
Digressões irresponsáveis, não muito mais que isso.
Os possivelmente chamados pensamentos sistêmico, lógico, científico, racionalista, filosófico, histórico, paradigmático, matemático, disjuntivo, multidimensional e outros, saídos ou não de uma generalidade filosófica, têm traços funcionais e substanciais em comum.
Minimamente organizam diferenças; classificam e hierarquizam valores, funcionalidades e sistemas; utilizam estudos e teorias; ponderam e criteriologizam princípios e conceitos, tanto de alguma ciência, quanto de uma cultura, ou mesmo relativos a dados empíricos; metodologizam itinerários científicos necessários.
Mas chegar a tal possibilidade, intelectiva e compreensional, não é tarefa simples para o agente e requer uma boa formação.
Diferenças como sabedoria, conhecimento e informação, e a consciência do complexo, como incômodo – em Morin (Introdução ao Pensamento Complexo)-, justamente porque não fragmentado, não compartimentado e não redutor, são traços de uma cabeça potencialmente produtora ou avançada. Possibilitadora tanto de ineditismos evolucionais, mais ou menos esperados, quanto disruptivos de uma linearidade epocal – a coisa poética da ‘linha do tempo’-, absolutamente surpreendentes.
Porém, cada vez mais, uma inteligência superior, humana, parece não ser a regra, ainda que sempre se tenha trabalhado com a coisa da massa, humana, em dificuldades inteligenciais. Não são poucos os pensadores que registram nítida atrofia cognitiva numa atualidade, ou mesmo uma gravosa persistência da burrice, parafraseando a ótima obra do filósofo Marco Casanova.
Assim, com a exigência de pensamentos menos primários, até minimamente para alguma nova complexidade da vida, que seja, a situação se torna ainda mais crítica com a IA – aqui, quer-se que ela seja, verdadeiramente, revolucionária-. Imaginando-se um então novo – mais um- conceito de analfabetismo aplicado, no caso, às demandas de compreensão do manuseio para com a IA.
Parece que com uma oferta assistemática e em certa medida entrópica de dados, produtos, objetos, valores e conceitos tecnológicos – por todos a IA-, a grande demanda venha a ser, paradoxalmente, uma cabeça humana necessariamente melhor organizada. Não somente para não se iludir com resultados que exijam crítica, sopesamento e juízos complexivos, mas para se funcionalizar como um agente epistêmico de uma [nova] viragem cultural, e, efetivamente, se ver como operador do método – aquilo que Carl Sagan (O Mundo Assombrado Pelos Demônios) dizia ser mais importante que a descoberta-.
Alguém poderá dizer que, a rigor, não há novidade com a IA, mas apenas futuro, um desconexo e abrupto. E, por outro lado, como ele é incerto, ele mesmo acabou gerando a IA. O problema é que ela lateraliza, numa marginalidade qualitativamente inédita e imprevisível, para um modelo ao qual a mente humana até consegue acompanhar – por ser infinita (…), mas não foi educada para isso, e sim para uma linearidade presumidamente futurizada em que à evolução do conhecimento se esperavam descobertas evolutivas, e não inesperadas. Tem-se aqui aquilo que Adorno (Dialética Negativa) registra como a filosofia podendo errar constantemente e só por isso conquistar algo. Assim, será exigido um paralelismo metodológico-epistêmico que tanto produzirá conceitos e mecanismos funcionalizantes, como planejará resultados desparametrados e assimétricos, mas totalmente necessários, e válidos.
O fato de a IA poder ser considerada, em similitude, relativamente à mente humana, uma concorrente pensante, e não apenas um grande banco acumulador de dados que apenas cruze possibilidades com rapidez, representa um fator que a própria mente humana precisa recepcionar, não apenas funcional, mas existencialmente; não pela novidade apenas, mas pela heteronomia à mente humana, aí qualificada com o resultado que a IA trará ou produzirá. Um colega da FGV, professor, me adverte, todavia, que a IA é estatística, e não determinística, o que complica muito mais o pensar sobre ela, e certamente confirma algumas irresponsabilidades do texto.
Relativamente aos conceitos funcionalizantes, há, por exemplo, a surpreendente revelação médica, há poucos meses, feita no maior congresso de oncologia do mundo, nos Estados Unidos, em que foram apresentados modelos de IA capazes de detectar o câncer em exames de tomografia computadorizada, entre um e três anos, antes mesmo de a possibilidade ser conhecida clinicamente, ou visualmente. Alguém dirá, não pare o mundo porque eu não vou descer, nem a pau!
Mas sobre resultados assimétricos, são possíveis novidades sequer dimensionadas, para o modelo cultural de vida ‘atual’ que, então, como método de obtenibilidade, advirá o novo, numa inversão desconcertante. É como se a inversão desvirtuasse a ordem, operando não do método para o resultado, mas de um resultado, então inusitado, para um então método que terá que ser descoberto para que aquele resultado possa ser concebido. Não se tratando de uma relação metodológica aporética, mas de uma nova ordem que obrigará um novo pensar humano.
Para essa ideia, em que o paradoxo se desparadoxiza, e o resultado se torna promissor exigindo, entretanto, um método prévio – legitimador-, mas aposterístico ao próprio resultado, a ser descoberto, cabeças pensantes em um tipo novo de plenitude serão exigidas. Plenitudes próprias de uma geometria pensante outra, que não se furte a atender ao conceito filosófico de absurdo – o que subverte a lógica-. Para sorte do humano, o pensar é (…) infinito.
Como não há mecanismo que suplante a possibilidade da mente humana, o ato de pensar manterá sua soberania, na supremacia em relação à IA, o que não chega a representar um conforto para os usuários da IA, mas uma certeza que as possibilidades de razoabilidade, compensações e imaginação ainda não foram superadas, e dificilmente sê-lo-iam.
De toda sorte, o profissional que quiser utilizar em estágio avançado a IA – e não só ela, mas, sabidamente outros sistemas complexos já existentes, e aqui se aproveitam-se experiências anteriores para uma comprovação de que novos parâmetros lógicos ou inteligenciais sempre demandaram cabeças mais preparadas-, não poderá prescindir de uma formação verdadeiramente avançada, não somente em relação a uma clássica linearidade metodológica, ordinariamente exigível para as ciências em geral, mas também quanto às efetivamente complexivas.
Assim, meramente a título de um pensamento continuísta ou organizatório, o futuro evolucional – ressuscitando-se um ingênuo conceito de progresso-, não foi alterado pela IA, que, como objeto ou descoberta historiográficos, se mantém, já que não se destruiu a história, mas, o que ele propiciou com a IA, aí sim, se mostra absolutamente inédito.
Ineditismos sistêmicos gerais sempre assustaram na trajetória humana, mas tanto a ciência quanto a razão – esta numa consideração não necessariamente feyerabendiana, mas de qualquer modo bem pós-iluminista- já evoluíram um tanto que conseguirão digerir a IA sem maiores turbulências. Pelo menos esta é a esperança.
Jean Menezes de Aguiar
Categorias:Filosofia

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