O desserviço do eleitor radical na democracia

Oscar Wilde

Todo radicalismo é bastante imbecil. A História bem o demonstra. Vesgo, não enxerga coisas lógicas nem sabe sopesar valores. Surdo e obnubilado, não ouve com interesse nem sabe aprender, evoluir. E mentalmente tosco, não consegue refletir, acessar um nível mínimo de inteligência que o salvasse da teimosia violenta, da intolerância. Este é o triste e difícil ser humano radical. Uma ‘opção’ para lá de discutível.

O uso teórico do radicalismo como método político e social, sem considerar sua forma mãe mais boçal e violenta – a religiosa -, aparece, historicamente, na política de esquerda. Assim foi com o Individualismo incondicional e o antifederalismo dos conservadores americanos, identificados como direita radical. Originariamente, na Inglaterra data de 1640 com a facção dos Levellers, na Guerra Civil, defendendo a soberania e os direitos populares dos ‘ingleses livres’.

A eleição de 2014 no Brasil possibilitou a triste identificação do eleitor radical ligado ao PSDB. E claro, com suas diferenças visíveis ao seu colega, o radical do PT. Um traço metodológico se apresenta alvissareiro. Talvez pela análise do radicalismo no eleitor se consiga traçar análises das diferenças PT-PSDB.

Uma palavra parece ser a chave teórica na diferença: ‘classe’. Não propriamente o conceito bipolarizado de ‘luta de classe’ em Marx e Engels, basicamente do Manifesto Comunista, 1848. Mas um outro, bem mais elástico, o de Max Weber, aceitando variações, por exemplo ‘oportunidades na vida’, e divisões, por exemplo ‘status’ e ‘poder’. A classe em Weber seria um estudo mais contemporâneo.

Seria simplismo querer o eleitor do PSDB rico e o do PT pobre. Ainda que o que se tenha visto em São Paulo capital, em grande parte, tenha sido mais ou menos isto. Como sê-lo-iam as divisões que meramente levassem em consideração este fator, o econômico. Mas há que se reconhecer, sem farisaísmos ou hipocrisias, que a via de atração para esta vala – a econômica – é fortíssima. Grandes teóricos da atualidade brasileira como Marilena Chaui continuam aceitando a ‘classe’ como elemento fundante e explicador.

Lobão disse que se Dilma Rousseff vencesse sairia do país. Aí está um radicalismo intelectualmente pueril. Quase bambi. Toda aquela cara de ex-menino-mau, agora já velhusca e chapiscada por cabelos brancos, mostram um lobo de dentadura perdida. Mas ele já se corrigiu: disse que não vai abandonar o país. Que bom.

Se esse radicalismo-mídia é amador, até porque Lobão não é mentalmente interditável, atitudes assim estimulam ódio em verdadeiros acéfalos de plantão. Como se houvesse uma ditadura ou um Estado totalitário, coisas tecnicamente absurdas de se falar. Tem-se uma democracia plena e, admita-se, amadurecida.

Gostar ou não gostar do PT ou do PSDB é um direito de cada um. Nem se trata de ‘patrulhar’ os radicais. Cada um que seja o que quiser. Mas certos conceitos jurídicos, sociológicos ou históricos não podem ser deturpados. Será ignorância, dos imbecis; ou cinismo, dos canalhas.

Qual o problema do radical? Aceitando-se só teoricamente a polarização, o radical do PT, por exemplo, quereria excluir o do PSDB do cenário democrático, vendo-o como inimigo que precisa ser extinto. Um erro de intolerância crasso se consideradas as democracias evoluídas e estabelecidas. Saber coabitar com o ‘outro’, é aceitar as diferenças. Já o radical do PSDB faria de tudo para imprestabilizar a governança do PT e a própria paz social, inclusive utilizando métodos pedagógicos de ensino deturpado a crianças e novas gerações.

Fica o Brasil esquecido, em último lugar, nesta guerra de radicais e seu messianismo portátil. Para estes não é o Brasil que importa, mas a derrota do outro, o aniquilamento do ‘inimigo’. Algo como torcidas beócias de futebol matando-se mutuamente.

O radical não se atém ao problema, mas inventa um adversário. O Estado brasileiro continua imerso em problemas. O de décadas: sua vocação interminável para a desonestidade com o dinheiro público. ‘Autoridades’ cínicas assaltando o erário inventando auxílios moradias larápicos e esbórnicos, zombando do mundo, sabendo que a sociedade não se levanta. Ora, cadê os ‘radicais’ que não teorizam, não criticam, não reagem?

O radical é um estopim de ignorância, não presta para nada. É um cachorro que se tirar a focinheira morde qualquer um e ao dono só sabe lamber. O PSDB mostrou seus eleitores radicais agredindo e humilhando pela mão do poder financeiro; uma intolerância perversa para com pessoas humildes. Esta gente, radical, seja de que partido for, ainda precisa melhorar muito. OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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2 respostas

  1. Excelente texto!
    “O Estado brasileiro continua imerso em problemas. O de décadas: sua vocação interminável para a desonestidade com o dinheiro público. ‘Autoridades’ cínicas assaltando o erário inventando auxílios moradias larápicos e esbórnicos, zombando do mundo, sabendo que a sociedade não se levanta. Ora, cadê os ‘radicais’ que não teorizam, não criticam, não reagem?”.
    “Esta gente, radical, seja de que partido for, ainda precisa melhorar muito.”.

  2. Oportunissa análise. Precisamos nós lúcidos brasileiros.

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