Por que Lula convoca a esquerda agora?

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A esquerda atual no Brasil não tem se afirmado por meio de qualquer plano ideológico, seu grande serviço social tem sido conter forças conservadoras e intolerantes.

O governo Dilma Rousseff, e mesmo o de Lula, precisaram de fartos concertos com uma direita plástica e híbrida, por todos, o PMDB, para conseguir governabilidade. Isso expõe a dificuldade de um conceito minimamente ‘autêntico’ em termos de esquerda.

Por outro lado, conceitos de ‘esquerda’ e ‘direita’ passaram a ser amálgamas da possibilidade. Existem e continuarão sempre a existir na medida de um possível fático, prático e mínimo. Jamais estudiosos deixarão de usar a díade, como ensina Norberto Bobbio, em seu famoso livro ‘Direita e esquerda’. Sabe-se, entretanto, que o purismo, as ‘igrejinhas’ teóricas e correntes extremadas, não existem mais.

No Brasil prático da vitória-raspão de Dilma e simetricamente quase-vitória de Aécio, as dificuldades passaram a existir para ambos. Com obrigações opostas, uma de governabilidade, outra de oposição. Nesta interface reaparece Lula sinalizando 2018 e invocando uma reorganização imediata da esquerda. Mas se o Partido dos Trabalhadores venceu, por que essa necessidade?

A vitória reeleitoral de Dilma, justamente com um escore apertado, provocou o sabor de forças direitistas. Mais, reacionárias e efetivamente golpistas.

Essas forças que estavam sepultadas, efetivamente envergonhadas pela democracia pós-ditadura se levantam. Rejuvenescem-se na figura de um general Newton Cruz padrão-2014: o ex-capitão Bolsonaro. Até no jeito mentalmente borolado de se expressar.

Os demônios históricos da uma ditadura-2014 sonhática se levantam e rugem, pelas mãos de uma direita no Brasil que há décadas praticamente não existe. Pelo menos como mínima organização teórica social. Mas a história de ultraconservadores e pós-nazistas [ou seriam ‘pró’?], ávidos por tomar o poder por meio de golpes é conhecida.

A reorganização da direita e da esquerda é boa para qualquer democracia. Essa pujança jamais é ilegítima. Apenas a direita precisa se modernizar em valores. Deixar de insistir em preconceitos e ódios reativos funcionais como munição. Direitas radicais assim sempre surgiram e fizeram alguma marola, seja na França, na Alemanha e noutros países. Mas nunca passaram de marola.

O risco brasileiro é, pelo antipetismo e sua virulência midiática que não é pouca, que valores sabidamente atrasados, invocados por essa direita débil, consigam voltar.

A Constituição de 1988 representou um espetacular avanço mundial para o país. É claro que figuras tolas da direita como Collor e Sarney disseram que o país ficaria ‘ingovernável’. Já Ulysses Guimarães a apelidou corretamente de Constituição Cidadã. Passadas as décadas a Carta se confirmou num padrão internacional ótimo e respeitado.

Perderem-se os valores conquistados, de harmonia social, tolerância nas diferenças, compensação nas discriminações, aceitação de novos modelos pessoais ligados a sexo e liberdades, como defende essa direita truculenta em nome de uma tal ‘família’ – um uso do termo viciado e estigmatizado por esse Fidelix-órgão-excretor e simpatizantes, seria um desastre, um retrocesso.

A direita, repita-se, é legítima e até necessária, no caso atual, como oposição. Este jogo dialético de forças sempre compôs a democracia e se lhe é vital para a sobrevivência. Mas ela não pode ‘mais’ invocar valores retrógrados de desagregação social contra minorias e necessitados. Se isto parece um discurso vazio, salva-se por ser principiológico. Talvez o único tempero que consiga frear a ânsia reacionária de uma direita plantonista e violenta.

O país perder a paz democrática em nome de ‘propostas’ imbecis como impeachment e outros revisionismos de última hora seria o caos econômico, jurídico e social em todos os planos.

Cínicos da direita sabem disso. Apostam no caos para depois ter direito à xepa social que sobraria, prometendo consertos e milagres. O problema é uma massa de inocentes úteis que não percebem a manobra. Alguns criando clubinhos reacionárias online com flâmulas e escudos. Um modelito que lembra os idos mundiais do final de 1930 com aquele então desastre anunciado. Jean Menezes de Aguiar / OBSERVATÓRIO GERAL.

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Categorias:Cidadania online

1 resposta

  1. O Lula e mais uns quantos dos mais variados quadrantes políticos, deveriam eram ter Ética e Moral para se retirarem definitivamente da política ativa.

    Um ano 2015 pleno de prosperidade!

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