Direita, esquerda, Brasil, PT e devaneios sociais

karl marx

Os conceitos de direita e esquerda numa sociedade como a brasileira, que alguns insistem em ver derrotados, não se alteram substancialmente. Foram e continuam a ser estudados por autores sérios como Norberto Bobbio em sua obra clássica, ‘Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política’.

O Brasil está longe de possuir uma ‘especialidade’ social que conseguisse afugentar o tema. Ou subvertê-lo. Aliás, em países como os que há na América do Sul, com experimentos históricos anormais de ditaduras militares, espumando o pensamento conservador, seria uma tolice se supor ‘vencida’ a díade direita-esquerda.

Ainda no caso brasileiro, a mesma tônica se pode dizer com a vitória do PT representando pela primeira vez a esquerda no poder, com um início muito bem pontuado por Lula, mas uma continuidade inteiramente diferente em Dilma, acentuando-se a ‘outra tragédia’, a de que não basta se pensar apenas na esquerda como milagrosa ou salvívica. O velho sonho de que a esquerda possui a varinha de condão salvadora ruiu. As sociedades são complexas e vivas.

Mesmo assim, e aí a esperança dos intelectuais não morrem, há direitas e esquerdas. Guardados os gêneros ideológicos, os conceitos representam dois grandes guarda-chuvas aglomerando, em cada um dos lados, pensamentos não efetivamente antagônicos, mas alguns visivelmente paralelos.

Interessante que muitos não gostam de se intitular de direita ou de esquerda. Aí estão diversos efeitos ou heranças históricas de um passado relativamente recente em que só se podia dizer o que ‘era’ se coincidisse com o establishment, no caso [militarmente] conservador.

Nesta análise subjetiva do ‘quem é o quê’ há uma diferença importante. A esquerda, muito menor e muito menos ‘vitoriosa’ no mundo, sempre foi pedra. Já a direita, invariavelmente, sempre foi vidraça. Aí começa uma primeira explicação para a gestação do sucesso do Partido dos Trabalhadores iniciada no fim do anterior Brasil oprimido.

Igualmente em outros países. A Polônia de Lech Wałęsa; a Cuba não do Fidel ditador, mas do revolucionário; a Venezuela não do Chaves ditador, mas populista, e outras em que a esquerda conseguiu se estabelecer. Diferencie-se aí, Cuba, em que uma autêntica revolução –direito de todo povo – substituiu a figura regular do voto.

No caso brasileiro, a esmagadora parcela da sociedade se via esgotada com o modelo de direita, em grande parte gerido inclusive por FHC que, mesmo sendo um intelectual de esquerda, não tinha como empreender um governo de esquerda. Não é coincidência que o vice de FHC foi Marco Maciel e o de Lula foi Alencar, homens totalmente de direita. Mas faltou a FHC uma aderência popular que somente Lula conseguiu criar. Desgraçadamente, Dilma não repete a proeza. A triste síntese é a de que não basta ser do PT.

Como o eleitorado brasileiro não desenvolveu [ainda] uma filiação ideológica a partidos, correntes, lados ou teorias, veem-se eleitores completamente emocionais e personalistas, votando, como se diz por aí ‘na pessoa’. Essa canalização pessoal fez de Lula o grande ícone brasileiro, talvez do século, pela inclusão social promovida. Mas não conseguiu salvar o Partido dos Trabalhadores, muito menos Dilma com seu viés de fastio e mau humor pessoal.

Por outro lado, se havia problemas ocultos na gestão de Lula, eles vieram a explodir na de Dilma, fazendo-a pagar um preço insuportável.

Para piorar o cenário aparecem imbecis de plantão pedindo ‘intervenção militar’. Se fosse por cinismo maquiavélico haveria algum ‘respeito’ ao pleito, mas é deficiência cultural mesmo: essa hordinha crê na asneira que fala.

Quanto mais híbridos ou nublados as teorias, os lados, as ideologias e os momentos históricos vividos, mais a necessidade de se vincar ou construir posições verdadeiras, seja de direita ou de esquerda. Naturalmente, com fundamentos culturais minimamente sérios e possíveis.

O PT continua sendo uma frente de esquerda legítima, como todos os outros partidos, PSOL etc. Mas não é a única. E a direita resolveu sair do armário ideológico. O grande problema é que a direita parece ter bons ícones momentâneos e personalistas para lançar, já esta esquerda se vê um tanto quanto esgotada. Numa sociedade cismada mais com a simpatia pessoal do candidato do que com programas e projetos a longo prazo, este parece ser um grande problema para o país.

A ‘volta’ do pensamento conservador no comando do Brasil seria um preço ainda pior. Nunca as teorias e as ideologias, os debates de ideias, foram tão necessários. OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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