O preço da democracia

A evolução social mostrou, em todo mundo, que a democracia é o melhor regime político existente. Tanto nos aproximadamente 145 países democráticos, como, por comparação, nos, ditatoriais ou religiosamente fundamentalistas.

O filósofo Jürgen Habermas, na obra A Nova Obscuridade, ensina que ao lado do Estado constitucional democrático, estão as instituições do Estado do bem-estar social, como duas faces da ‘onda de desenvolvimento do sistema político em relação ao qual não há nenhuma alternativa reconhecível em sociedades do nosso tipo.’

Não há ‘alternativa’ à democracia, mas é possível criticá-la. Principalmente num país como o Brasil em que parte considerável dos políticos é atrelada a algum analfabetismo político, do tipo sugerido por Brecht ; uma bancada fundamentalista insiste no atraso de religião oficial; grande camada da sociedade autoritária e sem princípios básicos humanistas, defendem torturadores, AI5 e fechamento de Poderes; e uma cultura de corrupção oficial com dinheiro público, inclusive travestida de salários nababescos triunfa.

Um detalhe do funcionamento democrático, no geral, chama atenção, que no Brasil se potencializa em tragédia.

O The Economist, em edição de 6/11/2020 mostra que a eleição americana de 2020 custou o absurdo de 13,9 bilhões de dólares. Em publicidade.

Um filósofo perguntará: 13 bilhões de dólares ‘para quê?’ O questionamento não é óbvio. Por que um país que já é democrático – até a semana passada não havia dúvida-, torra essa fortuna bilionária, tendo graves comprometimentos na saúde, educação, drogas etc., há décadas?

Não adianta uma resposta superficial ou oficialesca dizendo que esse dinheiro bilionário é o custo para se manter o ‘primado’ da democracia.

A democracia é importante, ponto. Mas há um paradoxo aí. Para os países ocidentais já culturalmente democráticos, esta importância é óbvia desde sempre. Não se precisa mais ‘defender’ a democracia. A questão é: seria necessário um gasto monstruoso, bilionário para a tal ‘festa’ da democracia? Em países como o Brasil, essa tal ‘festa’ sempre escondeu sumiço de dinheiro público, a rodo.

Países com controles financeiros eficientes a gastos de campanha, como nunca foi o caso do Brasil, já relatam escândalos, sejam em modelos diversos de gasto público, privado ou misto. Em França, com financiamento exclusivo público, houve escândalo financeiro na eleição de Sarkosy. Já os Estados Unidos, com a maior parte da verba do setor privado e uma agência independente, a Federal Election Commission (Comissão Eleitoral Federal, ou FEC em inglês), só para fiscalizar o assunto, vez por outra tiveram problemas.

Imagine-se agora- e sempre- na promiscuidade brasileira com fundo partidário.

A literatura especializada mostra que a burrice humana, além de ser um fato que muitos querem negar, pode ser cruel, odiosa e assassina, conforme o livro A Persistência da Burrice, do filósofo Marco Casanova. O fato de boçais norteamericanos terem invadido o Congresso dos EUA, chegando a provocar a morte de 5 pessoas, só mostra que a estupidez política não é patrimônio de uma ou outra sociedade.

Claro que neste último Brasil parido há 2 anos, chega-se a um tipo formidável de burrice, apoiando-se ditaduras e AI5, movimentos próprios de um atraso social; discutindo terraplanismo, aquecimento global, OMS, cloroquina e validade de vacina, negação patética da ciência. Mas ainda há o pior: não se conseguir perceber criticamente, quando se está à frente de uma criatura com dificuldades intelectivas, com uma vida neuronal em distúrbios, externando um tipo de boçalidade agressiva e perigosa porque contagiante de toda uma horda de gente mais ou menos igual. O exemplo mundial disso foi Trump, mas outros há, lógico. Inclusive os provincianos deste Brasil nada inusitado.

Estas manifestações humanas – invasão ao Congresso dos EUA, negacionismo a vacina e outras estupidezes noticiadas-, não pertencem à democracia ou a uma malandra e alegada de plantão ‘liberdade de opinião’. Isso faz parte da tragédia humana, ensinando o filósofo Arthur Schopenhauer que ‘não devemos lutar contra a opinião de ninguém’. Chegar-se-ia à idade de Matusalém sem se conseguir mudar a mente não esclarecida.

Com o radicalismo próprio dos estúpidos operosos, ou seja violentos, estima-se que a democracia fique ainda mais em xeque. Sempre haverá os que quererão que campos de concentração, racismo, morte aos inimigos ideológicos e negação da ciência possam ser coisas normais da democracia, ou, de uma tal ‘liberdade de expressão’.

Barreiras mais eficientes e corretamente próprias da evolução democrática ocidental terão que ser levantadas a favor dos chamados ‘núcleos duros sociais’, conquistas históricas sedimentadas, verdadeiros núcleos intangíveis que não podem ser afetados, sob pena de os bilhões de dólares gastos com as tais ‘festas da democracia’, não adiantarem nada. O símplice, o que só sabe ver de uma maneira – a sua-, não pode vencer.

Jean Menezes de Aguiar.

Artigo republicado no Brasil 247



Categorias:Política

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