A crise do “agravismo”

 vida em paz

Vive-se um tempo em que tudo precisa ser agravado para satisfazer à sanha consumista de vingança, ou exagero, ou qualquer sentimento que não aceite as coisas como elas muitas vezes são ou foram. Têm que ser pioradas.

Não chega a ser uma teoria da conspiração, mas bem pode ser uma cria dela. Há pessoas que adoram mistérios, suspeitas, fatos ocultos a serem descobertos. Muitas vezes eles há sim. E somente mentes acostumadas a não aceitar o dado primário é que conseguem ler fatos sociais e intenções camuflados. Mas noutras vezes é o agravismo o responsável pela bobagem de se deturpar para pior um cenário.

Boa parte da imprensa passou a trabalhar com 5 conceitos: medo, pânico, caos, escândalo e terror. Assim, o índice da bolsa de valores não cai mais, agora desaba. Um acidente de carro envolvendo dois motoristas amigos voltando de uma festa na mesma direção terá que ser um pega e não uma fatalidade. A separação conjugal de atores famosos certamente envolverá uma traição. E por aí vai.

Antigamente talvez houvesse uma parte menor da sociedade que gostasse de “beber sangue”. Hoje em dia parece que esta sede aumentou desproporcionalmente. A sociedade da reclamação e da pressa se nutre de reclamação e pressa, como se fosse um alimento vicioso. Esta mesma sociedade, da intolerância no espaço público, conforme estudado por Marilena Chaui, também consome intolerância.

Quando pessoas se aglomeram na porta de um Tribunal do Júri e gritam, com aquele ódio na voz a palavra “justiça”, não pedem justiça, que é o produto final e equilibrado de um processo judicial, refletido e sentenciado. Querem dizer condenação, justiçamento. Talvez linchamento. É o agravismo.

Um poeta ou um filósofo, um sereno qualquer ou um monge certamente olharão para esta sociedade e sua patologia com tristeza. Perguntarão de onde veio esse modo de vida agressivo, vingador, ofensivo e prazerosamente desacatante ao outro. Apenas porque é o outro. É claro que aí há terreno fértil para o preconceito e falta espaço paras as diferenças, para a poesia, o romantismo, a gentileza, a delicadeza e o amor.

O filósofo alemão Jürgen Habermas, na obra Era das transições, abre questionamentos graves. Adverte: “o capitalismo não pode mais ser domesticado”. Então ele é selvagem e o que é assim não deveria ser bom para o ser humano. Não é. Entrou em cena o lucro e saiu o próprio homem. Outra lição do pensador é a de um “excesso inflacionário de modernização econômica”. A praga da pressa da modernização a qualquer custo. Certamente por isso o filósofo prossegue: “os mercados são surdos, só ouvem a linguagem dos preços” e “o trabalhador é o perdedor no mundo globalizado”.

Certas tragédias parecem ser códigos entre estudiosos e intelectuais. “Falham” estes quando não conseguem uma pedagogia eficiente para transmitir as lições às massas. Talvez este agravismo, sintoma de se querer tudo de forma piorada, seja apenas mais um tipo de consumismo parido pela selvageria de um mundo que busca bens cada vez mais caros e modernos. Aí pode estar a psicanálise do “mais”. Muitos vão querer versões e histórias mais agravadas.

Isto chega às relações familiares, de amigos e de amantes. Mas também chega aos manifestantes que não se bastam mais em gritar, precisam depredar e incendiar. Chega aos criminosos que perdem a “poesia” do batedor de carteira ou do assaltante com um 32. Agora precisa de um fuzil de assalto com bala traçante para proteger a boca de fumo.

Os salários públicos de “autoridades” foram agravados para a estratosfera com mordomias indecorosas nas últimas décadas. A corrupção e a mentira oficial foram. A falta de ética e compostura públicas também. O antropólogo Roberto da Matta ensina que o país sempre foi regido pela desonestidade oficial, nos postos públicos de mando. Haveria aí uma cepa antropológica brasileira de sem-vergonhice com o dinheiro público. Mas, de novo, nos últimos 50 anos a história vai mostrar escândalos e corrupções de centenas de milhões. Nada igual na história.

O astrônomo americano Carl Sagan, relata em seu livro “Bilhões e bilhões”, pouco antes de morrer, que quando era jovem o máximo que se falava era em milhões. Em seu fim, tudo passou a ser bilhão. O fenômeno do agravismo não é brasileiro. Mas quem quiser pode manter um olhar de total desconfiança para ele. Aí talvez esteja o caminho da lucidez e da inteligência.

Não se trata de uma leitura desenxabida ou insossa do fato social. Nem de análises obedientes ou primárias a uma ou ideologia embriagada. Ao contrário. A verdadeira esperteza e inteligência pode estar na difícil arte de separar o fato da versão. Numa manchete de jornal, numa notícia de TV, numa conversa de vizinhos.

Tornamo-nos seres agravados, piorados e, como se anuncia por aí “viciados em adrenalina”. Como se isto fosse bom, saudável ou emocionalmente são. O professor passou a ter que dar shows em vez de uma aulas. O jornal que tinha 1 furo por dia foi suplantado pelo site com 2, ou pelo blog com 3. O cientista político americano Fareed Zakaria diz em seu livro “O mundo pós-americano” que se vive uma hipérbole da notícia agravada, à qual vende insegurança a cada minuto, mas o mundo nunca esteve tão seguro como atualmente. O problema começa quando não aceitamos a boa notícia, só a ruim. Esta parece ser a grande droga do século 21, o crak da vida em sociedade. OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo republicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS, GO – Jean Menezes de Aguiar]

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