Comunismo, anticomunismo. Petismo, antipetismo?

Karl-Popper

O filósofo [Sir] Karl Popper (foto), aos 89, foi entrevistado por Giancarlo Bosetti. Na obra ‘A lição deste século’ há duas conversas graves. Liberdade e estado democrático. Popper foi um crítico de Marx e do comunismo. Deixou um ‘ideal’: um socialismo combinado com liberdade individual, numa vida modesta, simples e livre em uma sociedade igualitária. Já velho confessou que levou anos para reconhecer a impossibilidade deste ‘belo sonho’.

Também disse o mestre que para a existência da ideologia marxista e do regime comunista houve a necessidade de uma ideologia antimarxista e anticomunista que, todavia, se enfrentaram durante décadas, sabendo-se que ‘estavam ambas em certo sentido completamente fora de controle’ (trad. livre).

O ponto está aí. Será que há uma ‘ideologia petista’ e um ‘regime petista’? E será que há uma ideologia antipetista? Nesta eleição de 2014 se falou muito em ‘antipetismo’. Por esta síntese de única palavra, haveria o ‘petismo’ como dado orgânico.

Repare que o PSDB, tudo bem que murista, de muro, continuou por anos no poder estadual e não se fala em ‘peessedebismo’ ou ‘tucanismo’. O PSOL disputa a presidência e não se fala em ‘pesolismo’. Mesmo o idoso, e híbrido, PMDB, não há um ‘peemedebismo’.

O certo é que parece haver um tônus ideológico ou sistêmico no Partido dos Trabalhadores que cria o tal petismo. O problema é saber se esse ‘petismo’ é uma ideologia a ponto de se falar em antipetismo.

A palavra ‘ideologia’ atrai críticas. Seria um sistema de ideias e crenças que busca explicar uma visão sociopolítica. O termo vem do Iluminismo, século 18, significando ‘estudo das ideias’, denotando que ideias devam ser estudadas cientificamente. Esta a concepção originária de Marx na obra A ideologia Alemã (1845). Mas o conceito passou a ser desprezado por marxistas e não-marxistas. Viram nos conceitos de ‘classe’ e ‘economia’ os únicos fatores determinantes de valores culturais.

Uma coisa não pode ser confundida. A posição ideologicamente contrária ao PT, por mais radical e extremada que seja, não tem força de, por si só, ‘criar’ o petismo. Não é o antipetismo que cria o petismo. Se se concluir haver o antipetismo é porque o petismo é uma realidade. Mas ser ‘realidade’ é o quê? De novo, não basta estar no poder vitoriosamente, o PSDB esteve.

Três razões histórico-sociológicas. A primeira, o PSDB não teve em 1990 o poder de causar uma ruptura com a curta pós-ditadura que vigeu entre 85 e o início do governo FHC. O governo tucano foi socialmente ‘comportado’. Teve o plano real, e 20 anos depois vive deste troféu único. A segunda, o paradoxo Lula quebrando um estamento formalista da presidência da República com seu saber pessoal ‘apenas’ mundano, prático, não diplomado, mas sobretudo não burguês. Aí uma grande ruptura. A terceira, uma gestão voltada para um atendimento nitidamente social, com uma cara nunca antes vista no país.

O furor dos dois últimos fatores propiciou um ódio vitalício virulento em boa parte da elite brasileira. Esta gestação odial não é um fator teorético a ser manipulado apenas para compreensão de divisão de classes. É uma realidade nova, chamada ‘social’ (de verdade) que a cultura brasileira em seus mentirosos séculos não tinha ideia de o que fosse.

Talvez o PT não tenha querido criar uma ideologia petista, como Marx teorizou as leis sobre o funcionamento do modo de produção capitalista: a lei do valor, a da mais valia, e a da baixa tendencial da taxa média de lucro. Mas no caso brasileiro, o simples fato de a semente petista ter saído não de reuniões de políticos ou teóricos, mas do povo historicamente posto de lado, teria sido o suficiente para que uma ‘ideologia’ se formasse. Um estamento popular, se é que é possível a junção dos dois conceitos.

Se Lula se tornou ‘inatacável’, como se percebeu na eleição 2014 com todos os candidatos morrendo de medo dele, dentre outras coisas por uma simpatia-malandragem, Dilma arrostou antipatias figadais. Aqui talvez a psicologia social autorizasse a compreensão de que Dilma possa não ter ajudado a criar um petismo, mas a hipertrofiar um antipetismo.

Não é vantagem o Brasil não formar escolas de pensamento ou ideologias partidárias próprias. Ou continuar num hibridismo cínico. Pensadores da esquerda não têm dificuldade em separar uma que seria esquerda geral, do PT. Para estes haveria o petismo como um dado próprio. Talvez não como uma ideologia ou escola classicamente concebida. Mas, acompanhando uma onda social gigantesca, apenas ‘o petismo’, fático, mundano, minimamente real. Se é assim, o antipetismo passa também a ter uma cara, ou cultura própria

A se manter este cenário plural estima-se uma riqueza maior nas próximas eleições. Haveria a esquerda, a direita, o centro, os híbridos e aproveitadores, o petismo e o antipetismo.

O importante não é o conceitualismo de se querer dizer o que é o petismo, mas se buscar esta percepção social. Talvez aí estivesse um bom início para se compreendê-lo. E a seu contrário. OBSERVATÓRIO GERAL.

 

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1 resposta

  1. “Dilma arrostou antipatias figadais. Aqui talvez a psicologia social autorizasse a compreensão de que Dilma possa não ter ajudado a criar um petismo, mas a hipertrofiar um antipetismo.”

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