este enfoque viciado – seja pelo reducionismo de tudo a um sexo promíscuo, ou pelo viés da doença e a sua desonestidade deística da ‘cura’- atropela a poesia do amor, expondo somente a truculência ideológica dos conservadores que não conseguem enxergar o amor-diferente-no-outro-em-paz.

 

Sim, gays e lésbicas amam. Simples assim. Amam, se encantam, se enamoram, se seduzem, brincam, querem dar beijinhos, fazer carinhos, brincar e viver o amor que explode em toda-e-qualquer-pessoa.

 

Aqui o texto chega ao ponto que importa. O amor. Soberano em sua inultrapassabilidade em sentir; ditatorial em sua forma claríssima de ser percebido; complexo com sua riqueza de emoções, sensações e prazeres; e totalmente simples na forma democrática e maravilhosa de ‘afetar’ qualquer um.

 

Não enxergar o amor na relação LGBT e querer que tudo seja ‘pouca vergonha’ ou doença, é a violência máxima que um egocentrismo ideológico tacanho pode querer. Ou um cinismo eleitoreiro bolsonarista. A terceira via seria do mamífero conservador não ‘saber’ o que é amor. Aí talvez conseguisse até algum perdão mundano. A ignorância nem santa é, é apenas ignorante.

 

Uma especial Geórgia, que tem incontáveis amigos gays, outro dia, estava irada com ‘uma bichinha dando piti existencial-confirmatório de sua condição’, como ela falou. A ‘revolta’ da bela com o gay era no sentido de que eles não precisariam mais se afirmar, porque tudo já se normalizou. Talvez este seja o sentimento que exista no coração dela, ou sua simpatia pela causa. O fato é que ainda há cepas sociais gravosas contra a rapaziada.

 

Se ‘algo’ pode ser invocado nos corações dos conservadores, sem um mísero pingo de pieguice, que pudesse ter algum efeito para mudança de avaliação – sonhar pode-, talvez fosse o amor que efetivamente existe nas relações gays, como existe em qualquer relação.

 

Pessoas têm seus hábitos, condições, modos, culturas, preferências, gostos, tragédias, virtudes, maravilhas e … amores. Todos têm e todos são assim. E uma advertência apressada se aplica aqui: ninguém pode se intrometer na relação de ninguém, havendo ou não amor. ‘Como’ alguém se relaciona, com quem ou com quantos, é problema de cada um. Apenas o amor é um dos fatores e aqui é o que se quer lidar.

 

O amor é ditatorial porque não vê cor da pele, sexo, idade, tipo de parceiro. Não quer saber. Ele arrebata e purifica qualquer relação. Não há leis, tribunais, deuses e polícias que o vençam. Nunca houve. A história do amor certamente ajuda a explicar a própria história existencial humana. O mesmo amor entre homem e mulher será, obviamente, o de um casal gay. Amor é amor, seja lá o que isso for.

 

Na Filosofia o amor é comparado a uma forma de caça (O Sofista) – melhor seria na Poesia-. É um deus poderoso. Tem 3 modos: o do corpo, o da alma e uma mistura de ambos (Leis). Pode ser ‘mau’ – o amor do corpo-, ou ‘legítimo’ – o amor da alma-. Já para Freud ‘Se amo alguém, ele deve ser digno desse amor’. Veja que mesmo no lado ‘feio’ do amor, ele é lindo e maravilhoso.

 

A conclusão é um questionamento irrespondível: como alguém pode se intrometer no amor dos outros?

 

Dois elementos entram em cena aí. Moralismo e prepotência. Moralismo para inventar um valor, como todo valor social, próprio ou imitado, e ‘ter a certeza’ que ele é o correto. Sem qualquer sombra de dúvida, o moralismo exagera em tonalidades obscurantistas e atrasadas. E prepotência para querer obrigar o outro ao valor próprio.

 

Uma saída para a ‘dificuldade’ dos conservadores e patrulheiros das relações alheias que não toleram o amor entre pessoas do mesmo sexo é a fraternidade, a gentileza e a poesia. Imaginar que qualquer um ama, se apaixona e quer mimar o ser amado. Essa ‘fraqueza’ chamada ‘amor’ nenhuma lei, governo ou deus conseguiu deter até hoje.

 

Para felicidade da humanidade.  Liberdade ‘meninas’ e ‘meninos’ do LGBT.

 

 

Jean Menezes de Aguiar / OBSERVATÓRIO GERAL

 

 

[Artigo republicado no jornal digital BRASIL 247]

 

 

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