Casamento gay e o preconceito contra o amor

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Com a aprovação do casamento gay pela Irlanda, o primeiro país do mundo nessa direção, a questão entra em xeque. Exatamente o país em que a homossexualidade era crime até 1993.

O pensamento conservador e o religioso que condenam o casamento não se importam com pelo menos um grave fator envolvido na questão: o amor, que pode naturalmente nascer entre pessoas do mesmo sexo.

A homossexualidade não é fenômeno regional de uma parte do mundo. Muito menos é cultural, enquanto cepa de hábitos ou modos de uma dada sociedade ou mesmo de um dado continente. Querer reduzir o que há de amor na homossexualidade – como problema pessoal de quem opta ou pertence a essa via -, insistindo que tudo não passa de promiscuidade, safadeza ou pouca vergonha é o farisaísmo reinante e próprio dos intelectualmente desonestos, cujo valor da argumentação deixa de ter valor.

A rigor é difícil saber se tal ‘insensibilidade’ do pensamento conservador é deficiência de percepção e compreensão de questões não primárias, ou apenas o preconceito puro e simples que projeta alguma dificuldade cultural interior preconcebida sobre a questão.

Talvez uma ‘nova’ bandeira do mundo gay pudesse deixar de ser uma alegria carnavalesca cênica que às vezes é utilizada nos desfiles da Avenida Paulista e noutros, para passar a ser apenas o amor, sereno, normal e humano amor.

Não seria totalmente errado dizer que esta visão ‘alegre’ insiste em construir ou manter uma imagem-antídoto, nas passeatas, de que ali todos são ‘felizes’, num tipo de espuma comportamental que para alguns observadores soa falso. Não se precisa da depressiva leitura do personagem gay Molina (William Hurt) no filme O beijo da mulher aranha, quando responde a Valentín (Raul Julia), guerrilheiro e amigo de cela, o que era ser gay: é ser triste porque o que se quer é um homem, e um homem quer uma mulher.

A pauta do amor, humano e normal, talvez seja o mais importante antídoto ao veneno do preconceito, no sentido de por que se impedir o amor e a união de duas pessoas que simplesmente se amam. Repare-se que quando se fala em casamento não se fala em sexo e paquera, fatores que há igualmente no mundo hétero. Fala-se num projeto de vida a dois, cujo fator mais diretamente envolvido costuma ser o amor.

Uma sociedade que impede uma união assim, ou mesmo que ‘rebaixa’ sua possibilidade como um ‘casamento de segunda’ denota um tipo de vingança social preconceituosa. Do tipo, aceitamos, mas entrando pelas portas dos fundos.

O recado da Irlanda para o mundo é sério. O lúcido arcebispo católico daquele país Diarmuid Martin, que se declarou feliz ao ver as pessoas felizes, já disse que a Igreja tem uma nova missão. E terá mesmo. Fazer entrar pela porta da frente as pessoas que se amam, em igualdade de condições, afinal todos são humanos. Simples assim.

O tema precisa ser melhor debatido no Brasil. Muito melhor. Principalmente quando uma bancada religiosa representante do mais genuíno conservadorismo e atraso se ancora no Legislativo brasileiro. Mais, representando bolsões brasileiros também ultraconservadores.

Imprensa, escolas, intelectuais e outros tantos passam a ter um papel ampliado na discussão. Há que se parar de punir quem se ama desse ‘jeito’. Mesmo invocando deuses, credos e certas ‘lógicas’. Parabéns à Irlanda. OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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