Sergio Moro é reflexo da sociedade intolerante – viva Sartre

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Jean-Paul Sartre

 

Se o juiz federal Sergio Moro tem, como se fala na advocacia criminal, ‘mão pesada’; se vem coagindo réus no limite de sua possível discricionariedade para obter informações e provas, mas violando o instituto da delação premiada e se arriscando a alguma ‘ilegalidade’, é também um reflexo da sociedade.

Esta sociedade que odeia advogados. Vai para a porta dos fóruns criminais em dias de tribunal de júri berrar por ‘justiça’, mas com ódio no olhar e querendo falar linchamento. Esta mesma sociedade que chega a agredir advogados nessas ocasiões, num erro de cruzamento infame em que a democracia e o sistema de equilíbrio processual, a ampla defesa, valem nada. Tudo que importa é o julgamento preconceituoso e apressado dela.

Se o juiz é também um reflexo da sociedade, o juiz da operação Lava Jato sentiu-se plenamente legitimado a oprimir réus para conseguir dados que julgava necessários.

Por ‘sorte’ há um tribunal a lhe conferir e rever os atos. O Supremo Tribunal Federal liberou pessoas que não podiam continuar, jamais, sendo prisionalmente oprimidas para servir a interesses investigatórios policiais e judiciais. Investigação policial não pode ter passado a se chamar ‘grampo telefônico’.

Quem tem um olhar crítico para o Direito sabe que, nesta ‘atualidade’, como se diz popularmente, muitas vacas foram para o brejo. A ciência do direito criou mecanismos sofisticados, mas uma prática embrutecida cuidou de dar roupagens formalistas e polidas, com palavras enfeitadas a atos de injustiça, atos de desídia, atos de relapsidade em que petições processuais são mal lidas, quando são; fundamentos não são verdadeiramente levados em conta e, de novo, advogados passam a ser pessoas detestadas. Processualmente toleradas.

A primeira a odiar advogados é a imprensa. Numa atividade primária de busca e construção de ‘heróis’ a imprensa cede a uma sede ávida da sociedade para lhe fornecer mitos humanos vivos e, em antítese, criar vilões. Tudo virou BBB com paredões sociais. Como se a vida de pessoas que são defendidas por advogados pudessem ser legitimamente julgadas pela opinião pública ou pior, pela opinião publicada.

Quando Sergio Moro ‘aceita’ o prêmio da Rede Globo ele, tristemente, se ‘compromete’, sob uma sutileza comportamental complicada. Não se chega ao ‘nível’ de se exigir do juiz um comportamento como o do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre que recusou o prêmio Nobel. Isso jamais. Até porque um ‘prêmio’ da Globo ao estilo Caras não se compara à importância de um Nobel, reconhecida pelo próprio Sartre em sua ‘carta de recusa’. Mas ‘talvez’ o juiz devesse fugir dos holofotes. Por outro lado, se gosta deles, problema dele, em certa medida.

Na construção de heróis, a imprensa fez Joaquim Barbosa que retribuiu fomentando manchetes com tiradas ao estilo Jânio Quadros. Lançaram-no presidente. Agora é Sergio Moro para tudo, de ministro do Supremo a presidente da República.

Com esta sociedade da pressa, da intolerância e do consumo, a mesma que o sociólogo Zygmunt Bauman diz que o Estado pode até declarar guerra desde que os consumidores estejam felizes, Sergio Moro é um reflexo. E outros tantos quantos venham em escândalos nacionais talvez façam igual.

Num plano mais ‘realista’ e abstrato, a ‘culpa’ talvez seja nossa. Esse vício por heróis. Eles, dóceis e sem uma reativa sartreana, não reagem. Aceitam. Viva Sartre. OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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Categorias:Cultura, Direito e justiça

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